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CRÔNICAS POSSÍVEIS
17.07.2008
A relatividade das lágrimas
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Ela já desperta com o rosto banhado em lágrimas. Desolada, a família lamenta:
- Ó, minha filha – diz a mãe.
- Ó, minha filha – diz o pai.
- Ó, minha irmã – dizem os irmãos.
Os tios, avós, et cetera também se desesperam com o desespero da menina, também se lamentam:
- Ó, minha menina – dizem.
A menina, no entanto, pouco se ocupa dos lamentos da família. Tem seus próprios interesses – e por isso chora. Antes de mais nada, agrada-lhe profundamente o sabor das lágrimas, o tempero balanceado do sal que lhe escorre pelo rosto. Ela é, sem que ninguém suspeite, uma artista, uma alminha dotada de extremo senso poético. Que coisa mais linda amanhecer e anoitecer aos prantos!, pensa ela, que alegria inigualável é chorar! A sua família, contudo, pouco vai além das aparências: quem chora sofre, pensam, categóricos, os pais irmãos et cetera. À noite, no escondido dos seus lençóis, choram de verdade, preocupados, enquanto a menina descansa tranqüilamente para mais um dia de lágrimas.
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> Cláudio Parreira não nasceu em 1983 como todo mundo supõe. Um pouco antes, talvez. Ou depois — tanto faz. Formado na Escola de Altos Estudos Baixíssimos da cidade de Birigui-Mirim, interior central de Mato Grosso D’Oeste, é também Doutor Honoris Causa Própria — título gentilmente concedido pela Faculdade de História Desconexa da Bavária. Fala fluentemente uma língua e meia, mas tem especial predileção pelo javanês, saboroso idioma introduzido nestas plagas pelo saudoso Lima Barreto. Atualmente o cara se vira como pode. Os contos publicados aqui são um belo exemplo do que é capaz o gênio. Seu endereço na Internet é http://www.blogppc.blogger.com.br – mas, como se recusa a pagar aluguel, pode ser despejado a qualquer momento.
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