......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



30.01.2009
ENTREVISTA COM O POETA POPULAR ROBERTO PEIXOTO

Por Eduardo Sá, da redação. Fotos: Arquivo do entrevistado e Arquivo Fundação Santa Cabrini.

peixoto com jorge ben jor
O poeta Peixoto com o cantor Jorge Ben Jor no Corujão da Poesia, projeto que ocorre todas as terças à meia-noite na Livraria Letras e Expressões no Leblon. Foto: Arquivo do entrevistado

Roberto Peixoto ficou preso durante 23 anos, hoje cumpre pena condicional e vive de vender poesia. Foi criado em vila militar, teve estudo, mas aos 9 anos foge de casa devido a problemas familiares. Ainda jovem se envolve com o crime, assaltos, seqüestros, drogas, mas na cadeia descobre que a cultura pode ser uma alternativa em sua vida. Hoje é escritor, faz poesia para sobreviver, escreveu sua biografia em 490 páginas, tem diplomas, desenvolve projetos sociais em cadeias e tem planos de se tornar professor para crianças carentes. Na entrevista ele fala sobre poesia, faz uma análise sobre o crime no Rio de Janeiro, aponta falhas no sistema penal e as dificuldades que o preso enfrenta ao sair da prisão.

Eu queria que você começasse falando da sobrevivência com a poesia, já que a conjuntura está completamente alheia a esse tipo de produção artística. Como é ser um poeta popular?

É complicado, primeiro por que você não tem informação, o povo não é informado. A grande maioria quer ter dinheiro para tomar uma cerveja como status né, o poder você demonstra no Brasil bebendo cerveja que é o dinheiro que o cara teria que comprar um livro, então é limitado.

Em segundo lugar ele vai para o baile funk que é um outro lugar onde ele possa alcançar mulheres e festinhas. Cultura eu acho que é o último projeto do brasileiro, pelo menos a mente do Rio de Janeiro é assim, ela não é dada ao temperamento.Pega um ônibus ou metrô, poucos estão com um livro na mão, então já tenho essa dificuldade.

O segundo plano é que eu sou preso, estou em condicional, então eu estou sempre oferecendo a poesia já que tem que ser na rua. A gente sai da prisão e ninguém vai te dar emprego, então você tem que gerar renda, o jeito é vender a poesia e associar uma coisa à outra. Eu acho que sem o Estado é complicado, a poesia é uma coisa milenar, sempre tivemos poesia, vindo da prisão acho que seria uma coisa inédita. São 23 anos preso, mostrando que sou diferente, que busquei uma alternativa, sai do crime.

Diante à sua experiência na cadeia, você afirmaria que a cadeia resocializa?

A prisão tem que existir né, se não você executa o cara que vai tirar a vida do outro. Ou você prende, melhor prender. Mas, por exemplo, colarinho branco um ou outro que é preso. Quem vai para cadeia é traficante hoje em dia, antigamente era assaltante e também seqüestrador. Os caras não têm o primário, são caras que nunca foram nem ao Teatro Municipal, não conhecem a cultura do país, conhecem o âmbito em que eles vivem, a favela, a comunidade e as necessidades de dentro. Esse cara tá ali dentro, tem dinheiro para comer, veste marca, é ídolo.

Eu acho que resocializar esse cara é ter uma prisão que dá a ele algo que ele não teve. Olha, isso aqui é teatro, isso aqui é música, isso aqui é poesia, isso aqui é uma máquina, tu vai aprender indústria, corte de costura, que seja. Colocar várias empresas lá dentro, ensinar pelo menos como curso técnico, aqui você vai fazer o primário, fazer o ginásio, isso é a lei te exigindo se não tu não ganha tua liberdade. Eu tenho a lei para te dar, tu sai antes, mas tu vai fazer o primário que você não tem para melhorar teu padrão de vida. Como é que o cara vai sair sem o primário?

E não tem nada desse tipo lá dentro?

Eu estive numa palestra na faculdade federal sobre Bangu, aliás, sobre o complexo Gericinó. Alguém me mostrou fotos de lá, numa cadeia que eu só passei dois anos, aí tinha teatro e trabalho em mais alguns setores. Ah cara, mas aí até as garotas da faculdade mataram: Cara, eles vão dar essa liberdade para um ou dois e o resto dos presos não tem nada disso. Quantos presídios tem em Bangu? Aí fomos contar, Bangu 1,2,3,4,5... não sei que número tá agora, então ele pegou uma das menores e fez tal coisa, entendeu, o diretor do Complexo. Aí junta, pega aqueles presos que são do comportamento dele e joga ali para tirar foto, filmar, e sai fazendo convenção por aí dizendo que está implantando.

Não tem nenhuma troca né

É, você tem lá um pátio de visitas que pintaram o chão e fizeram uma quadra, mas de que adianta se não tem um professor daquilo? Não botam um jogo de camisa na mão do cara e fala, ó tô vindo lá de fora para dizer que você vai treinar e se houver interesse... Acesso, eu acho que a prisão não dá acesso, o soldado da boca podia ter chance, uma troca, sair antes do tempo, se você entrar em algum curso, fazer alguma coisa, fazer esporte, deveria ter iniciativas assim.

Romper com um ciclo vicioso, porque nessa lógica se perpetua, não há perspectiva ...

É, não tendo envolvimento social se perpetua. E aqui fora você não tem a sociedade preparada para você, tu em retorno. Por que que ele não arruma um emprego, fica aí vendendo poesia? Pô, dói, por que que uma pessoa não pega e fala que lindo, eu adoro poesia? Seria a margem, eu precisava que lessem a minha poesia, é diferente.

Qual a mensagem que você busca transmitir na sua poesia?

Minha poesia é da prisão, mas eu não falo em presídio por mais que em alguns casos revolte; eu sou muito crítico social. Eu me prendo muito pouco ao romantismo, eu tenho poemas românticos, mas eles não chegam a 1% de todo o livro que eu quero editar. Quer dizer, eu me prendi mais a essa questão de criticar mesmo, prever o futuro, no passo que vai, tem uma poesia que eu chamo de O futuro chegou.

Lá no tempo de infância eu brincava, o galho de uma mangueira era minha nave espacial, tínhamos brinquedos, de repente eu salto para o futuro e mostro que as crianças não estão mais brincando na mangueira de ficção científica com armas de brincadeira matando Et’s de outro planeta. Eles estão ali na boca de fumo como soldados e olheiros e trocam tiros e morrem em defesa de um território de verdade, isso cresce.

Era uma previsão, eu lembro que quando estava preso e via os garotos chegando muito novos, que indicava que entrava menor numa boca, então é muito grande hoje em dia o número de garotos que entram para olhar, soltar pipa, soltar foguete, treinar, com 12, 13 anos de idade. Ele entra olheiro, vai olhar a boca pro tio, se você ver a polícia você avisa, mas aí o garoto cresce, dá um tiro na madeira, mostra que tem segurança, aí você vai passando ele para frente. No meu tempo não admitia garotos em bocas de fumo menores.

Como é que você busca publicar seus livros? Não tem nenhum auxílio do Estado, e aí?

Sim, eu tenho cinco anos de condicional dos 23 anos que eu cumpri. Aí eu entrei na faculdade federal com esse propósito de digitar meus livros já que eu não tenho computador, estou há dois anos lá digitando a minha biografia que são 490 e poucas páginas, a poesia que dá 200 páginas mais ou menos, e vários livros iniciados, tem texto para teatro, essas coisas, meu objetivo é livro, depois, claro, quero fazer teatro e cinema, se der, televisão. O primeiro passo é estar digitando tudo isso e procuro dar a perceber ao diretor, aos professores, aquilo que eu faço já que deram as condições de eu entrar.

Esse acesso à universidade, como que foi?

Eu fui lá fazer uma palestra sobre direitos na prisão, eu comecei a fazer amizade, eles me levaram no IFCS e eu conheci uma professora. Eu fiz o vestibular, só que eu levei pau em matemática. Ao ler então os livros que eu trazia, ela pegou vários livros e minha biografia, por isso ela se interessou ou não, e agora eu sou ouvinte para alguns alunos. A minha biografia é praticamente uma tese de ciências sociais, uma criminologia no Rio de Janeiro, a minha própria história, uma visão para o Brasil e o mundo.

Fala mais sobre essa biografia

Na biografia eu conto, por exemplo, os tráficos que eu fazia, do assalto, como começou esse crime organizado, eu venho anterior a isso. O porquê, hoje o verdadeiro bandido não assalta e não seqüestra, ele trafica só. Quer dizer, ele subiu o morro e plantou as bocas onde já tinha uma boca desarmada, ele te punha as armas. Hoje você condiciona o cara, ou você trabalha no tráfico ou tu tá morto. Vai roubar, a polícia sobe o morro por causa de um ladrão pé de chinelo e como atrapalha o tráfico você vai matar esse cara, acaba fazendo a lei. Isso tudo aconteceu há alguns anos atrás por que eles vão fazendo acordos com o crime e o crime com eles. Quebram acordos, quando quebra a própria polícia faz, o Estado não tem acordo mas o policial vai lá na boca e pega uma propina, fica tranqüilo.

Quer dizer, nessa coisa eles foram condicionando o cara, condicionou o bandido mesmo que agora é o traficante, você não tem mais grandes assaltos, acabou, não tem um assalto a banco hoje. Sei lá, eu acho que editar esses livros é um passo maior, eu tenho esperança na biografia comum para a Editora Record, ela está aguardando esse livro né, eu mandei por e-mail mas ela recusou, ela quer o livro impresso. Sei lá, estou sem editor, tendo editor é legal que o cara te dá os direitos autorais, eu edito um livro e ele te dá um mínimo, tu vai ganhar conforme a venda.

Agora como eu não tenho grana para editar o meu próprio livro a esperança está na poesia, a esperança é que alguém me edite ou que alguém me patrocine. É uma história que eu acho que tem que andar o Brasil, servir de exemplo, mostrar as falhas do sistema penal. O livro me levou à condição de criar, a sonhar, eu não sou poeta, a poesia na verdade é só para poder vender meu trabalho na rua por que eu sou escritor. Adquiri culturas na prisão, tirei diplomas, sempre a cultura que eu fiz é voltada para o que eu vou escrever, mesmo teologia, o grau mais alto da prisão.

E como é que você vê a situação da poesia no país, essa coisa de você estar investindo mas o mercado da poesia ser bastante limitado? Como os jovens, a sociedade recepciona?

Os jovens bastante, não é muito aberta, acho que é a questão de quebrar e mostrar. Eu costumo usar o argumento de que a poesia é eterna, várias culturas faliram, deixaram de existir e a poesia sempre esteve presente. Então eu acho que morrer jamais porque você não preserva a língua sem poesia, você não faz ensino fundamental sem poesia, todo aluno em escola primária tem que ler algum poeta na vida.

Você tem alguma substância nessa sua poesia crítica relacionada a algum tipo de militância, algo pedagógico?

A grande maioria é quando é crítica, é crítica mesmo, eu vou pro ataque. Mas tem poemas que eu vou dizendo quais os caminhos que a sociedade tem que tomar, tento colocar isso em poesia. A boca não se responsabiliza pelo assaltante, ela não vai dar arma, se o cara assaltar e subir o morro ele corre risco de vida por que se a polícia sobe ele morre, então é uma coisa do Estado né. Você mata o bandido e eu te dou a condição de você vender droga, sei lá, eu acho que esse processo facilitou, melhorou alguma coisa.

Alguns crimes deixaram de existir, mas se você tem um preso na mão para fazer com que ele crie uma facção, ele cria, mas você tá lá, você põe arma na mão dele, como o Fernandinho Beira-Mar tem metralhadora, pistola, note book, tem tudo, então você dá esse acesso. Não vai ensinar que deu, mas ele vai chegar de uma forma suja. Por que que ele não faz chegar o voto, o trabalho, a educação?

Eu tive conversando isso com alguém na justiça, sempre foi assim no Brasil, que a cobra você cura o veneno dela com o próprio veneno. Porque o negócio é criar mesmo uma facção e dar espaço ao preso para que ele se condene com isso e uma vez que ele manja isso o Estado lucra, infelizmente é o que pega, ao invés de entrar com um lado mais cultural e educativo ele entra com o crime.

Acho que a gente chegou numa hora que não dá mais cara, tu foi preso por que tu roubou, traficou, e acabou, aqui não tem facção porra nenhuma, aqui tem escola, tem trabalho, tem educação. Não tem que comandar, porque já que é bandido mesmo, então faz o seguinte, dá uma arma pra ele desde que ele comande comigo porque vai prevalecendo do jeito que tá na boca de fumo, já que na cadeia está sendo assim ele vai ser no futuro a mesma história. Vai estar de frente numa boca aquele que está de acordo com o Estado, aí ele vai dizer claramente, somos nós quem facilitamos tua arma e a droga tá, agora tu tá trabalhando para a gente; que babaquice.

Então eu quero sair por que entrei no crime, porque eu achei que era bandidagem, aí o Estado vai observando, depois tudo bem. Aí tu preso vai cair na realidade por que na cadeia na primeira vez que você é preso é que você vai ver que existem comandos e que você dentro do crime só tem dois caminhos, você vai acabar morto ou preso. Então se você não quer morrer cara, você tem que estar preparado para enfrentar o chefe, chefes que trabalham junto do Estado às vezes.

O grau de conivência se alastra pelo sistema inteiro

Não estou dizendo que a lei está com o Fernandinho Beira-Mar, mas quem deu a arma?

As drogas de certa forma também, o próprio processo de refinamento da cocaína é caro e não vem de dentro das comunidades

E o garoto que está lá dentro cresce com essa visão, o Fernandinho Beira Mar tá lá e tem pistola, mesmo na cadeia o cara é herói, Escadinha foge de helicóptero, as facilidades né, tem os que combatem mas tem aqueles que facilitam. Quando o certo é trabalho e educação e quem facilita o preso para o mal que seja colocado na rua, e aí? Complicado né.

Mas o meu negócio é a poesia, mostrar que você tem outro caminho. Ah, mas você nunca deu um tiro, já, já trafiquei, já assaltei também e já fiz coisas até piores, podia ter morrido dentro da cadeia, sobrevivi e atuo na cultura. Engraçado que escrever bem dá até a vida né por que às vezes a galera está para morrer na cadeia, mas o Peixoto não e esse cara é da cadeia e escreve bem, não assina crime contra gente, não cagoeta, mas faz bons documentos para a justiça. Faz cartas de amor para a mulher da gente, a gente precisa dele por que a grande maioria não tem cultura nenhuma.

E essa coisa de trabalhar quando sai da cadeia, você chegou a procurar emprego e não arrumava nada?

Bastante, tive até na porta do governo brigando, xingando, por que não tinha as portas. Me prende então, isso é o poder. Aí o juiz acabou entendendo, ah deixa esse cara, se passar das 9h na rua não prende, se tomar uma cerveja deixa para lá, porque ele está certo.

Tem juiz aí que já me falou, cara eu até compro a poesia porque te empregar no Fórum eu não posso, você está cumprindo condicional e a lei diz que você não pode trabalhar no Estado. São coisas que, não sei né, eu acho que tem que haver mudanças, me vedam e me empurram para a iniciativa privada, aí a pessoa tem uma loja, uma fábrica, uma empresa, mas se o governo não te quer por que eu vou querer? Por que que tu não trabalha lá no Fórum? Por que que tu não trabalha numa delegacia? Por que que tu não trabalha num cartório de um juiz? De um advogado? Por que tu não trabalha na justiça cara, se você é preso deles? Ah, mas não me dariam essa chance.

Além das leis ainda tem os preconceitos que se sustentam pelos costumes, toda uma cultura

Eu tô cumprindo lei até 2018, eu acho que devia mudar justamente por que já que eu venho estudando, venho tirando diploma, precisa fazer um concurso né, dá mais chance de segurança, ter um bom emprego. Eu pensei em dar aula no próprio governo, dar aula para prefeitura de repente, para crianças pobres, em escola em lugar de risco como tem no lixão em Caxias, lugar com favela de pau.
O caminho daqueles garotos se não for o crime é terminar pobre, fudido, dentro da favela catando papelão porque os pais não têm interesse.

Então eu tenho 51 anos com uma idade lutando contra mim, tenho 23 anos dentro de uma prisão, a única vantagem que eu trago é a cultura que é uma merda toda. Você acaba estudando para se entender e seus problemas sociais, chamei isso de justiça por que a gente é condenado sempre pela lei e o branco não. Sempre é o mais negro, o mulato, o mameluco, são os nossos, os miscigenados e os pobres que estamos presos. Quer dizer, numa lei que vai atendê-los por que tudo é dinheiro, advogado particular, quanto mais dinheiro gasta vai amenizar por que se não ganha liberdade foge, as fugas são compradas também.

Então a cultura ao mesmo tempo pode ser um problema também?

Eu vi a cultura como um acesso para ganhar minha liberdade e de repente era meio bloqueio também. Eu não me vejo roceiro dada a cultura adquirida, se eu não tivesse meio aculturado eu aceitava as propostas de trabalhar em sítios como caseiro, mas para correr do crime. Mas quando você estuda você começa também a conhecer gente, gente também que tem o mesmo desejo e tem o poder.

Eu conheci o senador Abdias do Nascimento, Artur da Távola, a Benedita da Silva, são ligações que eu não sei se jogaria fora né. Começam a vir para mim e eu vou jogar fora para ir lá para roça e que que eu vou fazer com o meu estudo e a minha poesia na roça? Trabalhar num sítio de repente numa casa distante de qualquer outra casa, então o Estado tem esse problema para enfrentar no futuro, seria aculturar o preso, aí o preso também não vai aceitar qualquer coisa, o cara vai te matar no morro vendendo maconha.

Se o Estado resolver virar parceiro e levar toda a estrutura para a prisão ele vai transformar da noite para o dia a prisão. Uma gama de presos vai largar o crime por que vão ter acesso, mas esse cara não vai querer ganhar 200 contos e morar na roça, também não vai querer ficar mais dentro do morro.

Qual a sua opinião nesse contexto relacionando a questão da segurança pública, aqui no Rio principalmente, com os meios de comunicação?

Eu acho que a imprensa dá muito destaque ao crime, ela choca com o crime, assalto em tal lugar, alguém matou, alguém foi morto, principalmente a polícia matou, eu acho que isso não muda, não muda o bandido, não muda o Brasil.

Acho que mostrar o cara, ex-bandido mas hoje professor, é mais interessante que um crime, bandido não tem instrução mas quer se ver no jornal, a mídia só facilita nisso. O bandido quer se ver no jornal, ele quer ver mesmo que seja morto. Ah morreu um parceiro, tá aqui cara óh, tomou três tiros, trocou com a polícia, é a glória do cara. Sei lá, eu acho que devia ter esse processo que você está fazendo, por exemplo, meu testemunho como um cara que começa um processo novo. Isso é comum ver no jornal?

Não tem nenhum processo de contextualização com o que quer que seja

E isso não vai mudar a cabeça do cara.


foto santa cabrini
Loja da Fundação Santa Cabrini, onde são vendidos produtos feitos por presidiários: Largo do Machado 48, Catete-RJ. Foto: Arquivo Fundação Santa Cabrini.

Você pega essa questão da violência e hoje em dia não se fala que a abolição foi há pouco tempo, não se fala que a maioria dos presos são negros e por aí vai...

Não, essas informações no jornal não vai passar por que isso ajuda o cara a pensar. Então a maioria é assim, um branco tá usando o poder, que que eu posso fazer? Combatê-lo? Mas eu posso combatê-lo com as mesmas armas como o Mandela, preso, comandar seu país, porque se a cultura é mais, continua coeso o povo e ele vai sair para ser livre.

Eu nunca vejo isso no jornal de bandido que deu certo, para você se ver no jornal é bandido morto, é a história que tá matando até que morre. Agora o cara que muda a vida ele não morre, se ele muda de verdade ele vai ter verdadeiros valores e amigos que o defende, andar só nos meios certos.

A mídia tem que usar mais a cultura, mostrar o preso que faz poesia, faz teatro, será que não tem ninguém fazendo isso lá dentro? Por que ele quer isso, né? Quer dizer, mostrar o cara que está dando certo ou não tem ninguém, com exceção dos poucos artistas plásticos que estão presos e mandam essas artes aqui pra fora que é uma iniciativa do Estado.

Essa é a Santa Cabrini, uma loja que fica ao lado da igreja católica no Largo do Machado, numa rua estreita que nem passa carro, ninguém conhece a loja e não tem mídia divulgando. Pega a Santa Cabrini, tem quadros, móveis de presos, mostra aquilo, esse é um cara que pode dar certo, mas eles não mostram. Você mostra o crime, mas mostra essa loja também, mostra esses caras aí, falta isso.

Alguns dos produtos vendidos na loja: (Fotos: Arquivo Fundação Santa Cabrini)

Segundo o cartaz exposto na sede da Fundação: "A Fundação Santa Cabrini é responsável pela organização e promoção do trabalho no Sistema penitenciário, utilizando a mão-de-obra prisional em diversas atividades remuneradas. Além disso, desenvolve diversas ações com o objetivo de reciclar e profissionalizar os detentos, seja em regime fechado, aberto ou semi-aberto".

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