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25.01.2008
Direita raivosa aposta no confronto na Colômbia

A direita midiática continua raivosa contra Hugo Chávez, da mesma forma que a Secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice e o presidente George Walker Bush. Analistas de plantão são convocados para mostrar que Chávez se intromete em assuntos internos da Colômbia. É ler os jornais para ver como o samba de uma nota só se repete nas diversas publicações. Estes senhores, que nem vale a pena terem os nomes citados, começam a falar sobre as tratativas que a Igreja Católica e o governo francês estão fazendo para libertar outros reféns.

Nenhum destes analistas é capaz de comentar um fato marcante neste contexto. Na última segunda-feira (21), o presidente Chávez recebeu no Palácio Miraflores um emissário do presidente francês, Nicolas Sarkosy, de nome Noel Saez. Do encontro participaram também o embaixador francês em Caracas, Hadelin de La Tour-du-Pin, bem como os ministros do Poder Popular para as Relações Exteriores, Nicolas Maduro, para o Escritório da Presidência, Jessé Chacón, e para as Relações Interiores e Justiça, Ramón Rodríguez Chacín.

Na agenda, apesar da direita raivosa, o encaminhamento do processo humanitário para a libertação de mais reféns da Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

Este encontro, é obvio, revela um fato: a presença de Chávez nas negociações é realmente fundamental. Sarkosy, que recebeu o também raivoso Álvaro Uribe, sabe disso. O principal é envidar todos os esforços no sentido de conseguir a libertação, entre outros, da franco-colombiana Ingrid Betancourt. É, sem dúvida, um momento decisivo.

Uribe, apenas um peão neste jogo, um peão dos Estados Unidos, está encostado na parede. Ele prometeu aos seus eleitores ganhar militarmente a parada contra a guerrilha. Não conseguiu até agora e a batalha continuará empatada ad infinitum, se nada de concreto for feito para romper o impasse. A Anistia Internacional já se manifestou afirmando que as FARCs deve ser reconhecida como “grupo armado”, da mesma forma que a Assembléia Nacional da República Bolivariana da Venezuela aprovou o reconhecimento das FARCs como “força insurgente” e não terrorista, como exigem Uribe e os Estados Unidos.

Outro fato, praticamente não divulgado pela imprensa brasileira, é que o presidente da República Bolivariana da Venezuela recebeu uma carta desde as montanhas da Colômbia em que vários reféns das FARCs, cativos há sete e nove anos, demonstram gratidão, não só pelas gestões de Hugo Chávez como da senadora colombiana Piedad Córdoba na liberação de Clara Rojas e Consuelo González de Perdomo. Os reféns exortam Chávez a continuar construindo uma alternativa para consolidar o retorno deles à liberdade. A carta com “cheiro a selva”, para usar uma expressão do próprio Chávez, é assinada por Alán Jará, Orlando Beltrán, Enrique Morillo, William Donatto Gómez, Tenente Coronel Luís Mendieta Ovalles, Sargento Arvey Delgado Argote, Gloria Polanco de Lozada e Jorge Eduardo Gechen Turbay.

Uribe simplesmente prefere ignorar o fato e acusar o presidente venezuelano de intromissão em assuntos internos. Ele sabe perfeitamente que as negociações com as FARCs passam pela Venezuela. A Igreja Católica, que agora participa das gestões pela libertação dos reféns, sabe que o presidente venezuelano é peça chave nesta engrenagem política, que nesta altura do campeonato passa também pelo reconhecimento da guerrilha como “grupo insurgente”.

Não se trata, como tenta induzir a mídia tradicional, que este posicionamento significa apoio as FARCs e a ELN. Absolutamente. A questão é que sem isso, as possibilidades de um acordo podem demorar muito mais do que se imagina. Uribe e o governo estadunidense sabem disso, mas fazem o possível para evitar que a idéia ganhe corpo. Simplesmente porque apostam no confronto, pois a paz sepulta o esquema político que defendem.

Independente do desejo de Uribe e da Casa Branca, a paz na Colômbia é uma necessidade. Virá, quer queira ou não o governo estadunidense.

Ilustração: Táia Rocha
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> Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

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