“Tigre de papel” foi a definição de Mao Tse Tung para o poder político, econômico e militar dos Estados Unidos. Citá-la não significa necessariamente ser maoísta. Os grandes impérios ao longo da História se construíram de uma forma simples e repetitiva.
A matriz poderosa e montada em exércitos fantásticos, superiores aos dos outros, logo transformados em filiais. E assim se sustentavam. Os poderosos costumavam ao tempo do Império Britânico ensinar a seus filhos, os baronetes, que “no império britânico o sol nunca se põe”.
Naquela formulação simples e objetiva, bem ao seu jeito, em que definiu o aparecimento do primeiro Estado, Darcy Ribeiro falou do mais esperto, do mais inteligente e por via das dúvidas do mais forte. O que traz a palavra de Deus, o que cobra impostos e extorque e o que prende e arrebenta quando surgem adversários.
Num sei se Darcy lembrou da imagem dos soldados do xerife de Nottingham cobrando impostos dos camponeses e a luta de Robin Hood, ou o velho e clássico Zorro mexicano, enfrentando o poder do alcaide de Espanha na velha política de preservar o latifúndio, mas ajudar os pobres.
Em 1968, ou 67, não me lembro bem, um congresso do Fundo Monetário Internacional (FMI), realizado no Rio de Janeiro, nas dependências do Museu de Arte Moderna (MAM), um banqueiro entre um uísque e outro numa hora social no Chalaça, bar do Hotel Glória, ria e dizia que se o mundo financeiro corresse com todos os papéis vencidos do governo dos EUA o país iria à falência e a única forma de preservá-lo seria despejar bombas por todos os lados. O valor do mais forte, na tese de Darcy, o mais burro, ou o burro propriamente dito. O que não pensa, mata. Mais ou menos um BOPE da vida.
Àquele tempo a esquerda brasileira, parte dela, tinha um raciocínio interessante. Vivia-se os primeiros momentos da ditadura, a brutalidade do sistema não havia ainda atingido seus limites máximos (a partir de dezembro de 1968) e acreditava-se possível reverter o quadro e que éramos em 1968 o que os Estados Unidos era em 1868. Só uma questão de cronologia, bastava correr um pouco, apressar as diligências e colocar sempre cavalos mais descansados que logo estaríamos empatados.
Andando em “cadilacs”. Ao que eu saiba os primeiros com vidros ray ban.
O fim da União Soviética, independente de qualquer análise do império vermelho, trouxe o poder absoluto aos Estados Unidos. As características dos governos norte-americanos alternam-se em torno do mesmo objetivo desde os tempos iniciais. Ora a vaselina de um presidente chamado Clinton, ora a areia de outro chamado Bush, ora a alfafa dos dois Bush, ora a aveia de Jimmy Carter, isso desde James Monroe, George Washington e a “família” Roosevelt, passando por todos, inclusive Calvin Colidge e sua clássica formação humana e liberal que mostrou à larga quando ministro da Suprema Corte.
A palavra chave no mundo de hoje é energia. Calígula optou por nomear Incitatus o seu cavalo senador (não tem diferença por exemplo de Artur Virgílio, a mesma coisa) e cavalos eram fundamentais ao tempo de Calígula (“meu reino por um cavalo”, Ricardo IV, peça de Shakespeare, algum tempo histórico depois).
Bush necessita de petróleo, de gás, de minerais estratégicos, de água doce, do contrário não sustenta a prosperidade da sociedade norte-americana, não mantém os níveis de vida das classes médias e padrões mínimos para trabalhadores, descontando aí o grande número de miseráveis entre negros, latinos, asiáticos, os imigrantes de um modo geral.
Um Iraque aqui, um Afeganistão ali, ambos debaixo do tacão nazista (claro que é) dos “nossos rapazes” (os que não entendem “por que nos odeiam tanto” e encontram a resposta nos altos níveis de suicídio entre a turma), um general comprável a alguns milhões de dólares no Paquistão, um rei fascista na Espanha, o antigo império britânico transformado em colônia e, entre nós, um traficante governando um país em guerra civil há mais de 50 anos e disposto a qualquer negócio para manter os “negócios”.
Capatazes.
E tudo isso não consegue evitar a perspectiva de uma grave crise financeira no País, pois controlado por aquilo que John dos Passos chamou de “complexo industrial e militar” e anos depois Eisenhower confirmou, hoje restrito às grandes indústrias de armas, a indústria aeronáutica e naval, a do petróleo (da qual o presidente é parte e o vice também), aos bancos (o temível sistema financeiro), tudo simbolizado no culto ao sino, aquele que todos os dias, hora local, às 10 horas, alguém aciona para abrir os trabalhos do templo Wall Street.
No arrastão chegam os que fabricam coturnos para os soldados, os uniformes, as latas de ração, o chocolate para ser distribuído às crianças dos países colonizados, invadidos e ocupados, e neste momento, boa parte terceirizada a países periféricos, cujo conceito o atual secretário geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, definiu numa de suas obras mais importantes.
Tancredo Neves irritou-se certa feita com um assessor que à saída de um evento organizava o pessoal nos carros da comitiva. “O doutor Tancredo vai aqui com fulano e o resto vai...” Tancredo interrompeu a frase e corrigiu: “Resto não meu filho. Aqui não tem resto. São companheiros e como não cabem todos no mesmo carro uns vão neste comigo, outros vão noutros carros. Resto é de comida meu filho, aprenda isso”.
Bush considera o mundo além das fronteiras continentais norte-americanas um resto. Um entulho, um lixo, onde podem ser despejados todos os dejetos do império (o México é o caso mais flagrante no caso do lixo literalmente).
A Colômbia é um resto onde convivem com o narcotráfico, sustentam um presidente traficante e onde plantam os dejetos armados (os que “por que nos odeiam tanto?”), seres robotizados, zumbis do modelo que combina Hollywood com McDonalds e Coca Cola, no projeto imperial de exportação de pneus, enquanto compram borracha, como na velha e eterna Canção do Subdesenvolvido. Ou “chicletes”.
Dois dentre muitos são dois os aspectos que têm que ser observados no desdobrar do recente ato de terrorismo do governo Álvaro Uribe contra o Equador. O primeiro deles é que essa conversa de paz, democracia, etc, não é senão fachada para os verdadeiros interesses norte-americanos na América do Sul. A simples perspectiva que uma prisioneira de guerra, Ingrid Betancourt possa ser libertada e venha a se transformar em principal adversária dos “negócios”, é o bastante para um amplo espectro de ações terroristas a partir da Colômbia.
Outro, que a ação de Bush na Colômbia não se restringe àquele país, FARCs e ELN são só pretexto, o horizonte terrorista é muito mais amplo, atinge objetivos em países como o Brasil, a Venezuela, a Bolívia, os países do Sul dessa parte, Chile, Argentina acima de tudo, enfim, o império tecendo a rede de filiais que vão sustentar a corte em Washington que se espraia coast to coast como gostam de dizer.
E nessa medida a política externa do ministro Celso Amorim, logo do governo Lula, é um desafio também a ser vencido pelo terrorismo norte-americano, aliado ao narcotráfico na pessoa de Uribe.
O ataque ao Equador a despeito de ter sido uma violação do direito internacional, da soberania daquele país, foi também um ato de terrorismo em suas características. Traiçoeiro, solerte, assassinando de forma impiedosa e cruel os inimigos e com um único objetivo: avançar no resto, na concepção deles, da América do Sul.
Que a resolução da OEA foi uma vitória dentro das condições políticas do mundo dito institucional foi. Mas que países como o Brasil, Venezuela, Bolívia, Argentina, Equador, Chile, Uruguai e Paraguai têm que intensificar os projetos de integração, caminhar neste rumo é uma conclusão lógica e de sobrevivência. Do contrário seremos um resto como é a Colômbia.
O homem que vai juntar esse resto no Brasil e aceitar administrá-lo, nesse momento, gera o caos em São Paulo. José Serra.
Bobagem? Há dias, na semana passada, um apagão de sete horas gerou um congestionamento de 350 quilômetros na capital e cidades da Grande São Paulo. Alguém ouviu falar disso? Os paulistas sentiram na pele. A mídia jogou para um canto. Serra está blindado pelo esquema que vem de longe, vem de Washington. Está guardado e reservado para ser o nosso Uribe, como o foi FHC.
O tigre é de papel, mas morde e tem que ser rasgado.
E cheira todas na droga PROJAC de todo os dias para transformar seres em zumbis.