As eleições municipais estão chegando. Vão se repetir as velhas promessas de milhares de candidatos a vereador e prefeito em todo o país. Depois, passada a "euforia" política-eleitoral, os eleitos serão empossados e as promessas de "um mundo melhor" desaparecem como por encanto. Boa parte dos eleitores esquecerá em pouco tempo até em quem votaram ou deixarão de cobrar as promessas. O que está sendo dito não chega a ser uma novidade propriamente dita, mas uma rotina que se repete de dois em dois anos do Oiapoque ao Chui.
Em termos de municípios do Estado do Rio de Janeiro o "jogo" de democracia formal, não participativa, começa a ser preparado. Há muitos times, ou melhor, partidos que se movimentam, alguns autênticos e ideológicos, outros apenas legendas de aluguel que dão abrigo a personagens que a rigor jamais poderiam se apresentar como defensores de qualquer coisa.
Para evitar dissabores futuros que se refletirão no dia-a-dia dos cidadãos brasileiros é importante separar o joio do trigo. Não adianta nada pouco depois das eleições ficar resmungando contra "ladrões" e "safados". Antes de mais nada, é preciso medir a prática de cada um ou do partido do candidato concorrente. Sem essa avaliação, que vale mais do que discursos empapados, muito eleitor até de boa fé poderá cair no conto do vigário, ou melhor, do candidato.
Enquanto isso, a pouco mais de 50 quilômetros do Rio
Esta reflexão, que parece óbvia, mas como nos dias atuais o óbvio não tem despontado com desenvoltura, ocorre depois de uma passagem por um pequeno município de 106 mil habitantes, distante pouco mais de 50 quilômetros do Rio de Janeiro. A referência é Maricá, uma área turística e com raízes históricas das mais relevantes, para não falar das recentes descobertas de gás e petróleo na bacia Tupi e Júpiter.
Maricá, vale lembrar, é o município em que o antropólogo Darcy Ribeiro, um dos maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos, curtia e se transferia para refletir sobre o Brasil e o mundo. Foi lá que numa de suas últimas fugas do hospital em que se tratava da doença que o levou à morte, Darcy se refugiou em seu sítio "para ouvir a natureza e ficar mais perto do céu", conforme suas próprias palavras.
Maricá tem um valor histórico incomensurável. A área é citada por Charles Darwin, que se refere a um quilombo em que uma mulher negra combatente se suicidou se jogando de uma pedra para não ser presa pelos colonizadores capitalistas escravocratas. Claro, se ela fosse branca seria uma heroína citada em compêndios de história, como era uma negra combatente foi relegada ao esquecimento. A confirmação deste episódio foi feita por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense. Pleiteia-se que o local, a fazenda de Itaocaia, seja transformada em um centro de cultura afro-brasileira.
Pois bem, Maricá, em outubro de 2008, vai às urnas escolher o seu novo prefeito. Um dos candidatos, Washington Quaquá, coordenador da Frente Popular no município, já apresenta sua plataforma de governo, que inclui o projeto do centro cultural afro-brasileiro.
Uma realidade que serve de exemplo
Depois de conhecer de perto a realidade cubana, este jovem de 36 anos, formado em ciências sociais pela UFF, se for eleito pretende colocar em prática algumas experiências que deram certo na ilha caribenha, sobretudo nas áreas de saúde e educação.
Um de seus compromissos, que, sem dúvida, faria vibrar Darcy Ribeiro, é a imediata assinatura de um convênio com a Escola de Cinema de Cuba, uma criação de Gabriel Garcia Marques, Gabo, em Santo Antonio de los Baños, para a instalação em Maricá de uma escola nos mesmos moldes que a cubana. Ou seja, uma escola de cinema em uma área turística do Estado do Rio de Janeiro será uma iniciativa que colocará Maricá no pólo cinematográfico latino-americano.
Além disso, o candidato do PT pretende elaborar um estudo para a criação, ao longo dos quatro anos de gestão, de quatro escolas especializadas em informática, artes, plásticas, música e esportes. E, caso se confirme a eleição deste candidato, os estudantes da rede municipal que se destacarem nos referidos campos serão encaminhados para as escolas especializadas. Exatamente o modelo cubano, que fez com que a ilha caribenha se tornasse em potência esportiva mundial.
Outro ponto do programa de governo será o de enviar estudantes para cursarem a Escola Latino-americana de Ciências Médicas, mais conhecida como Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), onde centenas de jovens carentes de várias partes do mundo, inclusive dos Estados Unidos, se formam e assumem o compromisso de quando voltarem aos seus países de origem atenderem prioritariamente aos que precisam de assistência médica e não têm oportunidade de tê-la.
Vontade política conjugada a um orçamento generoso
Nesta altura, provavelmente muitos leitores devem estar perguntando: mas como fazer tudo isso, como transformar o sonho, ou melhor, estes tipos de promessas de um candidato em realidade? De onde vem a grana? Alguns devem estar querendo responder que a vontade política remove montanhas.
Pode ser, mas quando a vontade política vem junto com a realidade de um orçamento que em 2009 será acrescido de uma receita de 100 milhões de reais ao ano provenientes dos royalties das bacias de petróleo e gás da bacia de Santos (Tupi e Júpiter), aí as promessas têm muito mais possibilidades de se transformarem. Mas mesmo se a Petrobrás não tivesse descoberto a província petrolífera de gás, os royalties, não tão grandes, da já existente bacia de Campos, cerca de 550 mil de reais por mês, dariam para o gasto.
Citar o exemplo político de Maricá não é bairrismo ou partidarismo. Pode servir de laboratório de como deve ser feita a leitura política nos dias atuais. Claro, a direita, embora não diga explicitamente, tem ódio do povo, por temer que ele se organizando e recebendo uma educação que o transforme em cidadão na pura acepção da palavra possa prejudicar os seus eternos projetos de se locupletar em detrimento da maioria. E esta transformação, sem dúvida, passa por uma renovação política que sepulte de uma vez por todas os representantes do conservadorismo que optam por uma política de clientela, exatamente para evitar mudanças tão necessárias para o Brasil e a América Latina.
Em suma: espera-se que pelo Brasil afora os cidadãos contribuintes reflitam o máximo possível para evitar que o conservadorismo gerador de picaretagens não continue a ocupar espaços políticos. Espaços estes que a prática demonstra serem prejudiciais às amplas parcelas do povo. Ou alguém tem dúvida que reformas verdadeiras, como a agrária, tributária, política e tantas outras, não se tornaram realidade até hoje por qual motivo? A falta de vontade política e a reação dos que guardam privilégios em detrimento da maioria.