......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



O MUNDO AO SEU ALCANCE

19.08.2008
Plim plim: no front de Pequim a Ossétia do Sul

Quem acompanha a cobertura dos Jogos Olímpicos de Pequim pela TV Globo deve estar espantado com a torcida dos repórteres e âncoras pelos atletas dos Estados Unidos. Parece até que se trata de uma cobertura para os Estados Unidos em língua portuguesa. Dá a impressão que o objetivo desta inusitada torcida por Tio Sam é desviar a atenção do fato de a anfitriã China estar na frente da competição em matéria de medalhas. A Globo ao que tudo indica não suporta tal coisa. Galvão Bueno e demais globais devem estar indignados e ainda não encontraram respostas para a possível perda de hegemonia. Chegaram a dizer que as crianças chinesas são retiradas dos pais para virarem atletas.

Como o desempenho brasileiro é pífio, o que não chega a ser nenhuma surpresa porque além de não termos tradição olímpica, o incentivo para a prática dos esportes que estão em competição em Pequim, com algumas exceções, são praticamente zero. Quando um outro ou outra atleta se destaca, o fato se deve geralmente ao esforço individual. O Estado de um modo geral está fora. Quando acabarem os Jogos Olímpicos de Pequim os “especialistas” vão passar horas e horas discutindo o que aconteceu, até que numa próxima Olimpíada comece tudo de novo. É também a tal rotina midiática da mediocridade.

Mentiras da CNN propagadas pelo mundo
Não é só a Globo e a mídia brasileira que deixam a desejar em matéria de coberturas pelo mundo. Para se ter uma idéia, um fato grave está sendo denunciado por um câmera de uma estação de TV russa. Segundo o profissional do canal Russia Today, a CNN utilizou as imagens por ele captadas de forças georgianas atacando Tskhinvali, a capital da Ossétia do Sul, como sendo a de efetivos russos. Como a CNN dá a pauta para uma infinidade de canais de TV em todo o mundo, inclusive os brasileiros, os telespectadores foram informados de forma totalmente errada. Venderam gata por lebre.

Como hoje em dia guerras ou desavenças bélicas regionais são mostradas ao mundo em tempo real, o que a CNN falou está falado. Esta estratégia, seguida com texto quase que traduzido literalmente pela Globo e outros canais, acabou virando a verdade absoluta que interessa a George W. Bush e a Secretaria de Estado, Condoleezza Rice.

Os papagaios de pirata destas bandas saíram repetindo o que o Departamento de Estado queria, ou seja, que a Geórgia era do bem e a Rússia a do mal. Pouco se comentou, por exemplo, que o principal aliado de Bush no mundo, Israel, forneceu assessoria militar aos georgianos, Estes, com o sinal verde de Washington e o apoio de Israel, se sentiram estimulados a empreender a aventura na Ossétia do Sul, bombardeando o que encontravam pela frente. Matar não é o problema.

Pior da história é que quem não aceita a versão estadunidense – o governo da Geórgia é pau mandado da estratégia militarista da Casa Branca, portanto, nem conta – é apresentado pela mídia de forma a parecer como “bandido” que quer reviver a Guerra Fria. Na verdade, a Guerra Fria quem está revivendo mesmo é o próprio governo Bush, que se norteia pela defesa intransigente dos interesses petrolíferos. Como pela região da Ossétia passa um oleoduto de propriedade de grandes empresas petrolíferas, tanto Bush como Condoleezza ou ainda o vice Dick Cheney não podem fugir aos compromissos que sempre tiveram com o setor.

Efeitos ainda da propaganda enganosa
Como comprovação de que o esquema Guerra Fria com outras características está de volta, vale lembrar o que está acontecendo na Polônia, cujo governo de direita cedeu ao Pentágono área para a instalação de mísseis. O pretexto, do tipo sem eira nem beira, é de que se trata de um sistema de proteção para impedir um ataque do Irã, um dos países integrantes do - denominado por Bush - “eixo do mal”.

A Polônia, depois da desastrosa experiência do socialismo real, que de socialismo de fato nunca teve, muito menos real, pois durante muito tempo representou verdadeiramente propaganda enganosa de partidos stalinistas e burocratizados (será redundância?), e que hoje até viraram partido dos ex, hoje se transformou numa correia de transmissão de Washington. Bush quer porque quer facilitar a vida do completo industrial militar, de quem é aliadíssimo.

Para tanto, é indispensável a tal base para os mísseis, que no fundo têm como objetivo a própria Rússia. E a Polônia, cujo povo ainda não se recuperou da propaganda enganosa, está aí para isso mesmo. Como historicamente nunca se deu bem com os vizinhos russos, nada melhor para um governo pró-EUA do que ceder o território para ameaçar a inimiga de sempre.

Sentindo-se a ameaçado, o governo russo já advertiu que a instalação de mísseis em território polonês é inadmissível e remete aos piores tempos da Guerra Fria. Como o complexo industrial militar estadunidense necessita criar áreas de tensão pelo mundo, nada melhor para o setor do que acontece neste momento na Polônia.

Vendedores de armas financiam violência no cinema
Os vendedores de armas, ou seja, mercadores da morte, querem não apenas escoar a sua produção, como também fazer cabeças. Não é à toa que a “área cultural” do complexo industrial militar é hoje financiadora solene de produções cinematográficas de culto à violência.

Não é à toa que cada vez mais proliferam enlatados, a custo zero para as TVs, cuja tônica é a violência e a morte em confronto virou rotina. Claro, de mau gosto, mas o que menos importa nestes casos é a qualidade. O principal é popularizar a idéia, de forma que quando ocorrem guerras e confrontos bélicos regionais verdadeiros e de interesse do completo industrial militar, a opinião pública mundial aceita o fato sem grandes celeumas. Este é o objetivo principal da enxurrada de violência nas telas dos cinemas e televisões. Ou será apenas pura coincidência o aumento nos últimos anos de tanta porcaria enlatada banalizando a violência?

Ilustração: Táia Rocha
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> Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

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