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SERES OU RESES
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29.07.2008
Ingrid Betancourt
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A libertação da ex-senadora Ingrid Betancourt foi o resultado da negociação de países da Comunidade Européia, e em particular a França, com as FARCs-EP. As declarações do presidente da Venezuela Hugo Chávez feitas há cerca de vinte dias convocando as FARCs-EP a soltar os reféns foram parte do roteiro de conversações entre a guerrilha, os negociadores europeus, o governo da França e o governo da Colômbia.
No acordo fechado ficou acertado que Ingrid e os demais reféns seriam levados a um determinado ponto da selva colombiana e ali entregues a representantes dos negociadores. O narcotraficante Álvaro Uribe deu seu aval ao entendimento.
A guerrilha, vivendo um momento difícil de profundas mudanças internas, cumpriu sua parte. Levou Ingrid e os reféns ao local previamente acertado.
Ao contrário, Uribe não cumpriu sua palavra. Com auxílio de informações dos satélites militares dos EUA, localizou a área, enviou tropas e um helicóptero e fez com que se passassem pelos negociadores.
A guerrilha não recuou e libertou Ingrid e os demais reféns. Tem um perfil que Uribe o governo dos EUA não tem.
Uribe deu declarações à imprensa do seu país e do exterior afirmando que uma operação de resgate das forças armadas do narcotráfico colombiano resgatou a ex-senadora e os companheiros de prisão (eram prisioneiros de guerra).
Libertar a ex-senadora sem condições prévias foi uma decisão do comando das FARCs e um gesto humanitário. Proceder como procedeu Álvaro Uribe foi uma ação, mais uma, traiçoeira de uma quadrilha que comanda o país, Colômbia, base para as maiores operações de tráfico de drogas do mundo e enclave norte-americano na América do Sul.
O presidente da Colômbia enfrenta séria oposição dentro de seu país. A Suprema Corte de Justiça rejeitou a manobra que possibilitaria a ele um terceiro mandato, seu real objetivo.
Centenas de milhares de colombianos estão nas ruas num grande protesto contra o governo Uribe, contra o narcotráfico no poder, contra a violência e a barbárie do regime que tem se caracterizado pelo assassinato em massa de opositores na guerrilha ou na chamada sociedade civil.
É evidente que a guerrilha vive um momento difícil, com a morte de seus três mais importantes comandantes; busca reestruturar-se e adequar-se a um contexto que é parte do processo da luta popular e, certamente, desfavorável.
O inimigo é o narcotráfico, tem o governo do país e o apoio ostensivo do governo Bush.
Não há o que discutir sobre a libertação em si de Ingrid e dos companheiros de prisão militar. Nem que a prisão de Ingrid, há seis anos atrás, foi conseqüência de um gesto político calculado da ex-senadora de ingressar em território controlado pela guerrilha.
O festival de mentiras da GLOBO e das principais redes de tevê, dos grandes jornais, das revistas, supera de longe todo e qualquer resquício de escrúpulo que possa existir nessas empresas, braços dos proprietários do País e agentes do capital internacional (o nacional não existe, é também braço do internacional).
Em toda a transmissão do jogo decisivo da Taça Libertadores da América, o locutor que narrava a partida fazia chamadas para "o jornal da noite que vai trazer detalhes da libertação da ex-senadora Ingrid Betancourt, das mãos dos guerrilheiros narcotraficantes".
Faz parte do processo de dominação e formação de zumbis em sociedades onde o avanço desses novos senhores, novos donatários de capitanias hereditárias, faz com que elites e mídia se prestem a qualquer papel.
Um detalhe de suma importância. Em janeiro deste ano a mídia noticiou que Ingrid estava à beira da morte. Hoje cedo já se apresentou de público com declarações políticas, sem nenhum sinal de debilidade que não o cansaço natural de seis anos numa prisão.
Existem milhares de colombianos presos por discordarem do governo do narcotráfico.
A luta popular, que inclui a luta das FARCs, não tem como objetivo prender e manter pessoas presas. Esse tipo de fato dentro de uma guerra civil, que acontece na Colômbia, faz parte do processo.
O objetivo é maior. Transformar países como a Colômbia em nações livres, soberanas, capazes de terem seus destinos regidos pela vontade de seus povos e promover a integração de irmãos.
Os dentes de Ingrid Bittencourt
O senador Heráclito Fortes atribuiu o estado exemplar dos dentes da ex-senadora Ingrid Betancourt à sua fé em Deus. Fé não se discute, é uma questão de foro íntimo. Ingrid Betancourt disse a jornalistas em entrevista coletiva que passou os três primeiros anos do seqüestro acorrentada vinte e quatro horas por dia.
Os dentes de Ingrid Betancourt foram objeto de comentários em vários jornais do mundo e um destaque de Gilson Sampaio, lutador e companheiro de muitas jornadas.
A beleza da ex-senadora (a mãe foi miss Colômbia) me leva a crer que o "tratamento de cão", a que foi submetida enquanto prisioneira de guerra das FARCs-EP, vai ser adotado por todos os personal trainers do mundo como forma de levantar o que está caído. Ou o que não está nos conformes.
Ingrid Betancourt, seus dentes e sua forma física de quem foi "tratada como cão" corre o risco de virar modelo de academias de ginástica e beleza, licenciar uma rede mundial de academias com o seu nome e o adereço "seja um dog das FARC-EP e vire uma Ingrid".
Aí acredito, as FARCs-EP abandonam a luta armada, transformam a área que controlam na Colômbia em campos de beleza, a GLOBO compra com exclusividade os direitos de transmitir para o Brasil o método e as aulas de "fui tratada como um cão e veja como fiquei".
Breve em uma tela de sua cidade "a saga de Ingrid Betancourt, a mulher que foi tratada como um cão e virou modelo de beleza".
E um monte de outdoors. "Colgate, a companheira inseparável de Ingrid Betancourt nas selvas da Colômbia".
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Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora,
trabalhou no Estado de Minas e no Diário
Mercantil.
Ilustração:
Táia Rocha
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