Os resultados do referendo na Venezuela mostram um país dividido. Mais que isso, mostram que as forças que apoiavam o governo presidente não eram homogêneas. O general Baduel, ministro da Defesa que garantiu o retorno de Chávez em abril de 2002, foi cooptado pela oposição e abriu nova frente de luta. Fala inclusive em nova constituição.
Foi assim que Bush chegou a Bagdá em tempo recorde quando se imaginava um combate rua a rua, quarteirão a quarteirão na capital do Iraque. Comprou generais de Saddam e entrou em clima de passeio.
As sucessivas vitórias de Chávez em eleições e referendos anteriores, a superação do golpe militar de 2002 não significam que a classe trabalhadora tenha compreendido a importância da luta pelo socialismo.
As propostas apresentadas pelo governo boliviariano nesse referendo eram simples. Redução da jornada de trabalho para trinta e seis horas, fim da autonomia do Banco Central (que só interessa aos Estados Unidos e aos grandes grupos) outras no mesmo jaez e a única polêmica, o direito de reeleições sucessivas.
Chávez enfrentou rachas em seu grupo, enfrentou a forte oposição da mídia privada, as ciladas montadas em Washington no caso das negociações com as FARCs, além de episódios grotescos com o rei de lata da Espanha, o caçador de bisões Juan Carlo.
E, mesmo assim, a GLOBO, aqui no Brasil, chegou a anunciar a vitória apertada do presidente. A virada se deu por volta de uma hora da madrugada já de segunda.
Há dois aspectos importantes. O presidente reconheceu de pronto os resultados (o que a oposição já havia dito que não faria se Chávez vencesse) e como agora a mídia vai caracterizar o venezuelano como ditador?
O governo sai debilitado, é preciso medir a extensão, ou melhor, o impacto da derrota, mesmo por margem mínima, junto às forças armadas que, em qualquer país latino-americano, mesmo sendo Chávez um militar, sempre foram protagonistas decisivos na história.
A posição do general Baduel? O que Washington ofereceu a ele para no meio do caminho trocar de lado? O mesmo que ofereceu ao general que preside esse sim, ditador, o Paquistão? Alguns milhões de dólares?
A tarefa de Chávez, nesse momento, é reagrupar forças em torno da proposta socialista consciente da importância da Venezuela para todo o conjunto da luta popular na América do Sul e a sobrevivência da revolução cubana a Fidel Castro.
Isso implica em organizar massas, a classe trabalhadora, enfrenta em consciência de luta de classes e não cabe a doença do democratismo, pois essa farsa é que a que escora uma oposição sustentada com armadilhas de um narcotraficante como Uribe na Colômbia, um louco delierante na Casa Branca e gente que acredita na lógica perversa e cruel do capitalismo, no tal progresso, na tal democracia.
Chávez tem um mandato a cumprir, foi eleito pelo voto direto, deve buscar recompor forças e a lição desse referendo deve ser a que o inimigo é forte, escora-se na mentira da mídia, em atores de quinta categoria como Juan Carlo, usa todos os expedientes no melhor estilo que o feio é perder, como se dizia em antigas eleições.
As pressões serão maiores, mais fortes, há necessidade de olhar para dentro e cuidar de fortalecer a organização da classe trabalhadora, dos camponeses e aí sim, tornar a enfrentar as elites e classes médias, controladas e dominadas por negócios de Miami.
De Washington. De olho no petróleo da Venezuela.
Aceitar os resultados não significa desistir da luta. Significa enxergar onde está o erro e buscar corrigi-lo. Ou erros.
Atentar para o que se passa dentro do próprio país e combater combate a combate, pois muitas frentes de batalha não são uma boa forma de guerrear.
Generais como Baduel sempre foram compráveis. Pinochet, Meza, Ovando Candia, Castello Branco, Costa e Silva, é só olhar a história para perceber que generais, para citar um brasileiro, como Lott, ou Simon Bolívar, ou Giap no Vietnã, são exceções na regra.