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O MUNDO AO SEU ALCANCE

26.11.2008
Obama em tempo de contagem regressiva

O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, continua montando a sua equipe que tomará posse no próximo dia 20 de janeiro. Vários nomes já estão confirmados e outros serão confirmados a qualquer momento. Uma das indicações, segundo informam as agências, é da senadora Hillary Clinton, que poderá ser a nova Secretária de Estado, ocupando o lugar de Condoleezza Rice. Hillary votou a favor da invasão do Iraque e perdeu a disputa da candidatura presidencial para o próprio Obama.

A confirmação estava na dependência de checagem das contas do maridão Bill Clinton. É que ele corre o mundo dando palestras e cobra quantias expressivas por isso. Como não revela quem são os pagadores e possivelmente recebeu grana de países do Golfo Pérsico, esse fato poderá descredenciar Hillary para o cargo, pois não ficaria bem ela eventualmente negociar com um destes países. A dúvida deverá ser desfeita mais cedo ou mais tarde pela equipe de Obama de triagem dos nomes.

Outro nome praticamente certo é o de Eric Holder para a secretaria de Justiça. Ele será o primeiro afro-americano a ocupar o referido cargo. Nesse sentido, claro, é um fato positivo em um país onde o racismo não foi superado. Mas só isso não o absolve de certos procedimentos de Holder.

O que a mídia hegemônica não divulga
Holder exerceu a função de subsecretário de Justiça no governo de Bill Clinton, foi assessor jurídico na campanha de Obama. Ao deixar as funções públicas, segundo informa a jornalista estadunidense Anny Goodwin, trabalhou como sócio na empresa de serviços jurídicos Covington & Burling no Distrito de Columbia. Entre os seus clientes destaca-se a multinacional de fruta Chiquita Brand International.

Segundo o jornalista colombiano Mario Murillo, citado por Godwin, Holder defende uma empresa que na Colômbia está sendo processada por famílias de trabalhadores, alvos de paramilitares que receberam da Chiquita 1,7 milhões de dólares anuais durante vários anos. Murillo acha que se Holder for mesmo nomeado secretário de Justiça, será realmente difícil esperar justiça dos Estados Unidos no caso.

Como dificilmente a imprensa hegemônica informará sobre este fato, é importante que os latino-americanos conheçam as figuras que trabalharão na equipe ministerial do novo presidente, seja Holder, Hillary ou qualquer outro.

Racismo ainda presente
Independente de tudo isso, para nada positivos, não se pode esquecer que a eleição de Barack Obama em si representou um avanço em função da mobilização popular que provocou. Os racistas estadunidenses até hoje não se conformam com a eleição do primeiro presidente negro. Tanto isso é verdade que desde a confirmação da vitória de Obama, centenas de incidentes raciais foram denunciados. Em Springfield, Massachusetts, uma congregação religiosa foi incendiada. Policiais confirmaram que o incêndio foi intencional, mas ninguém foi preso.

Mark Potok, do Centro Legal da Pobreza do Sul, revelou que ocorreram centenas de incidentes raciais desde a eleição de Obama. Foram incendiadas, segundo a agência Associated Press, cruzes em jardins de partidários de Obama em Hardwick, Nova Jersey e Apolacan Township, na Pensilvânia.

No bairro residencial de Forest Hills, em Pittsburgh, um homem negro disse ter encontrado uma folha de papel com conteúdo racista nos pára-brisas de seu carro. O texto dizia o seguinte: “agora que votaste em Obama, vigia a tua casa”. Um adolescente negro em Nova York revelou ter sido atacado com um taco de basebol na noite da eleição por quatro brancos que gritavam o nome de “Obama”.

Para culminar, informa também a jornalista Anny Goodwin, em Standish, no Maine, os fregueses do Armazém Oak Hil podiam apostar até um dólar indicando a data em que Obama seria assassinado.

Na universidade estatal de Carolina do Norte, quatro estudantes admitiram ter escrito em um cartaz no campus conclamando a atirarem na cabeça de Obama. E em Idaho, estudantes de segundo e terceiro grau pediam em coro, no interior de um ônibus escolar, em Rexburg: “matem Obama”.

Não se pode ignorar estes fatos. Num país em que a página do racismo não foi virada, em que organizações clandestinas são capazes de qualquer coisa, haja vista a klu klux klan, que considera negros estrangeiros, a eleição de Obama é verdadeiramente um fato da maior importância e deve ser recebida com júbilo.

Sem grandes ilusões
Mas, claro, na América Latina, no Oriente Médio, não se pode ter grandes ilusões sobre mudanças significativas no governo Obama.

Seria o caso de cobrar desde já do presidente eleito um pronunciamento, no próximo dia 29 de novembro, data em que a Organização das Nações Unidas celebra o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, lembrando resolução da ONU de 1947 recomendando a partilha da Palestina e um Estado judeu e outro palestino. Depois de 61 anos, o Estado Palestino não foi ainda criado.

A data de 29 de novembro continuará sendo o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino até quando for criado o Estado que deveria ter sido criado naquela data. Vários governos estadunidenses, sejam democratas ou republicanos, comprometeram-se com a criação do Estado Palestino, mas o compromisso nunca foi cumprido.

Resta saber o que fará o governo Obama nesta matéria a partir de 20 de janeiro. Ficará como os outros presidentes estadunidenses, apenas na promessa? E em relação a Cuba? Ouvirá o recado de Lula segundo a qual o bloqueio é anacrônico?

Ilustração: Táia Rocha
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> Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

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