Na sexta-feira de carnaval, a Polícia Federal, com um Mandado de Reintegração de Posse, despejou os estudantes que acampavam desde 4 de abril de 2006 nos jardins da Universidade Federal Fluminense. Alunos e professores foram impedidos de entrar na Universidade e, segundo os seguranças que trabalham nos portões da UFF, essa é uma ordem direta do Reitor Roberto Salles e vai durar até esta segunda-feira, dia 11 desse mês.
Os estudantes que estavam acampados (Mário, Chorão, Mariane, e Marcos) foram acordados pelas duas viaturas da Polícia Federal e três da Polícia Militar que, junto a três oficiais de justiça, desmontavam as barracas do acampamento. Segundo o aluno Mário, integrante do Acampamento Maria Júlia há um ano e dois meses, os oficiais de justiça não deixaram que eles lessem o mandado, apenas deram dez minutos para retirar alguns de seus pertences de dentro das barracas e se retirarem do campus do Gragoatá.
Os estudantes levaram o pouco que conseguiram carregar para o Diretório Central dos Estudantes da UFF, onde devem ficar até a abertura dos portões do campus do Gragoatá.
Objetos pessoais que não puderam ser carregados pelos quatro estudantes que estavam no local, assim como as barracas do acampamento Maria Júlia Braga, foram levados para o depósito da Polícia Federal.
Nos portões de entrada pende o cartaz com os dizeres “Programa de Acolhimento Estudantil”, porém, a política da UFF vai bem aquém desta idéia. Segundo o estudante “Chorão”, que estava no acampamento no momento da ação da polícia, o despejo “é uma reação do reitor, que, desde a última ocupação da reitoria, que terminou dia 23 de outubro de 2007, falou que ia tirar a gente (Acampamento Maria Júlia Braga) daqui e esperou um momento mais frágil da ocupação.”
Assim que chegamos, uma jornalista da ADUFF (Associação de Docentes da UFF) que havia tentado entrar na Universidade e tirado fotos de policiais federais estava sendo ameaçada de prisão por desacato à autoridade. Jornalistas do jornal O Fluminense também foram impedidos de entrar no local, assim como representantes da mídia alternativa.
Leia abaixo nota da Associação dos Docentes da UFF.
POLÍCIA FEDERAL FECHA O CAMPUS DO GRAGOATÁ E DESALOJA ESTUDANTES DO ACAMPAMENTO
Por Associação dos Docentes da UFF
Cumprindo um mandado judicial impetrado pela Reitoria, a Polícia Federal ocupou o Campus do Gragoatá na manhã de sexta-feira (dia 1° de fevereiro) para despejar os estudantes do Acampamento Maria Júlia Braga, que lutam há 1 ano e nove meses por uma solução para a moradia estudantil. Por volta das 9 horas duas viaturas da PF acompanhada de veículos da universidade entraram no campus e impediram a entrada de qualquer pessoa, inclusive professores e alunos da universidade.
Além disso, membros da imprensa sindical e do Jornal O Fluminense não puderam cobrir os acontecimentos, valendo registrar que a jornalista da ADUFF foi agredida e retirada à força do interior do campus, sendo ameaçada por um policial de ser detida por desacato à autoridade. As duas empresas de segurança (Centauro e Croll) terceirizadas, que prestam serviços à UFF, utilizaram de força para impedir o acesso da imprensa e de diretores da ADUFF no campus para acompanharem a operação policial. A PF, com apoio de veículos da UFF, retirou toda a estrutura e os pertences dos estudantes, levando-os para o depósito público, permanecendo nas dependências da universidade até o fim da manhã.
“Fui acordado às 9h30 da manhã por um oficial de justiça que nos apresentou um mandado de reintegração de posse e disse que teríamos 10 minutos para retirarmos nossas coisas e que o restante seria levado para o depósito público. Havia poucas barracas porque as recentes chuvas destruíram parte delas. Peguei o que deu para pegar, mas muita coisa foi levada. Quando saímos da ocupação no hall da Reitoria, em outubro do ano passado e voltamos para o acampamento no Gragoatá, a Reitoria garantiu que não usaria violência para retirar os estudantes, mas aproveitou o carnaval para usar de força e covardia contra nós”, disse um dos estudantes do acampamento.
A diretoria da ADUFF repudia mais um gesto de truculência da atual Reitoria, que tudo indica, prefere resolver os impasses e as divergências, comuns em qualquer comunidade universitária, utilizando-se de força policial. Os graves acontecimentos que marcaram recentemente a história da universidade com a aprovação do REUNI em sessão do Conselho Universitário realizada fora da UFF, no Palácio da Justiça, com policias impedindo com violência o acesso de professores, técnicos e estudantes contrários ao referido projeto governamental, indicam que teremos, nos próximos anos, tempos sombrios na vida política de nossa universidade.
Na véspera de carnaval, com o campus esvaziado, a atitude da Reitoria ganha um requinte de covardia, não restando outra alternativa aos estudantes e professores que tentaram acompanhar a operação policial no campus senão a de divulgar e denunciar mais um golpe dos dirigentes da UFF, que parecem ter escolhido o caminho do autoritarismo e da truculência para a gestão da vida universitária.
Chamamos a toda a comunidade à vigilância em relação aos riscos apresentados por tais atitudes e à construção coletiva de estratégias de ação que retomem a democracia e o diálogo como parâmetros da convivência universitária.
Diretoria da ADUFF-SSind - Gestão "Combatividade, Autonomia e Democracia", biênio 2006/2008