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04.02.2007
POLÍTICA, CIDADANIA E JUSTIÇA SOCIAL EM DISCUSSÃO

Por Fabíola Ortiz - contato@fazendomedia.com

“O Brasil é uma peça-chave no Fórum Social Mundial, é expressão da nova cidadania, da nova sociedade civil”, afirmou Cândido Grzybowski (foto), diretor-geral do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e também integrante do Conselho Internacional do FSM.

Cândido Grzybowski. Foto: Gustavo Barreto

Cândido acredita que o diálogo e a troca de idéias são as bases do Fórum, mas ainda há novos desafios a enfrentar pela frente. “O fórum vai evoluir mais, a gente vai começar a formular alternativas de políticas públicas”, comenta.

O Dia de Mobilização e Ação Global contou com mais de 800 eventos em 72 países. No Brasil, o Fórum Social Mundial (FSM) 2008 mobilizou no dia 26 de janeiro cerca de 60 atividades espalhadas por diversos cantos do país. E no Rio de Janeiro, o dia de mobilização teve o nome de Rio Com Vida e reuniu diversos movimentos sociais, artistas, redes e fóruns para discutir política, cultura, direitos humanos, educação, meio ambiente, entre outros temas no Aterro do Flamengo.

Cerca de dez mil cariocas circularam pelas sete tendas temáticas espalhadas no parque do Flamengo. Cada tenda tinha um tema especial, como economia solidária, artes cênicas, audiovisual e a tenda das idéias. Foram 150 organizações e redes representadas na Tenda das Idéias, que tinha como objetivo reunir e compartilhar projetos, campanhas e debates.

Segundo Cândido, o Rio Com Vida está inserido na iniciativa de descentralizar o FSM, pois a idéia é atrair pessoas que não poderiam comparecer se o evento se concentrasse em apenas um lugar. “Ao descentralizar a gente tentou concentrar um dia que fosse em torno do Fórum Econômico de Davos”, explica. Por isso, para Cândido, o Dia de Mobilização e Ação Global representa a “mobilização da nascente cidadania planetária que tem muitas caras, vozes, culturas, porque nós somos diversos, nós queremos um outro mundo que não seja homogêneo, um mundo da diversidade, das várias culturas e identidades afirmadas”, ressalta.

Bruno Cattoni, do Movimento Humanos Direitos e também integrante do Comitê Rio para o FSM, acredita que o evento no Rio de Janeiro simboliza a pluralidade. Cattoni destaca que apesar do Rio de Janeiro estar sofrendo com episódios de violência, há muitos pontos positivos na cidade. “O Rio tem muita vida, ele é a cidade brasileira mais solidária, o povo não é violento, o povo é hospitaleiro”.

Outro participante do evento foi o teatrólogo Augusto Boal, fundador do Teatro do Oprimido. Ele esteve no Aterro do Flamengo como um dos convidados especiais para falar sobre cidadania. “O primeiro dever do cidadão não é viver em sociedade, é transformar a sociedade, eu não sou cidadão se eu não faço nada para transformar a sociedade. No mundo existem ricos e pobres, opressores e oprimidos, os que mandam e os que obedecem, existem preconceitos de todos os tipos”, disse Boal para um grande público reunido na Tenda das Idéias.

A Baixada tem alegria
José Candido de Oliveira Boff. Foto: Gustavo BarretoO Circo Baixada, uma das iniciativas presentes no Rio Com Vida, trabalha desde 2002 com crianças e jovens de 7 a 24 anos de oito municípios da Baixada Fluminense. O coordenador geral do projeto, José Candido de Oliveira Boff, o Zeca, explica que o circo social visa integrar adolescentes que vivem nas ruas às suas famílias e desenvolver oficinas de arte circense.

“A gente surgiu em 2002 a partir de uma pesquisa realizada pela rede Rio Criança que apontava que cerca de metade das crianças em situação de rua no Rio de Janeiro vinham da Baixada Fluminense. O circo social desenvolve projetos de arte e educação com essas crianças, mas também dentro de uma perspectiva de integração familiar”.

O Circo Baixada foi instalado no município de Queimados, um dos municípios que apresenta um dos menores índices de desenvolvimento humano (IDH). “A gente trabalha na mobilização social e incidência política, ou seja, propor políticas públicas para as necessidades que observamos a partir da nossa intervenção”, diz Zeca.

O coordenador explica também que algumas pontes podem ser construídas entre o imaginário da rua e o imaginário de circo. “Muita gente fala, por exemplo, andar na corda bamba, fazer mágica para sobreviver, essas também são expressões ligadas ao universo do circo. O que a gente observa com crianças que estão em situação de rua é que elas têm uma mobilidade muito grande, assim como tem o circo. O circo é itinerante por natureza, e a criança de rua tem um movimento, ela está ora no abrigo, ora na rua, ela tem uma oscilação grande entre os diferentes espaços”, aponta.

O núcleo do Circo Baixada reúne 20 pessoas entre educadores, assistentes sociais e profissionais de circo e atinge diretamente 240 jovens e famílias da Baixada Fluminense. No Brasil, há 22 instituições que trabalham com a iniciativa do circo social e contemplam cerca de dez mil jovens.

Participação das mulheres na Economia Solidária
No Rio Com Vida, barracas de Economia Solidária também marcaram presença. O grupo das Arteiras é uma cooperativa que reúne 14 mulheres donas de casa da comunidade Casa Branca na Tijuca, na zona norte do Rio, que trabalham como artesãs e produzem cadernos e agendas com papel reciclado.

A cooperativa existe há oito anos e trabalha com a proposta da economia solidária, que é uma economia voltada para a geração de trabalho e renda. A economia solidária tem como objetivo promover a democratização dos ganhos da produtividade e desenvolver formas de trabalho economicamente viáveis e sustentáveis.

Rogéria Dantas, de 46 anos, uma das fundadoras do grupo das Arteiras, disse que desde adolescente trabalha em atividades comunitárias. “É um prazer, gosto muito de trabalhos manuais”.

Segundo informações do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher, no Brasil, 21% das mulheres negras são empregadas domésticas e apenas 23% delas têm Carteira de Trabalho assinada – contra 12,5% das mulheres brancas que são empregadas domésticas, sendo 30% com registro em Carteira de Trabalho. A inserção das mulheres no mercado de trabalho tem sido caracterizada pela precariedade, que atinge uma importante parcela de trabalhadoras.

Para Rogéria, o trabalho em cooperativa complementa a renda na família e estimula a solidariedade. “É uma troca de idéias e de comportamentos”, afirma. Ela acredita que, a partir de atividades como essas, é possível mostrar a independência de mulheres. “A cooperativa é de mulheres que querem mostrar seu potencial e que elas são capazes de contribuir com a renda”, acrescenta.


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