......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



SERES OU RESES

05.12.2008
“Não dê amendoim aos macacos”

Sérgio Porto, então caixa do Banco do Brasil, foi quem colocou um aviso desses dirigido aos clientes. Nem se tratava, penso, da questão salarial propriamente dita. O Banco Brasil era, àquela época, o sonho de qualquer mãe para o filho, ou uma eventual sogra. O extraordinário criador do FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País) percebeu o caráter desumano e o alto preço pago a despeito de todas as eventuais vantagens e prerrogativas na função. Ia mais além, no próprio modelo.

Não sei se a gerência mandou ou não tirar, mas ouvi de um gerente do mesmo banco, lá vão uns 30 anos, que para entrar naquele estabelecimento e pretender alguma coisa era preciso ser alguém. O dito cujo estava menosprezando um exportador de rapé. Rapé mesmo. Em Hong Kong havia algumas centenas de milhares de cheiradores de rapé e a empresa, pequena, atendia ao mercado.

A saída, me contou depois o empresário, foi buscar recursos junto a bancos de Hong Kong, a juros mais baixos inclusive, mas a um custo final mais alto, pois aí entrava a tal comissão, etc, etc.

Nada ilegal, só custo mesmo.

Com o passar dos anos, digamos assim, as agências de publicidade conseguiram permissão para dar amendoim aos macacos. Transformaram legiões de supostos seres humanos em consumidores desvairados. O sujeito espirra marca de cerveja e debaixo de um chuveiro (desses que queimam por qualquer coisa, a indústria nacional é uma droga nesse campo) e aparece um copo da tal cerveja servido solenemente por uma bela moça, um garçom, não importa. O que vale é o espirro.

Há quem ache graça.

A VALE, dada por Fernando Henrique a grupos estrangeiros passando por fundos de pensão, nas manobras que enriqueceram tucanos e adjacências, está demitindo funcionários no mundo inteiro, reduzindo a produção e dando férias coletivas. Mais de duzentos funcionários são de uma unidade em Minas Gerais, estado governado diretamente do Rio de Janeiro por um governador que, certamente, não cheira rapé.

William Bonner com aquela piscação que sinaliza as mentiras maiores chamou a dita de “empresa brasileira”. É que na cabeça dessa gente o Brasil se insere no contexto globalizado da verdade absoluta de bancos, grandes conglomerados, latifúndio, toda a sorte de criminosos cujas atividades foram legalizadas e agora se acham diante de uma crise sem tamanho. Não sem saída. Eles criaram e eles resolvem. Só fazem usar o dinheiro do cara que espirra e materializa um copo de cerveja.

Um outro, acreditando piamente que na construção civil exista qualquer princípio diferente de qualquer quadrilha, foi lá e fez um desses cursos que a GLOBO ministra às cinco da manhã e pega uma grana do governo, quer dizer contribuinte, do próprio, ou num desses colégios privados que pagou passou, largou um emprego e pegou outro confiante no progresso. Foi demitido.

Pode-se gastar a vontade, foi o que disse Lula, o que não tem a menor idéia do que se passa à frente do próprio nariz. Perdeu o emprego. Lula não, o crédulo no modelo político e econômico.

Todas as soluções propostas para evitar tragédias como a de Santa Catarina passam por palavrinhas mágicas como “ocupação irregular”. Quando a mídia, a GLOBO principalmente (é a maior máfia do setor) vende essa idéia e critica autoridades, a sensação que se tem é que está falando de pessoas carentes, excluídas, sem recursos, quando na verdade, em Brasília, por exemplo, as margens da Lagoa Paranoá foram ocupada pelas elites com o consentimento do ex-governador Joaquim Roriz (perdeu o mandato de senador por corrupção e olha que é difícil nesse esquema interpares, a coisa tem que ser feia de verdade). A própria filha da figura tem ou tinha, teve, um restaurante de alto luxo onde era possível chegar de barco e ser servido no próprio barco.

Usineiros não estão pagando a plantadores de cana de açúcar. Latifundiários dão mostras de desespero, pois os bancos nessa hora mordem como podem e do jeito que podem e podem tudo em qualquer lugar onde “funcione” o neoliberalismo e onde o “deus” seja o mercado.

Aí, corta para outra cena. Uma baita seca no Rio Grande do Sul e os plantadores de soja transgênica, devendo à MONSANTO, dona do negócio e das sementes. Devendo aos bancos, donos de tudo inclusive deles plantadores latifundiários.

No Nordeste a seca mata sertanejos.

No próximo capítulo, 2009, depois de toda a degustação de peru, bacalhau, nozes, castanha, avelãs, coisas que boa parte dos consumidores nem sabe o que é, ou sequer viram algum dia, tudo pela hora da morte. A União Européia está procurando países onde seus investidores possam comprar terras para produzir alimentos para eles. Já reforma agrária...

A Votorantin de D. Ermírio está transformando tudo em plantação de eucalipto. Nas prateleiras sopas, em breve, de eucalipto biodegradável com tanto de proteínas, tanto disso e daquilo, sem glúten e sem açúcar. Do tipo eu era assim, tomei a sopa do Ermírio e fiquei assado.

Chamam isso de progresso.

E foi no olhar esse “progresso” que a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) percebeu que o modelo faliu por aqui também e o sucessor de Lula vai receber o País tal e qual o próprio recebeu. Com os fundos das calças rasgados e sem remendos.

Se for José Serra a coisa é simples. Ele chama os donos, alguns ainda arrendatários, fecha um grande negócio, entrega a chave e vira capataz. É tucano. A arrogância é só em relação aos peões. No mais caem de quatro e Serra não é diferente de FHC. O esquema FIESP/DASLU comandou o processo de privatização, espera voltar ao poder em 2010.

E enquanto isso filho vai matando pai. Vai matando mãe. Pais vão matando filhos. Namorados seqüestram e matam namoradas. Polícias matam camponeses, trabalhadores. Ermírio compra um estado inteiro em parceria com a VALE, outras empresas (o antigo Espírito Santo).

Norberto Odebrecht finge que faz obra séria no Equador (em qualquer lugar). Gerdau assalta o povo peruano. Queiroz Galvão estende seu périplo de assaltos a Bolívia.

Mas tem Barak Hussein Obama. E a esperança é a última que morre, pelo menos tentam vender essa idéia. Compre um FORD, um CHEVROLET, um CHRYSLER, que o Congresso deles libera verba para pagar os altos salários (milhões de dólares) da turma toda e em troca recebem, os congressistas, contribuições para suas campanhas em defesa da moral e dos bons costumes, do progresso e do desenvolvimento.

E sobra loteria todo dia. Tem o Faustão anunciando que “quarenta pobres coitados” vão ficar felizes com a chegada do seu caminhão, na exploração desabusada das pessoas. Tem alguns como Pastinha que na outra ponta achacam infelizes ajudando e tomando aqui e ali no Natal das “crianças” – dele evidente – e ainda de quebra, faz comemorações onde encaçapa e foto monta a diversão de pervertidos.

Ao final todo mundo ri e se diverte enquanto almoça.

Descobriram um jeito de dar amendoim a macacada. E como cresceu a macacada. É diferente inclusive daquela a que Sérgio Porto aludia, ou instruía. Acredita piamente que o Big Brother é o caminho da salvação.

É só gritar aleluia e contribuir com dez por cento para a salvação eterna.

Há! Ia me esquecendo. Amendoins, hoje, por conta da ganância dos lucros, são altamente tóxicos. Garantia de alguns cânceres no futuro.

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> Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, trabalhou no Estado de Minas e no Diário Mercantil.

Ilustração: Táia Rocha

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