......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



O MUNDO AO SEU ALCANCE

09.07.2008
Assim caminha a humanidade

É isso aí! No Iraque, depois de muitos desmentidos, o governo fantoche daquele país decidiu permitir que as quatro maiores empresas petrolíferas ocidentais renovem as explorações de vastas reservas do ouro negro. Ou seja, pela primeira vez em quase quatro décadas a British Petroleum, a Exxon Mobil, a Shell e a Total vão deitar e rolar no país ocupado por tropas estadunidenses.

Em março de 2003 se alguém denunciasse o verdadeiro caráter da invasão do Iraque, a resposta estadunidense e de seus asseclas era de que o referido argumento era mentiroso. No início a justificativa eram as tais (inexistentes) “armas de destruição em massa”. O tempo foi passando, os desmentidos foram se sucedendo até chegar a notícia de agora, a entrada das empresas petrolíferas.

Já que estamos falando em Estados Unidos, vale assinalar que nas bandas daqui, a estratégia continua sendo a do combate ao narcotráfico e terrorismo. O Pentágono e o Departamento de Estado querem de todas as formas que as Forças Armadas latino-americanas se transformem em um corpo policial, afastando-se em definitivo do objetivo principal da corporação que deve ser o de defender a respectiva soberania. Para a potência hegemônica e seus seguidores mundo afora, soberania é coisa do passado.

No Rio de Janeiro, o Viva Rio, na palavra do queridinho da Rede Globo, Rubem César Fernandes, tenta de todas as formas convencer a classe média que o emprego das Forças Armadas no combate ao crime é uma questão vital. Vendem o peixe podre segundo a qual o Exército deve ser acionado em áreas pobres do Rio no combate a criminalidade. E tome espaço para os defensores desta idéia que se inscreve hoje na estratégia de dominação estadunidense do continente latino-americano. Nem se abala o queridinho da Rede Globo com o fato hediondo que resultou no assassinato de jovens moradores do Morro da Providência. Analisa como uma “ocorrência isolada”.

Na América Latina, a partir deste 1 de julho voltou aos mares, a IV Frota, que se encontrava desativada desde 1950. O objetivo é o “fiscalizar” o continente em que um número acentuado de países está dizendo não à estratégia de dominação estadunidense. Neste momento, com exceção do Peru e da Colômbia, os principais países da região repudiam o tratamento anterior de quintal ou pátio traseiro dos Estados Unidos.

Seis pelo meia dúzia?
Como os tempos são outros, é possível que Washington se recicle com a eleição de um candidato não do gênero hediondo, como seria John McCain, mas de Barack Obama. Aí, não será nenhuma surpresa que ressurja a idéia de uma Aliança para o Progresso kennediana, que no fundo no fundo é uma forma sofisticada de manter o continente atrelado. Mas isto não quer dizer que em essência haverá grandes mudanças ou serão respeitados governos de países que não aceitam imposições estadunidenses.

Para os cidadãos norte-americanos, Obama é um fato novo, ao contrário de McCain, que seria um Bush redivivo. Mas para a América Latina, o esquema não será tão diferente, salvo algumas mudanças de fachada e retórica.

Obama está sendo pressionado por vários lobies. Tem se colocado de forma intransigente em favor de tudo que Israel faz na região. Recentemente, depois da informação do The New York Times de que Israel fez exercícios militares simulando um ataque a centrais nucleares do Irã, o que tornaria a região uma “bola de fogo”, segundo El Baradei, o responsável pela Agencia Internacional de Energia Nuclear, Barack Obama ficou na dele¸ ou seja, não se pronunciou sobre o fato. É um defensor incondicional de Israel, quando se sabe que em outros tempos reconhecia que os palestinos têm sido vítimas de injustiças. Nesta altura, uma condenação da política de Israel poderia representar perda de votos.

McCain, o troglodita, nem se fala. Tem o apoio dos setores mais a direita o espectro político mundial. Apoiaria, sem dúvida, qualquer tipo de incursão israelense, inclusive um bombardeio ao Irã.

Todo cuidado é pouco com Bush em fim de linha. A figura do presidente estadunidense remete ao de uma cobra em seus estertores, ou seja, tentando de todas as formas dar um bote. Neste caso, o bote seria um sinal verde a Israel ou mesmo a participação direta dos Estados Unidos em um bombardeio ao Irã.

Mal agradecidos
Enquanto isso, o Parlamento da União Européia aprovou resolução do tipo linha-dura contra imigrantes. A partir de agora, segundo a medida, os ilegais poderão ficar detidos 18 meses antes de serem deportados para os seus países de origem.

Líderes políticos latino-americanos, entre os quais, Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa e Luis Inácio Lula da Silva já se manifestaram contra a medida, que, sem dúvida, representa um retrocesso. O Ministro Celso Amorim se empenhou no sentido de o Mercosul divulgar uma nota mais enfática condenando o retrocesso.

Os europeus esqueceram que nos tempos das vacas magras os seus cidadãos não absorvidos pelo mercado de trabalho vinham com a cara e a coragem para as bandas latino-americanas e eram acolhidos de forma urbana e hospitaleira. Muitos chegavam até indocumentados, nem por isso eram obrigados a retornar à sua pátria de origem ou serem detidos por até 18 meses. Ficavam por aqui, tornando-se cidadãos e contribuindo para o desenvolvimento dos países onde se radicavam. Sempre foram muito bem vindos.

Agora, quando cidadãos latino-americanos tentam melhor sorte na Europa, porque em seus países não conseguem ser absorvidos pelo mercado de trabalho, a direita xenófoba responde com medidas punitivas.

É isso, Assim Caminha a Humanidade, de forma um pouco diferente da época em que o filme do mesmo nome era apresentado. Mas aí são outros quinhentos.

Ilustração: Táia Rocha
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> Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

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