Neste tempo de consultas dos partidos republicano e democrata para a escolha do candidato à Presidência dos Estados Unidos, os nomes começam a despontar. Do lado do partido de George W. Bush a definição ficou mesmo com John McCain, o político que fala mentiras para agradar os mais ainda à direita. Alguns analistas o consideram moderado no contexto republicano. Pode-se imaginar o resto.
Do lado democrata, desponta Barack Obama, que está deixando Hillary, o marido e a filha furiosos. Eles imaginavam que dariam um passeio e voltariam à Casa Branca em 1 de janeiro de 2009. Mas as prévias não confirmaram o favoritismo, muito pelo contrário. Nos próximos dias a tendência, segundo tudo indica, é a confirmação de McCain, o que há de pior hoje no espectro político estadunidense, ou de menos pior no espectro republicano.
Outro dia McCain despachou Fidel Castro para junto de Karl Marx e garantiu que se for eleito manterá o embargo e as pressões contra o regime cubano. Ele e o seu, por enquanto, superior hierárquico, George W. Bush, querem que a ilha caribenha faça uma “transição democrática”, a rigor um retorno a uma época em que Cuba era considerada o prostíbulo do Caribe. E era mesmo, porque não passava de uma colônia pobre da potência hegemônica, onde os seus militares circulavam como queriam e ainda sob a benção de governantes inescrupulosos como o sargento Fulgêncio Batista, que fez o que fez graças à ajuda de Washington, urinavam nos monumentos e desrespeitavam impunemente os cubanos.
McCain andou dizendo que foi torturado por cubanos quando esteve preso no Vietnã. Mentira da grossa, segundo comprovou Fidel Castro.
O candidato republicano não quer perder o apoio da máfia cubana-americana de Miami, que sonha há mais de 49 anos voltar para o país de origem e contra a qual conspiram diuturnamente, sob o beneplácito dos serviços de inteligência estadunidenses.
Ex-seguidora de precursor de Bush nos anos 60
Hillary, que na sua juventude estava próxima de Barry Goldwater, o extremista de direita republicano da Califórnia que já foi para o inferno em 1989, também não muda tanto o seu discurso ao abordar os mais diversos temas. Na verdade, este senador californiano seria uma espécie de Bush dos anos 60. Tanto ela como o seu rival democrata Barack Obama também torcem pela “transição democrática de Cuba”. Com gradações, claro. Obama já se dispõe até a conversar com os dirigentes cubanos.
Os discursos dos dois, segundo o lingüista Noam Chomsky, são quase a face de uma mesma moeda e por isso ele se recusa em votar em qualquer um deles. Claro, que este intelectual estadunidense jamais votaria na tropa republicana. Chomsky já disse que pretende escolher algum nome de partido pequeno.
Nos Estados Unidos predomina o bipartidarismo, não tendo outros candidatos a mínima chance de chegar lá. Ralph Nader, o eterno candidato, já está em campanha. Não chega a ser nenhuma novidade no front com o seu discurso em defesa dos consumidores e que muitos democratas até hoje acusam de ter sido na prática o responsável pela ascensão de George Walker Bush em 2000 por causa dos votos da Flórida, que mesmo fraudulentamente,acabaram sendo decididos pela Justiça em favor do atual ocupante do Iraque e da Casa Branca.
Na província onde nasceu a Sérvia
Outro ponto em questão na atualidade é a declaração de independência do Kosovo, uma província sérvia que se separou de Belgrado estimulada pelos Estados Unidos e União Européia. Este ato foi sem dúvida uma total subversão da legislação internacional. O tema tem ocupado as primeiras páginas dos jornais europeus e pouco espaço na mídia brasileira.
Sob a liderança de dirigentes que em circunstâncias normais teriam de estar respondendo a uma série de acusações na Justiça, inclusive por tráfico de drogas, o Parlamento da província onde nasceu a Sérvia lá pelos idos de 1170 (*) se declarou um país independente. Isto, claro, só foi possível com o sinal verde dos fundamentalistas da Casa Branca e países europeus como a Alemanha, França etc.
É o caso de perguntar: o que fariam os países europeus apoiadores da aventura albanesa-kosovar se os flamingos na Bélgica ou os bascos na Espanha decidissem dar o grito de independência? E no Sahaara Ocidental se o povo sahuri, que luta há décadas contra o governo central do Marrocos, conseguisse se tornar uma nação? Mas Kosovo pode. Faz parte do jogo da divisão que interessa aos Estados Unidos para se fortalecer na região dos Bálcãs.
E destas e de outras formas caminha hoje a humanidade, demonstrando a cada dia a necessidade de o mundo voltar a ter um contraponto a potência hegemônica. Mas aí são outros barris de petróleo.
(*) ver “Iugoslávia – Laboratório de uma Nova Ordem Internacional”, de autoria de Mário Augusto Jakobskind, com prefácio de Barbosa Lima Sobrinho
Ilustração:
Táia Rocha
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Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor.
Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus,
repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente
da Rádio Centenária de Montevideo,
além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989
a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988
a 1989). Atualmente é correspondente do semanário
uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato.
É autor, entre outros, dos livros América
Que Não Está na Mídia (Adia,
2006), Dossiê Tim Lopes -
Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora
do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América
Latina - Histórias de Dominação e
Libertação (Papirus, 1985) e Cuba
- apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba
(Ato Editorial, 1986).
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