......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



SERES OU RESES

20.12.2007
A sociedade natalina

Ao contrário do que se supõe, no Brasil e nos países ditos emergentes, “não é o pregador que prega a idéia e sim o contrário: a idéia que prega o pregador”. A afirmação é de Gilberto Felisberto Vasconcellos, no livro “Eu e a Xuxa, sociologia do cabaré infantil”.

O mesmo Gilberto descreve que Darcy Ribeiro era o que Glauber Rocha dizia, o “gênio da raça”, mas “não entende o suficiente das coisas audiovisuais. E, na verdade, a luta de classes no Brasil de hoje significa a luta de sons e imagens, de modo que se torna imprescindível discutir a política audiovisual das escolas primárias”.

O antropólogo Milton Santos, reconhecido no exterior como um dos maiores de seu tempo e de todos os tempos, ao fazer a crítica do modelo de globalização imposto a partir dos Estados Unidos, trata numa das partes do seu livro “Por uma outra globalização do pensamento único à consciência universal”, da questão da “potência em estado puro”.

“Para exercer a competitividade em estado puro e obter o dinheiro em estado puro o poder (potência) deve também ser exercido em estado puro. O uso da força acaba se tornando uma necessidade. Não há outro telos, outra finalidade que o próprio uso da força, já que ela é indispensável para competir e fazer mais dinheiro; isso vem acompanhado pela desnecessidade de responsabilidade perante o outro, a coletividade próxima e a humanidade em geral”.

“O abandono da idéia de solidariedade está por trás desse entendimento da economia e conduz ao desamparo em que vivemos hoje... medo do desemprego, medo da fome, medo do outro”.

Foucault entende que a palavra está dissociada da imagem e que nem sempre o “sucesso” ou o sonho muda a correlação de forças e dá o exemplo do negro excluído que sonha ser fotógrafo e consegue, mas permanece negro e excluído.

Há alguns um advogado em torno dos trinta anos de idade relatou a alguns outros companheiros que o ouviram perplexos, que “quando eu era tecelão não vivia as dificuldades que vivo hoje sendo advogado”.

O cerne da questão continua sendo a luta de classes. Opressores e oprimidos. Não importa que a sua geladeira tenha iogurte, importa que o seu cartão de crédito esteja em dia. Pior que isso, o mercado exige que você seja parte do processo da máquina de moer gente até que a idéia, como afirmou Gilberto Felisberto Vasconcellos, entenda ser necessário mudar de pregador.

A GLOBO cogita de tirar o programa de Xuxa do ar. São baixos os níveis de audiência.

Para janeiro já está anunciado o BBB-8. A chamada diz que você vai poder dar “uma espiadinha”.

O cachê/michê de uma das ex-BBB é de dois mil reais e a moça tem um agenciador que nos velhos tempos de guerra era chamado de cafetão.

O que há de importante no buraco negro revelado no choque de uma galáxia contra outra?

A imagem? É o objetivo da mídia ao divulgar fotos resplandecentes do fenômeno. Ou a dimensão real do ser diante do Universo e, logo, a importância da vida já que até hoje não acharam formas de vida semelhantes ou próximas à nossa noutros cantos desse Universo?

Um gaiato vai dizer o seguinte – nesse caso então não pago minhas contas.

Não é assim.

É preciso pagá-las para que no Natal seguinte você não esteja na lista dos indesejados pelo comércio e possa repetir todas as operações que a robótica/humana determina que você faça nessa época.

Cristo é só um adereço dessa história.

A força da mídia da idéia pregando o pregador.

Nada é gratuito ali e sabe qual o correspondente do apelido Xuxa em língua portuguesa? Nenhum. Mas na língua espanhola é “xota”.

Não é acaso.

A sociedade natalina é um imenso rebanho guiado pela mídia, a televisão acima de todas as formas de comunicação. E ao contrário do que imaginou o notável Ataulfo Alves não é o samba que fala primeiro de “janeiro a janeiro”.

É a mídia. Onde a potência pura pregou a idéia.

A idéia enfiada na cabeça, na palavra, nas ações e no gestos de cada ovelha, cada cordeiro ao viver com paixão o cumprimento do “dever”.

Pensar? Complicado isso.

A professora Laélia Gomes Cardoso, Juiz de Fora, MG, desenvolveu o projeto “pensar bem” voltado para crianças. O exercício do pensamento sem qualquer forma de indução. Ou idéia pré concebida do que quer que seja. De pronto ganhou o apoio do professor Juarez Sofiste, Universidade Federal de Juiz de Fora e da psicóloga Rosângela Rossi.

O projeto esbarra na falta de recursos. Mínimos, exíguos, se comparado com o preço de uma bolsa Louis Vuiton, ou qualquer camiseta “não à CPMF” na DASLU.

Não é compatível, digamos assim, com o modelo. Desenvolver em crianças o pensar. Faça um esforço e pense se de repente essas crianças se tornam adultos conscientes e não comprem mais a revista VEJA, ou simplesmente deixem o aparelho de tevê desligado, sem dar “uma espiadinha”?

Percebam que a idéia de botox, personal trainer, mundo fascinante que chamam de fashion, seja apenas a imagem de uma realidade brutal e perversa que a idéia do grande irmão prega na boca de cada pregador?

Que, conscientes, possam vir a lutar por direitos elementares como emprego, saúde pública, saneamento, justiça igual para todos e por aí afora?

Mas é pior ainda, aos olhos da idéia. E se isso pega, espalha e “contamina”?

O que vai ser do deputado Paulo Maluf? A figura disse numa banca de jornais no aeroporto de Brasília que “conseguimos livrar o povo da carga tributária da CPMF”.

Que povo? Só o fato de Maluf estar solto e numa banca de jornais já é um escárnio.

A sociedade natalina é um ato a mais no espetáculo produzido e dirigido pela idéia maior, única, que se pretende sem alternativa.

Já perceberam como o conjunto dos programas da GLOBO trata os presidentes da Venezuela e da Bolívia, ou o presidente de Cuba? Com sinceridade, quando um arremedo de humor a que chamam “Planeta e Casseta”, ou o contrário sei lá, investe e ridiculariza deliberadamente pela idéia implantada nos humoristas/pregadores, você acha mesmo que aquilo é humor? Ou verdade? Falo daquela verdade que Monteiro Lobato (ele próprio perseguido) chamava de “batatolina de bayer”.

É não camarada. Aquilo é só a forma que eles acharam de tratar a cada um de nós como o Homer Simpsom. O idiota bom caráter, íntegro, pagador de contas em dias e que aceita tudo. E acha as caçapas em que é atirado e às quais é impelido a ter como modelo são a lógica do que chamam de mundo real. Tudo é normal aos olhos da idéia mãe.

Vá ser irreal e anormal assim no raio que os parta.

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> Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, trabalhou no Estado de Minas e no Diário Mercantil.

Ilustração: Táia Rocha


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