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  O MUNDO AO SEU ALCANCE
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25.10.2008
Duas faces de uma mesma moeda: a mediocridade |  |
Pobre Rio de Janeiro. Este seria o melhor título para este comentário, escrito logo após o último debate entre os candidatos a Prefeito. Uma coisa ficou mais do que clara, o segundo turno carioca está sendo disputado por duas vertentes da direita, a velha, representada por Eduardo Paes, e a nova, por Fernando Gabeira. Paes tem o apoio do Governador Sergio Cabral, de Lula e setores da esquerda burocrática, também conhecida como da boquinha. Gabeira traz de volta figuras execráveis como Armínio Fraga, que já foi sócio do mega-especulador George Soros, David Zylbertsein, o ex-genro de FHC, também conhecido como petróleo é vosso, e Marcio Fortes, de uma família de especuladores imobiliários que sempre tiveram estímulos dos mais diversos governos da região.
Nada disso foi dito no debate da Globo, numa reprodução provinciana do esquema estadunidense. O candidato Gabeira indiretamente chegou a lembrar a eleição nos Estados Unidos, como que querendo comparar em termos de importância para o eleitor se definir.
Freud explica Gabeira. A sua vontade é tão grande de viajar aos Estados Unidos que qualquer brecha vale para tentar convencer os diplomatas, legisladores e os serviços de inteligência daquele país que não tem sentido a lei que proíbe a entrada de pessoas como ele nos Estados Unidos, só porque há muito tempo ajudou no seqüestro de um Embaixador.
Prometer é fácil, difícil é cumprir
Ficou claro no debate que Gabeira e Paes fizeram promessas impossíveis de serem cumpridas. Nenhum dos dois, limitados por natureza, conseguiu dizer de que forma poderiam cumprir as promessas feitas aos eleitores, ainda mais se sabendo que em função da crise financeira que está começando resultará em termos imediatos na redução do Fundo de Participação dos Municípios, a principal fonte de recursos das cidades. Gabeira e Paes chegaram a falar até em reduzir o IPTU, mas não conseguiram explicar de que forma poderiam cumprir essa promessa. Gabeira, afinal um lorde verde, não poderia deixar de lado a proteção à natureza. Sugeriu o abatimento no IPTU em troca da coleta de água da chuva.
Com que verba vão governar? Paes acha que estando próximo de Cabral e Lula tudo ficará mais fácil, apesar da crise. Gabeira acha que Lula é um republicano etc e tal. A TV Globo, claro, preferiu evitar que temas desta natureza aflorassem com mais nitidez. Se aflorassem, não seria um debate da Globo.
Como os dois são medíocres e o formato do debate da TV Globo ao estilo estadunidense mais ainda, dificilmente os telespectadores que agüentaram a parada medíocre se posicionaram em função do debate.
Paes, preconceituoso como é a velha direita, tentou indispor Gabeira com os moradores da Avenida Atlântica e Barra da Tijuca por causa de um projeto do referido deputado sobre as prostitutas. A nova direita, que no Rio estava praticamente extinta, mudou de postura na questão moral, até para que o seu candidato apareça como moderno. Faz parte do esquema. Mas na área econômica, velha e nova direita continuam muito próximas, como ficou também demonstrado no debate da Globo. Nada mais parecido com Gabeira do que Paes e vice-versa. Paes falou com muito orgulho do convênio assinado entre o Governo do Estado, capitaneado pelo seu padrinho Cabral, e a Fundação Roberto Marinho para a ocupação do espaço da boate Help pelo Museu de Imagem e do Som. Gabeira, como não poderia deixar de ser, agradeceu efusivamente a Globo pelo debate. Não questionou, nem Paes, se no tempo em que Help foi ocupada pelo esquema do testa de ferro Chico Recarey pagou algum imposto para Prefeitura. Isto é que interessa para os cidadãos contribuintes deste Rio de Janeiro, não o tipo de público que freqüentava a Help.
Gabeira congratulou-se com a repressão ao estilo Bogotá, ou seja, a mesma posição do padrinho de Paes, Sergio Cabral, que vai mais adiante ao adotar a política de criminalização dos pobres. A Colômbia também serviu de exemplo para Gabeira, ao lembrar que lá, cidadãos que cometem alguma infração urbana recebem, dos fiscais de posturas, o "cartão amarelo e vermelho”. Será que encontraria voluntário para repetir a façanha aqui no Rio?
Como Paes apóia tudo que Cabral faz ou pensa em fazer, nem é preciso dizer qual a posição do candidato na questão da repressão ao estilo Bogotá.
Paes, que já foi o “meu garoto” de César Maia, foi em cima de Gabeira pelo apoio que está recebendo do atual prefeito. Depois de repetir várias vezes esse fato, Gabeira deu uma estocada no adversário ao lembrar que Paes era apoiado pelo vereador Jorge Babu, do PT, vinculado às milícias, que o candidato do PMDB sempre apoiou.
Esquerda burocratizada e a que não caiu na armadilha
Este medíocre debate final deve merecer a reflexão dos mais diversos setores políticos da esquerda. A da boquinha, cujo principal representante é o PC do B de Jandira Feghali, não ficando atrás o PSB, do secretário Alexandre Cardoso, e o PDT de Carlos Lupi vai ter que passar o resto da década fazendo autocrítica. E a esquerda que não caiu na armadilha de apoiar um dos dois candidatos, por ter a noção exata de que ambos são farinha do mesmo saco da mediocridade que impera no Rio de Janeiro pelo menos desde os anos 90, pode aproveitar o embalo para crescer e tentar reverter o quadro de manipulação grosseira da mídia conservadora, que fez o possível e o impossível para que o segundo turno terminasse numa disputa entre a direita velha versus a nova. Para os big-shots midiáticos, melhor não poderia ser.
E quem foi que disse a Jandira, a Cardoso e a Lupi, que o medíocre Paes é um contraponto a Gabeira? Se o que pesou nesse sentido foi a questão de apoio a Lula, pela trajetória de trânsfuga que tem Paes, não será de se estranhar se num momento de crise brava que venha a afetar a imagem do presidente, o candidato volte às suas origens partidárias de secretário geral do PSDB. Ou seja, não será de se estranhar se em pouco tempo Paes se bandear para os lados de Serra ou Aécio deixando Lula a ver navios. Paes tem o perfil do tipo rato abandonando o navio em um naufrágio. É dos primeiros a pular fora. Só a esquerda boquinha não viu isso, aliás, até viu, mas só no primeiro turno.
Gabeira e Paes, vale sempre repetir, retratam exatamente a decadência de uma cidade que algum dia representou a vanguarda política e cultural deste continente chamado Brasil. Pobre Rio de Janeiro.
E no final das contas, a TV Globo foi ouvir os candidatos para avaliar o debate. Repetiram a mesma mediocridade de sempre. O Rio merecia coisa melhor.
Por estas e outras, não mencionadas, o candidato zero zero é realmente a melhor opção. Certamente será muito bem votado. Quem viver, verá.
Ilustração:
Táia Rocha
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Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor.
Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus,
repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente
da Rádio Centenária de Montevideo,
além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989
a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988
a 1989). Atualmente é correspondente do semanário
uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato.
É autor, entre outros, dos livros América
Que Não Está na Mídia (Adia,
2006), Dossiê Tim Lopes -
Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora
do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América
Latina - Histórias de Dominação e
Libertação (Papirus, 1985) e Cuba
- apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba
(Ato Editorial, 1986).
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