Quando uma cobra está em seus estertores há sempre o perigo de um bote, fatal se ela for venenosa. Esta seria a melhor imagem para definir o momento atual da gestão George Walker Bush. Chegou ao fim com a opinião pública, estadunidense e mundial, voltada para a escolha partidária dos candidatos e o presidente em baixa recorde, em uma situação até pior do que no período anterior a 11 de setembro de 2001.
Para quem tem memória fraca: Bush estava sem rumo e com a popularidade em baixa. Aí surgiu Osama Bin Laden, que na prática fez os estadunidenses se unirem em torno do Executivo para enfrentar o “perigo maior” representado pelo ex(?)-aliado dos Estados Unidos.
E o que tem a ver o momento atual com o de sete anos e meio atrás? Em princípio pode parecer que nada, mas se for feita uma leitura mais aprofundada pode-se concluir que exatamente em momentos de baixa os fundamentalistas ocupantes da Casa Branca são capazes de qualquer coisa.
Bush tem falado constantemente sobre o “perigo iraniano”. Recentemente em uma viagem ao Oriente Médio fez proselitismo e ameaças ao Irã. Se dependesse apenas dos falcões e do governo de Israel, a “guerra preventiva” contra um dos integrantes do “eixo do mal” já teria começado. Como não é tão fácil assim, pois o buraco é mais embaixo do que no Iraque e o preço do barril do petróleo pode subir mais ainda, os estrategistas linha-dura estão um pouco mais pensativos. Isto não quer dizer necessariamente que esteja descartada a hipótese de uma ação militar contra Teerã.
Especialidade made in USA
Todo cuidado é pouco, pois em matéria de falsificar fatos os Estados Unidos são especialistas, não de hoje. Os exemplos são muitos, como o do incidente no Golfo de Tonquim em que um navio estadunidense foi “bombardeado” por norte-vietnamitas ou pelos vietcongs, servindo de pretexto para o início das selvagens incursões contra o Vietnã. Mais recentemente ocorreu o espetáculo de marketing das armas de destruição de Saddam Hussein. Bush mandou até o então secretário de Estado Colin Powell “explicar” no plenário das Nações Unidas o “perigo” que representava Saddam Hussein. Deu no que deu e com reflexos até o presente momento.
Neste momento em que a economia do gigante do Norte está em crise, ações insanas dos falcões devem servir de alerta para quem quer a paz. Além do Irã, uma área do planeta corre perigo: a fronteira da Colômbia com a Venezuela. Bush mandou estes dias um militar de alta patente, o chefe do setor antidrogas e Madame Condoleezza Rice para visitar a Colômbia. Assim só de tocada logo três, coincidência? O tal czar antidroga falou e disse que o presidente Hugo Chávez não age como deveria contra o narcotráfico. É o tipo da conversa de continuidade da queimação da imagem do presidente.
Alguns analistas dizem que dificilmente o governo Bush tentaria mais alguma aventura militar porque os EUA estão na antevéspera das eleições presidenciais. Mas outros entendem que é justamente o contrário, ou seja, para tentar ganhar a opinião pública para um sucessor republicano o governo atual poderia preparar alguma ação militar espetacular no exterior para com isso tentar aglutinar os estadunidense em torno do ideário republicano. Uma guerra localizada entre a Colômbia e a Venezuela cairia com uma luva para esta estratégia, entendem alguns analistas.
Pelo sim ou pelo não, todo cuidado é pouco mesmo. A mídia conservadora está aí para o que der e vier. Serve de linha auxiliar para qualquer tipo de estratégia traçada pelo Departamento de Estado ou pelo Pentágono.
Na internet corre um “alerta”, divulgado pela direita de todas as matizes, sobretudo a sionista, segundo a qual Chávez estaria facilitando a ação de “terroristas islâmicos” na América Latina. Na baboseira noticiosa aparece de roldão a região da Tríplice Fronteira, área como se sabe rica em matéria de águas subterrâneas com o Aqüífero Guarani e próxima de onde os Estados Unidos montaram, apesar dos desmentidos, uma base militar e de informação para rastrear a região. A estratégia para convencer a opinião pública de que o “perigo chavista” está aumentando vai se ampliar, podem crer.
De olho no Paraguai
Washington está de olho no Paraguai, onde agora em abril será escolhido o sucessor de Nicanor Duarte Frutos, o presidente ideal para os Estados Unidos, que, segundo o anedotário popular, já rendeu muitos frutos para Bush. No ano passado, Frutos tentou reformar a Constituição para concorrer a um novo mandato. Não obteve apoio do Congresso e desistiu da idéia. Partiu para apoiar Blanca Ovelar, uma colorada que tem também o apoio de Washington. Os colorados tentam aproveitar a onda Hillary Clinton, Cristina Kirchner e Michele Bachelet para ver se pega.
A preocupação maior da oligarquia paraguaia, que está no poder pelo menos desde 1954 com a ascensão de Stroessner e se reciclou, neste momento, é com o candidato Fernando Lugo. Este ex-Bispo, que abandonou a batina para se candidatar a Presidente, se for eleito será o único fato novo na política paraguaia. Lugo teve três irmãos que fugiram da ditadura Stroessner e sempre está ao lado dos oprimidos, a maioria do povo paraguaio.
Como defini-lo politicamente? É ele quem responde em uma de suas recentes entrevistas: “Em primeiro lugar, creio que a minha formação cristã marca a minha concepção de vida, o desejo de eqüidade, de igualdade social, de justiça, a busca pelo verdadeiro reino de paz, de amor. Carrego também elementos da identidade socialista, de alguma maneira sou socialista, assumo elementos do socialismo moderno, sobretudo, aquele que busca a eqüidade, a igualdade, a não discriminação, a participação social de todos os grupos sociais”.
Em suma, em momento de crise, como a atual nos EUA, uma das saídas do sistema é uma guerra. E para que isso aconteça é preciso fabricar notícias que sirvam para convencer a opinião pública interna sobre a necessidade de uma ação militar no exterior. Tem sido assim ao longo da história. É só consultar os manuais para constatar. Por isso, todo cuidado é pouco.