O presidente da Colômbia
Álvaro Uribe
quer o Brasil mediando a liberação dos
reféns
colombianos e estrangeiros em poder das FARCs. A senadora
Córdoba, opositora de Uribe, fez um apelo a Lula para que
aceite
mediar o que já estava resolvido.
Toda a seqüência de fatos que
antecedeu ao
referendo na Venezuela sobre as reformas constitucionais propostas pelo
presidente Hugo Chávez obedeceu ao esquema golpista tramado
em
Washington, veiculado com precisão pela mídia
mundial, a
latino-americana de forma milimétrica e que teve no governo
colombiano um aliado (a Colômbia sob Uribe é
protetorado
norte-americano) decisivo.
No sábado que antecedeu o referendo a
mãe e uma irmã de Ingrid Betancourt, senadora e
candidata
a presidência da Colômbia viajaram para Caracas e
manifestaram publicamente seus agradecimentos ao presidente
Chávez pelo empenho em libertar os reféns.
O presidente da França, Sarkozy foi
claro e
enfático diante da pressão da mídia de
seu
país e dos parentes de reféns francês,
por conta da
opinião pública, ao dizer que não se
opunha
à mediação de Hugo Chávez.
Um acordo preliminar feito com as FARCs permitiu
que
documentos fossem levados a um determinado ponto do
território
colombiano comprovando que os reféns, sobretudo a senadora,
estavam vivos.
Começa aí o
calvário de
Chávez e aí talvez as razões de sua
“derrota” no referendo.
O que era um pacote para ser entregue ao governo
da
Colômbia comprovando o estado dos reféns virou uma
armadilha pensada e planejada em Washington, que contava com a
vitória de Chávez no domingo, para
então montar o
golpe e derrubar o presidente venezuelano.
Os portadores da carta da senadora foram presos,
os
documentos que provaram estarem vivos os demais reféns, tudo
levado para Bogotá e denúncias da mãe
de
Betancourt acabaram por desmascarar e mostrar a farsa escancarada, a
armadilha.
Os portadores dos documentos iam apenas cumprir
uma
parte no acordo feito entre o governo da Colômbia, as FARCs
através do presidente da Venezuela e do qual tinha
ciência
o presidente francês.
Foram presos, trechos da carta da senadora
publicados
à revelia da família, como denunciaram sua
mãe e
sua irmã, o retrato exibido à
exaustão, um
contexto previsto pelos governos dos EUA e da Colômbia, como
parte do golpe contra Chávez.
A “derrota” de
Chávez e o
pronunciamento do presidente aceitando os resultados logo no
início da madrugada de segunda-feira acabaram por abortar o
golpe, pois faltou o motivo principal. A vitória de
Chávez e a justificativa que o golpe
“repunha” a
Venezuela na órbita dos países
democráticos,
leia-se, países títeres dos interesses
norte-americanos.
Ingrid Betancourt seria liberada, como os
reféns franceses e os louros do acordo seriam de
Chávez.
A decisão de pedir ao governo
brasileiro para
mediar um acordo com as FARCs resulta da
percepção pela
opinião pública colombiana e francesa
principalmente, que
tudo não passou de uma jogada de Washington com um governo
títere e ligado ao narcotráfico (foi eleito e
reeleito
com o dinheiro do narcotráfico).
É claro que Lula deve aceitar o
papel. As FARCs
estão dispostas a negociar o mesmo acordo que foi negociado
com
Chávez com o presidente do Brasil. Mas é claro
também que os detalhes da armadilha contra Chávez
têm que vir a público e ficar transparente que o
presidente da Venezuela foi vítima de uma cilada.
Por mais paradoxal que possa parecer a
vitória
do não acabou por impedir as forças
oposicionistas
venezuelanas, a mídia da Venezuela, de desfechar o golpe
montado
e orquestrado por Washington.
Como evidente está que a luta pelas
reformas
propostas e pela opção pelo socialismo
não
está enterrada e nem perdida. Até porque,
forças
de esquerda na cegueira que costuma caracterizar grupos e partidos sem
objetivo outro que não sobreviver em guetos, optaram pela
abstenção.
Todo o movimento que, entre outras coisas,
resultou na
compra do general Baduel, então ministro da Defesa de
Chávez quando do golpe de 2002, só faz reproduzir
uma
prática comum a Washington, ainda mais em tempos delirantes
de
Bush, como no caso do sacrifício da Quinta Frota para ter o
pretexto necessário para uma guerra contra o Irã.
A história está cheia de
histórias assim. Os impérios nunca foram
diferentes em
seus propósitos e terá sido por isso que Esopo e
La
Fontaine escreveram fábulas, como a do lobo e do cordeiro em
que
não importa que quem turve a água seja o lobo,
quem
está condenado a morrer por turvar a água
é o
cordeiro.
O que o governo brasileiro precisa estar atento
é a eventuais manobras do narcotraficante Álvaro
Uribe
(para os EUA o tráfico é menos nocivo que a perda
do
petróleo venezuelano), preposto de Bush e não
cair em
armadilha semelhante.
Celso Amorim é um dos pontos
positivos do
governo Lula. Em todos os sentidos. Sabe onde põe os
pés
e o que falar. Mas sabe também que atrás de cada
porta
existe alguém com um punhal pronto para
enterrá-lo pelas
costas, logo depois do abraço.
E no caso de Washington, numa América
Latina
que começa a resgatar o sentido de soberania, de
independência, de projetos nacionais e regionais de
crescimento,
desenvolvimento e unidade, todo cuidado é pouco.
O episódio envolvendo o rei da
Espanha (a soldo
de banqueiros e grandes mafiosos espanhóis rotulados
empresários) foi só a explosão de um
pastel de
vento, o rei, que se seguiu às críticas do
presidente da
Nicarágua Daniel Ortega, como antes, em ambiente mais
reservado,
Lula, Kirchner, Bachelet, Correa e Tabaré Vasquez haviam
feito
as mesmas críticas à voracidade colonizadora das
máfias espanholas.
Foi demais para um rei acostumado a ser tratado
de
majestade, bajulado e a posar para capas de revistas no mundo inteiro,
no papel de perfeito garoto propaganda. E depois ir caçar
bisões em extinção na
Suíça, pagando
cinco mil dólares para cada animal abatido.
É o velho sentimento de colonizado
das elites.
Qualquer rei que chegue ao Brasil vira logo objeto de disputa de
convites para recepções DASLU e visitas a uma
escola de
samba, onde sua majestade, via de regra, dança com uma bela
mulata, no mais ridículo espetáculo de
subserviência que as elites costumam dar e dão
sempre,
pois o negócio deles é dinheiro em caixa,
não
importa se para isso é papai e mamãe ou ficar de
quatro.
Chávez foi vítima de uma
cilada e Lula precisa abrir os olhos para não cair noutra.
Betancourt e os reféns já
estariam
soltos e em casa se Uribe e os norte-americanos se importassem com
vidas, com seres humanos e não com drogas e lucros a
qualquer
preço.