......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



O MUNDO AO SEU ALCANCE

18.04.2008
É hora de reabilitar João Goulart

Continua em investigação, apesar do silêncio da mídia, a confissão do ex-agente de inteligência uruguaio Mario Ronald Barreiro Neira de que teria envenenado o Presidente João Belchior Marques Goulart, morto em dezembro de 1976. O governo uruguaio, através do ministro das Relações Exteriores, Gonzalo Fernández, comprometeu-se a abrir todos os arquivos referentes ao exílio de João Goulart.

O Ministro da Justiça do Brasil, Tarso Genro, informou em recente entrevista com correspondentes da imprensa estrangeira no Rio de Janeiro que a Polícia Federal está no circuito, ou seja, já colheu um primeiro depoimento do referido ex-agente, que se encontra cumprindo pena no presídio gaúcho de Charqueadas, por assalto a banco e formação de quadrilha. Quem argumentar que um bandido como este ex-agente não merece crédito, vale assinalar que não estão em julgamento os crimes feitos depois de deixar o serviço de inteligência uruguaio, mas sim a sua confissão. Ou seja, não está em julgamento a pena que cumpre no Rio Grande do Sul.

Ao ser informado da existência de um livro escrito por um amigo de Jango, o uruguaio Enrique Foch Diaz – “João Goulart – El crimen perfecto” – Genro se comprometeu a tentar encontrar o autor que poderia também ajudar a desvendar o mistério sobre a morte do Presidente deposto por um golpe militar em 1 de abril de 1964. Tarso Genro revelou ainda que no período ditatorial, quando foi para o Uruguai, passou um tempo numa das propriedades de Jango e até hoje agradece pela acolhida, como fez questão de dizer na entrevista aos correspondentes da imprensa estrangeira.

Presidente deposto sofria ameaças de morte
Foch Diaz conta no livro o conhecimento que tinha sobre Jango, com quem mantinha relações estreitas. Ele começou a escrever o “Crime Perfeito” algum tempo depois da morte do amigo. Em síntese, já em 1982 ele achava que João Goulart pode ter sido assassinado, mas em função do tempo que havia passado da morte, o fato seria esclarecido só mesmo se houvesse alguma confissão.

O autor do livro mostra que depois do assassinato, hoje comprovado, pela Operação Condor, do senador uruguaio Zilmar Michellini e do deputado Gurtierrez Ruiz, ocorrido em Buenos Aires, Jango começou a temer por sua segurança e passou a se precaver, pois recebia ameaças de morte. Não poderia imaginar que algum agente de inteligência entrasse em sua casa. Em documentos que foram entregues a João Vicente Goulart, o filho de Jango, está descrito que agentes de inteligência tinham acesso à intimidade do presidente. O último aniversário de João Goulart é descrito minuciosamente por algum agente infiltrado.

Jango morreu em uma de suas propriedades na Argentina, oficialmente por ataque cardíaco. Ele tinha saído do Uruguai, onde permaneceu a maior parte do seu exílio, porque não se sentia mais seguro naquelas bandas. As autoridades impediram que fosse feita a autopsia de Jango. Se fosse feita algumas horas depois, o envenenamento poderia ter sido detectado. Agora, tantos anos depois, só alguns tipos de venenos podem ser confirmados. Sem se saber o tipo de veneno, pois há tipos não detectáveis, de nada adianta a exumação. Os restos do único Presidente brasileiro morto no exílio foram levados para a sua terra natal, São Borja, no Rio Grande do Sul, onde se encontram até hoje.

Vale lembrar que no âmbito da chamada Operação Condor, a aliança político-militar que funcionou como aparato repressivo de colaboração mútua entre Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia, várias lideranças da região foram comprovadamente assassinadas. Outras morreram em circunstâncias jamais esclarecidas. Hoje, os tais arquivos implacáveis tornados públicos confirmam a ação do aparelho repressivo conjunto. Os documentos informam até sobre incursões do delegado Sergio Fleury (*), personagem acusado por Barreiro Neira de ser um dos responsáveis pela determinação da troca de remédio de Jango por veneno.

Por estas e outras, de acordo com o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke, o chanceler uruguaio Fernández acertou que, além dos documentos existentes no âmbito do Ministério de Relações Exteriores, também será "desclassificado" o "farto material" existente na "Dirección Nacional de Inteligencia y Informaciones", o órgão de inteligência uruguaio.

Ou seja, está na hora de se esclarecer de uma vez por todas como morreu Jango. Se foi mesmo assassinado com a troca de remédios por veneno. João Vicente Goulart também está empenhado em esclarecer as circunstâncias da morte do pai.

Conservadorismo não perdoa e impede a reabilitação
Na verdade, além disso, é necessário reabilitar a figura deste Presidente brasileiro, que até hoje é criminalizado pelo conservadorismo. O esquema golpista das Organizações Globo já reabilitou praticamente todos os políticos brasileiros daquele período. Juscelino Kubitschek, por exemplo, chegou a ser agraciado com uma mini-série pela TV Globo e assim sucessivamente.

É preciso, portanto, reabilitar João Goulart, até porque as reformas de base que estavam sendo postas em prática naquele período, guardando-se as devidas proporções de tempo, continuam vigentes. A reforma agrária é uma delas. Segundo João Pedro Stédile, coordenador do MST, o projeto de reforma agrária mais avançado apresentado pelo Estado brasileiro até hoje foi o do período Jango.

Na ocasião, o conservadorismo se voltou contra o Presidente. Segundo testemunhas daquele período, poucas horas antes do golpe, Jango foi instado pelo seu ex-amigo, General Amauri Kruel, a romper com os seus apoiadores de esquerda. Recusou-se a entrar para história como traidor.

Outro fato que merece reflexão nos dias atuais prende-se a desistência de Jango em resistir ao golpe. Ele tinha informações, hoje confirmadas oficialmente, da existência da operação Brother Sun, em que os Estados Unidos colocaram nas costas brasileiras sua frota bélica a ser acionada em favor dos golpistas caso houvesse necessidade. Jango preferiu evitar o derramamento de sangue que certamente teria como principal prejudicado o povo. Além do mais, o presidente avaliou que a resistência seria inútil.

O povo brasileiro certamente pagou um tributo pesado pelos 21 anos de ditadura, mas em abril de 1964 uma resistência, com o acionar dos canhões estadunidenses, poderia ser até pior.

Jango asilou-se no Uruguai e acabou morrendo na Argentina sem ter voltado ao Brasil, país que serviu com dedicação durante grande parte de sua vida. Ao contrário de muitos políticos atuais, Jango nunca traiu seus ideais reformistas. Por isto não é perdoado pelo conservadorismo.

É preciso reverter este quadro, quer queiram ou não a direita e mesmo uma determinada área acadêmica que na prática faz o jogo do conservadorismo.

Um primeiro passo seria erguer um memorial a João Belchior Marques Goulart em Brasília. Lá repousariam os restos mortais do presidente injustiçado. Afinal de contas, está na hora de virar de uma vez por toda esta página nefasta da história brasileira representada pela deposição de Jango.

E para que isto aconteça um passo importante é mostrar ao povo brasileiro que Jango foi um presidente que tinha um projeto reformista brecado por golpistas em conluio com o grande capital.

A hora é esta!

(*) Este delegado, morto provavelmente numa queima de arquivo, por incrível que pareça é nome de rua em Ribeirão Preto, um fato que depõe contra o referido município localizado no interior paulista. Defensores do golpe de Estado de abril de 1964 tentam de todas as formas evitar a mudança de nomes de ruas. No Rio de Janeiro, por exemplo, o vereador Wilson Leite Passos, do Demo (Democratas), um golpista de primeira hora e que já agitava até contra Getulio Vargas no início dos anos 50, conseguiu aprovar, em janeiro passado, um projeto defendendo que os nomes de ruas e logradouros públicos que tenham sido dados há mais de 20 anos, não podem ser modificados. Passos certamente quer preservar as ruas com nomes de gente, como ele, serviçal da ditadura.

Por sinal, o Grupo Tortura Nunca Mais está lançando uma campanha nacional no sentido de serem levantados e retirados os nomes de ruas e logradouros públicos que homenageiam representantes da ditadura. Defendem também que sejam revogadas nos municípios brasileiros leis do tipo aprovadas pela Câmara dos Vereadores do Rio.

Tudo isso é simbólico, mas é importante que as novas gerações não esqueçam que no Brasil houve uma ditadura responsável por assassinatos e torturas de opositores.

Ilustração: Táia Rocha
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> Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

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