Em primeiro lugar, qualquer análise que se pretenda isenta tem que descontar a histeria da mídia controlada pela FIESP e pelos principais “acionistas” do Brasil, privatizado lato senso desde o governo FHC. PT e PSDB são dois partidos paulistas e cingem qualquer discussão a esse espaço geográfico, político e econômico. O resto é o resto, adereço.
O uso de cartões de crédito pelo governo é prática mundialmente adotada e tem um sentido. O de permitir o pagamento de despesas de pronto pagamento e pequena monta, urgentes e uma ou outra cujo sigilo se faça necessário, pelo menos durante determinado momento (segurança de presidente, familiares, por exemplo).
Que há uma festa a partir de determinados setores do governo não há dúvidas. Que existe uso indevido seja por deslumbramento ou por desonestidade mesmo, é certo. Não se trata nem de questionar a reforma da mesa de sinuca (emblemática) do Ministério das Comunicações. É um valor irrisório, mas não exclui a irresponsabilidade com dinheiro público.
É revelador que ao longo de todos os “escândalos” que atingiram e atingem o governo Lula ministros como Celso Amorim (Relações Exteriores) não tenham sido citados em nenhum. E olha que tentaram pegá-lo. A política externa independente e que constrói perspectivas concretas para o futuro do País incomoda os donos.
O Estado brasileiro sempre foi propriedade de latifundiários, banqueiros, grandes empresários e o resto sempre foi o resto. Latifundiários, banqueiros, grandes empresários se apossaram às escancaras do que antes era disfarçado na aliança estabelecida desde o governo FHC. Transformaram-se, na realidade neoliberal da economia globalizada, numa espécie de laranjas do grande capital que determina o que é bom ou ruim para cada país, para cada cidadão.
Tanto se dilui nessa realidade o ser como o todo, o conjunto.
Os “acionistas” do Estado brasileiro estão nas bolsas de valores do mundo.
O governo Lula comete erros infantis e primários, mas não é o governo FHC. Isso incomoda os donos. A perspectiva que pequenas reformas possam abrir grandes portas para os trabalhadores num futuro próximo assusta, até pela decomposição do mundo globalizado no terrorismo político, militar e econômico do país líder, os Estados Unidos.
O maior erro de Lula terá sido o de abandonar seus compromissos, o programa e a história de seu partido para tentar governar por dentro, ou seja, na farsa que chamam democracia e apenas manieta e aprisiona a classe trabalhadora.
Bastaria, desde o primeiro momento, revelar toda a sorte de bandalheiras do governo FHC para que os brasileiros se apercebessem indignados que foram vítimas de um escroque a soldo do capital internacional. O resto, outro tipo de resto, seria conseqüência.
Mas não. Lula Preferiu compor o governo com figuras abjetas de partidos abjetos, verdadeiros balcões de negócios e acabou mergulhado num mensalão criado para aprovar a reeleição de FHC e vítima de um deputado corrupto, Roberto Jefferson, contrariado em seus interesses de abocanhar um “grande negócio”. Uma diretoria chave de Furnas.
Pagou o preço de perder a espinha dorsal de seu governo, o ex-deputado José Dirceu, ele próprio vítima do estilo autoritário e prepotente na visão errada que era preciso atropelar tudo e todos para se chegar ao fim desejado. Os meios não justificam os fins na forma que se imagina.
Não perceberam, as figuras do governo Lula, as imensas bocas das ratazanas tucanas, democratas, setores do PMDB, de pequenos partidos e cada vez mais se misturaram a esses porcos no chiqueiro que chamam democrático e é na verdade um estado autoritário, privado, onde os “acionistas” ainda no tempo da escravidão, não fazem a menor concessão.
Os cartões corporativos são apenas resultado desse erro e do deslumbramento de petistas paulistas ou agregados e que acabam por jogar na mesma vala comum toda a esquerda.
Não importa que a ministra Matilde seja negra, mas foi desonesta e não é crível que tenha sido mal orientada por assessores. Sabia o que estava fazendo apenas confiou na impunidade. Diferenças existem entre ela e o segurança de FHC que abasteceu o mesmo carro quatro vezes no mesmo dia e no mesmo posto. A diferença entre o deslumbramento e o dolo. Tênue, mas existe.
E isso não é necessariamente uma atenuante. Pelo contrário. A história da ministra é de lutas e a do segurança é de violência e trapaças. Uma, a ministra fez o que não se esperava e nem se podia esperar dela, ao contrário do segurança. Fez o que sempre fez.
E assim todos os que vão aparecendo a cada dia na mídia com despesas tipo bolsas de luxo, churrascos em churrascarias do outro mundo e assim por diante.
O xis da questão não é a CPI para apurar gastos irregulares. Isso é questão policial.
Por detrás disso existe algo muito maior. O silêncio da mídia sobre gastos idênticos no governo FHC e farras semelhantes no governo de José Serra em São Paulo.
A mídia é um conjunto de empresas dos “acionistas” do Estado. O jornalista Luís Nassif está demolindo com fatos e provas que não estão sendo desmentidos a revista VEJA em cada momento de sua história de marrom, chantagista e a serviço de interesses corporativos.
Nas denúncias de Nassif existem fatos estarrecedores. Desde ações contra o governo a brigas intestinas entre as quadrilhas que controlam o País. Leva as páginas de VEJA quem paga mais.
O que está podre é o modelo. A falsa democracia. O mundo institucional. Quando a Justiça cala um governador como o faz com o governador do Paraná, Roberto Requião, apenas atende ordens de um dos braços da mídia, o mais poderoso por sinal, a REDE GLOBO.
Como é possível investigar alguma irregularidade, qualquer que seja, entregando a investigação do galinheiro às raposas, no caso o Congresso? Há anos atrás se contava nos dedos os deputados e senadores pilantras, hoje se conta aqueles que guardam o mínimo de respeitabilidade.
Que se investigue, tudo bem, deve e é necessário. Mas todo o espectro da corrupção. Por que um senador dissimulado como Álvaro Dias quer investigar o período Lula e não quer que se investigue o período FHC? Quer desvendar a “corrupção” pela metade? Só a do inimigo?
E José Serra viajando o País inteiro com dinheiro do governo paulista, logo do contribuinte, em sua campanha presidencial para 2010?
O que está em jogo é bem mais que o uso irresponsável e corrupto dos cartões corporativos. O que está em jogo é o controle da chave do cofre.
E o governo Lula não é, por mais que queiram, nenhum governo FHC (apesar das alianças com antigos parceiros de FHC e de petistas deslumbrados com o poder).
No jogo comandado de fora querem o poder a partir de 2010 para acabar de vender o País e passar a escritura. Lula interrompeu parte do processo de privatização.
O Brasil é um país de dimensões continentais, fundamental no jogo político latino americano. Querem chegar a Chávez, a Evo Morales, querem liquidar de vez qualquer pretensão de independência e soberania de nações desse canto do mundo.
Por conta disso deixar como está? Não se trata disso e nem se deseja isso. É preciso expor as vísceras podres do Estado privatizado, dos controladores do Estado, mas de forma ampla, geral e irrestrita. Sem limites de datas.
Ou será que alguém acredita que quando a GLOBO e a FOLHA DE SÃO PAULO enchem as telas e as páginas da histeria moralista calcada na hipocrisia dos donos estão de fato defendendo a moralidade nos gastos públicos?
Seria bom que cada um olhasse quanto a GLOBO leva e levou em publicidade desde os tempos da ditadura, em negócios escusos que evitaram inclusive sua falência e quanto a FOLHA se beneficia dos “negócios” das elites paulistas, do governo tucano de Serra.
Essa confusão toda é só um jogo sórdido e imundo de bandidos de ambos as lados e as graças que Arnaldo Jabor faz em sua cruzada moralista hipócrita, rende bons cachês.
Lula é vítima não de sua “ignorância” como gostam de dizer de forma preconceituosa e bem ao estilo de elites. Lula é vítima do equívoco de achar que poderia governar sem tocar na lixeira que essa gente carrega dentro de suas pastas imundas.
Tem que mexer e tem que mostrar o tamanho do lixo. Isso se conseguir livrar-se da camisa de força que estão lhe impondo desde o primeiro dia.
CPI sim, mas para apurar toda a corrupção com cartões corporativos e exibir a podridão dos verdadeiros bandidos travestidos de coroinhas de uma catedral podre, o Estado brasileiro.
Podre e falido. Para a classe trabalhadora a luta não passa por aí. Passa pelas ruas, por fazer soar as cornetas do movimento popular e derrubar essas muralhas que a mídia venal e corrupta veicula em nome dos donos.
Do contrário, em breve, mesas de sinuca reformadas em todos os cantos e luzes natalinas no carnaval dos aparecidos que carregam as pastas repletas do lixo que produzem e do qual vivem.