......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



O MUNDO AO SEU ALCANCE

20.12.2007
Fim de ano, tempo de reflexão

É tempo de reflexão neste fim de ano. Reflexão e recordação sobre fatos acontecidos recentemente e em outros períodos da história que não tiveram a repercussão devida. É o caso, por exemplo, da aprovação por senadores democratas de 189 bilhões de dólares para o financiamento das guerras no Iraque e no Afeganistão. Os candidatíssimos Hillary Clinton e Barack Obama, bem como outros menos votados, não estiveram presentes. Estavam em campanha. Foram 90 votos a favor e apenas três contra dos dois democratas Robert Byrd e Russ Feingold, e do independente Bernie Sanders, pouco conhecidos no exterior.

Na ocasião, foi aprovado ainda o aumento no número integrantes do Exército de ocupação estadunidense em 13 mil soldados. Aproveitando o embalo, segundo o insuspeito Washington Post, comandantes militares querem que sejam enviados mais soldados para o Afeganistão, onde a coisa está ficando apertada para as forças de ocupação. Não se descarta até, segundo ainda o Washington Post, a possibilidade de se deslocar tropas acantonadas no Iraque para o Afeganistão.

Também dos Estados Unidos se destaca o informe segundo o qual o procurador geral Michael Mukasey está recebendo duras críticas dos democratas por seu procedimento no escândalo da destruição pela CIA de centenas de horas de vídeo que mostravam interrogatórios nas prisões deste serviço de inteligência. Em suma, o acusado tentou de todas formas esconder o jogo das torturas apagadas dos vídeos.

Em relação aos republicanos, vale assinalar que senadores deste partido impediram a aprovação de um projeto em que se proíbe as técnicas de torturas do tipo submarino e outras. Ou seja, os correligionários de Bush impediram que esta prática denunciada por organismos defensores dos direitos humanos prosseguisse. Coisas da turma de Bush.

Coberturas midiáticas sob suspeição

As recentes coberturas dos meios eletrônicos sobre Cuba e a República Bolivariana da Venezuela merecem registro neste apagar das luzes de 2007. O Fantástico, da TV Globo, editou matéria em que dois atores interpretando repórteres foram até a fronteira do Brasil com a Venezuela para analisar, aparentemente em tom de humor, como os brasileiros reagiriam a uma invasão de forças militares do país vizinho. Humor ou tentativa de criar o clima de desconfiança e fazer cabeças no sentido de começar a achar tal possibilidade viável? A resposta fica por conta da consciência de cada um. Pelos antecedentes da Rede Globo, a reposta não é tão difícil. Ou será que pode haver dúvidas?

Qual pode ser a relação entre o fato de o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva estar visitando Caracas no período em que a Globo editava a matéria sobre “a invasão?” De onde saiu a pauta “humorística” editada no Fantástico?

Sobre Cuba, o mesmo Fantástico aproveitou o embalo para ouvir uma filha de Fidel Castro que vive há anos nos Estados Unidos. De quebra, comentou-se também a deserção de três músicos de um conjunto cubano que se apresentava em Pernambuco e que pediram asilo ao Brasil.

Como sempre acontece nestes casos de deserção, a mídia aproveita a ocasião para dizer que na ilha caribenha se desrespeita os direitos humanos etc e tal. Dificilmente algum destes órgãos de imprensa lembraria de um fato histórico ocorrido em Cuba em 1962 e que demonstrou exatamente o contrário do que é propalado em relação aos direitos humanos na ilha. Com a invasão da baía dos Porcos foram presos 1.192 mercenários condenados por infringirem a legislação do país. Depois de um ano e meio de intensas e tortuosas negociações, os prisioneiros acabaram soltos em troca do pagamento de uma indenização por parte do governo dos Estados Unidos de 63 milhões de dólares. Os prisioneiros-invasores foram tratados condignamente, inclusive os necessitados tiveram assistência médica gratuita, numa demonstração inequívoca de respeito aos direitos humanos.

Mas como este tipo de lembrança desagrada aos que há anos editam matérias contra Cuba, esta troca ocorrida um ano e meio após a invasão da Baia dos Porcos praticamente foi apagada da história. Não interessa, pois a história está sendo contada de outra forma e o fato pode entrar em choque com certas mentiras que de tão propaladas acabaram virando verdades para muitos setores.

Em suma, os tempos hoje, como diria Ignácio Ramonet, editor de Le Monde Diplomatique são da mídia que se transformou em aparelho ideológico do capital financeiro.

Ilustração: Táia Rocha
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> Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

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