......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



SERES OU RESES

24.12.2008
A General Motors/Mortos vale mais que você – que todos nós

George Bush disse na televisão explicando os 17 bilhões de dólares liberados para duas das maiores montadoras de automóveis do mundo, a GENERAL MOTORS/MORTOS e a CHRYSLER, “que numa economia de mercado o ideal seria deixar as empresas irem à falência, mas vivemos um momento de crise mundial e o governo deve ajudar para evitar o desemprego”.

Falou sobre recessão também. Evitar que os norte-americanos sofram com uma profunda recessão caso as duas montadoras venham a falir. A FORD não necessita de ajuda imediata, só lá para março.

É claro que a falência de duas empresas como a GENERAL MOTORS/MORTOS e a CHRYSLER significaria milhões de desempregados, até pelo efeito dominó sobre toda a teia que gravita em torno da aranha real, a montadora.

Só que o problema é de modelo. O modelo político e econômico que, em última instância determina o social. E é esse modelo que torna o automóvel um bem mais precioso que a vida humana. Que um ser humano.

Coisas do “deus mercado”. O estado há de ser mínimo e privatizado quando se trata de saúde, educação, de programas sociais de combate a fome e outras mazelas que afligem milhões de latinos, africanos, asiáticos, norte-americanos também, mas há de ser pleno no amparo e apoio aos seus principais acionistas. No caso, as montadoras disputam com os bancos a primazia de controle desses aparelhos, em qualquer lugar onde esteja em vigor essa perversa face do capitalismo, o neoliberalismo.

Há uma história antiga de um banqueiro e um mendigo rezando numa igreja, aflitos, preocupados e lá pelas tantas o banqueiro pergunta ao mendigo o que ele está pedindo e o dito responde “um prato de comida”. O banqueiro irritado tira uma quantia suficiente para um mês de pratos de comida e diz – “vá comprar sua comida, não amole a santa com bobagens pequenas, a deixe preocupar-se com problemas sérios como o meu e concentrar-se para me ajudar”.

Banqueiros hoje não rezam, se é que já rezaram algum dia. Banqueiros são deuses do mundo do “deus mercado” em suas múltiplas faces. Como montadoras de automóveis.

Automóveis são símbolo do capitalismo em sua fantástica capacidade de seduzir seres humanos e transformá-los em meros adereços, objetos de uma sociedade protegida por bolhas de vidro.

É o que se anuncia para a edição do BBB-9. Os “heróis” da GLOBO serão protegidos na primeira semana por uma bolha de vidro.

Réplica da grande bolha que envolve esse extraordinário mundo de guirlandas e luzes sustentado pelos adereços que ainda têm formas humanas e carregam o esplendor da GENERAL MOTORS/MORTOS, de todas as montadoras, ou dos grandes conglomerados financeiros naquela parafernália decifrada por Kafka no conjunto de sua obra e não especificamente, na essência, a bolsa de valores, ou as bolsas de valores.

Tem sempre um Bush para “orientado” por “vozes divinas” para “libertar” um Iraque, um Afeganistão e cuidar do petróleo, das riquezas que iraquianos e afegãos, com certeza, “não saberiam ou souberam cuidar”.

O carregamento de perus enviado pelo Reino Unido aos soldados ingleses que “salvam” os afegãos foi destruído num ataque das forças “terroristas” do Talibã.

Como vai ser agora não sei. É possível que nos pacotes de ajuda aos bancos, montadoras, etc, consigam uma beirada para outro carregamento aos bravos “libertadores”.

Já os africanos com fome. Ou os americanos em abrigos por conta dos furacões mais recentes...

Bom. Barbra Bush, mãe do atual Bush, disse que os que perderam suas casas em New Orleans estão melhores nos acampamentos – “comem três vezes ao dia e podem tomar banho”.

Na quinta-feira, acompanhada do marido ex-presidente, do filho ainda presidente e do outro filho, ex-governador, vão juntos orar e agradecer ao estranho “deus” deles os anos de petróleo e “negócios” fartos.

O resto... Tirando as montadoras, bancos, as grandes empresas e “nossos bravos rapazes que levam liberdade aos quatro cantos do mundo”, o resto é o resto e que se dane.

Em seguida à breve pausa da hipocrisia costumeira dos governantes em cada final de ano, novos pacotes para evitar que os grandes quebrem e os cá de baixo fiquem desempregados.

Só não explicam que os cá de baixo pagam a conta.

A porta-voz de Bush ficou o olho roxo no episódio do par de sapatos do jornalista iraquiano Muntadir Al-Zaidi. É que no afã de “salvar” o supremo mandatário, agentes secretos acabaram imprensando a moça, Dana Perino. Um dos agentes enfiou um microfone num dos olhos da moça que é musa da turma de jornalistas credenciados na Casa Branca. Para explicar o fato e evitar algum mal entendido Dana concedeu uma coletiva.

E sobre a frase de Muntadir – “é o seu beijo de despedida cachorro” – o comunicado oficial para a mídia domesticada registrou “interrupção do público”. No Afeganistão, quando um jornalista disse que o enviado do todo poderoso, o dele, estava mentindo, “o Talibã está forte e rindo do outro lado da fronteira”, o anotado na versão oficial foi “não traduzido”.

Lembra-se de uma propaganda de uma das montadoras que pululam pelo mundo em que a mulher sai com o carro novo do marido e quando volta com uma corbeille de flores para o dito ele sequer olha para as flores ou a mulher, corre para ver se o carro está “bem”?

São os santos da nova corte celestial, a do capitalismo. E tanto faz, no versa ou no vice.

Há anos atrás, quando da inauguração de uma dessas montadoras, da MERCEDES/HEIL HITLER, financiadora da OBAN – OPERAÇÃO BANDEIRANTES – esquadrão da morte da ditadura militar no Brasil, perguntaram a um executivo da empresa o que ele enxergava no fato e ele foi direto: “a oportunidade de conhecer a mulher brasileira”.

Como não podia deixar de ser ao lado dele estava um tucano que riu e emendou – “são belíssimas e sensuais e saberão dar boas vindas ao progresso”.

A GENERAL MOTORS/MORTOS vale mais que você, Que todos nós.

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> Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, trabalhou no Estado de Minas e no Diário Mercantil.

Ilustração: Táia Rocha

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