Nestes dias em que voltou às páginas a Operação Condor, a estratégia conjunta dos serviços de inteligências das ditaduras do Cone Sul contra os opositores, com o pedido da Justiça italiana, e agora da espanhola, de extradição de militares e civis envolvidos em torturas e assassinatos durante os anos 70, o momento deve servir de reflexão. Onze brasileiros, quatro deles já mortos, estão na lista de responsáveis também por crimes cometidos contra cidadãos de nacionalidade italiana e espanhola. São delitos contra a humanidade, do tipo ocorrido durante a II Guerra Mundial pelos nazistas, portanto não se prescrevem.
Mas, claro, falta alguém que teve muita importância na época. Estamos falando de Henri Kissinger, ex-secretário de Estado que deu o sinal verde para a Operação Condor. Hoje, este fato não é mais contestado e pode ser confirmado nos tais arquivos implacáveis. Mas, nos Estados Unidos, Kissinger continua atuante e impune. Ele chegou até a ser nomeado presidente da comissão que investigará os atentados de 11 de setembro. Podem imaginar que conclusões vão aparecer. O Departamento de Justiça já avisou a um juiz paraguaio que Kissinger não será testemunha da Operação Condor, pois ele não tem nada a ver com o fato. Então, se não tem nada a ver com isso, por que não é autorizado a falar sobre a questão em juízo?
Na verdade, mesmo que chegue com algum atraso, ainda está em tempo de se esclarecer de uma vez por todas quem foram os responsáveis pela série de violações dos direitos humanos cometidas por autoridades do Brasil, Chile, Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, violações estas que eram do conhecimento do governo estadunidense.
Conhecer com detalhes o passado é importante para evitar que as histórias se repitam e se puna quem deva ser punido, mesmo que estas punições ocorram penas em âmbito moral, já que muitos dos que deveriam sentar no banco dos réus estão mortos.
E não venham com a história do tipo de que adianta isso. Antes tarde do que nunca, para que as próximas gerações conheçam com detalhes o significado daqueles anos de chumbo que provocaram um número incalculável de mortes e desaparecimentos políticos, que só na Argentina chegaram a 30 mil. E que fatos desta natureza não se repitam nunca mais.
Uma incursão no Chile da Concertación
No Chile da Concertación, onde para alguns analistas as eleições significam na prática trocar o seis pelo meia dúzia, a maioria se mostra favorável a que os responsáveis por torturas e assassinatos respondam pelo que fizeram. Esta constatação foi feita pessoalmente pelo autor destas linhas em filmagens nas ruas de Santiago. As pesquisas, se forem honestas, certamente confirmarão esta tendência.
Já que estamos falando do Chile, vale informar que a líder mapuche Patricia Troncoso, condenada a dez anos e um dia de prisão por uma lei antiterrorista promulgada por Pinochet, está em greve de fome há mais de 85 dias, exatamente para tentar romper o silêncio em torno da situação dos presos políticos mapuches.
Por sinal, nestes dias, quando o autor destas linhas se encontrava no Chile, Matias Catrileo, um jovem estudante mapuche, tinha sido morto por carabineiros com tiros nas costas. Matias participava de uma mobilização pelo direito de recuperar as terras dos ancestrais, segundo os mapuches, usurpadas por modernos conquistadores. No local, de propriedade oficial de um latifundiário de nome Jorge Luchsinger funciona o quartel policial dos carabineiros, que, na prática, protege a propriedade deste senhor poderoso.
A mídia chilena, ainda mais fechada do que a brasileira e quase toda ela controlada pela direita, deu pouco destaque ao fato, que continua praticamente ignorado pelos meios de comunicação latino-americanos, que endeusam a Concertación, o grande acordo político dos socialistas, democratas-cristãos e radicais que possibilitou ao Chile a manutenção do modelo econômico implantado goela adentro do povo pela ditadura Pinochet. E é o que a direita modernosa tenta implantar por estas bandas.
Ilustração:
Táia Rocha
__________
>
Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor.
Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus,
repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente
da Rádio Centenária de Montevideo,
além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989
a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988
a 1989). Atualmente é correspondente do semanário
uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato.
É autor, entre outros, dos livros América
Que Não Está na Mídia (Adia,
2006), Dossiê Tim Lopes -
Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora
do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América
Latina - Histórias de Dominação e
Libertação (Papirus, 1985) e Cuba
- apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba
(Ato Editorial, 1986).
> Clique aqui para ler o arquivo de colunistas.