Depois da atitude subserviente do presidente
colombiano Álvaro Uribe, possivelmente por pressão
estadunidense, rompendo o acordo com o presidente Hugo Chávez
para negociar com as Farc a libertação de mais de 40
seqüestrados, a Telesul denunciou a perseguição que
vem sofrendo o colaborador William Parra, pelo jornalista ter feito uma
entrevista com um oficial preso pela guerrilha. E isso sem nenhum
protesto de entidades midiáticas, que volta e meia denunciam o
governo venezuelano por desrespeitar a liberdade de imprensa.
A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e a suspeita entidade Repórteres Sem Fronteira
nunca se pronunciaram contra as pressões exercidas pelo governo
colombiano, não só contra Parra como também contra
Freddy Muñoz e Hollman Morris, jornalistas colaboradores da
Telesul. As referidas entidades praticamente silenciaram sobre um fato:
a Colômbia lidera as listas de países com maior quantidade
de jornalistas assassinados no mundo e com maiores dificuldades entre
os países da América Latina para o exercício
profissional.
O diretor da Polícia colombiana, general Oscar
Naranjo, protestou contra a entrevista feita por Parra ao
capitão Guillermo Solórzano em poder da guerrilha. O
general simplesmente ignorou que a reportagem, realizada no mês
passado, estava pautada e fazia parte das gestões para o acordo
humanitário objetivando a libertação de
prisioneiros em poder das Farc.
O governo colombiano, bastante antenado com Washington, inventou um
pretexto para impedir que as gestões de Chávez
saíssem vitoriosas, o que, para os Estados Unidos e para Uribe,
reforçariam o prestígio do presidente venezuelano. Quer
dizer, Bush e Uribe fazem politicalha. Para eles, pouca importa que a
vida de muita gente, inclusive de uma ex-candidata à
Presidência colombiana, Ingrid Bettancourt, esteja correndo
perigo, já que ela poderia ser libertada.
Chefe de polícia não gostou
O chefe da polícia colombiana é uma
figura perigosa. Nesse sentido, o colaborador da Telesul, William
Parra, corre riscos, porque não dança conforme a
música que deseja o general. E a partir de agora qualquer coisa
que aconteça com o jornalista será culpa do Estado
colombiano. O outro jornalista ameaçado, Hollman Morris, acabou
tendo de abandonar a Colômbia porque estava sendo
ameaçado. Como não confiava nos que deveriam dar-lhe
proteção para preservar sua vida, deixou o
território colombiano.
Mas a mídia conservadora na América
Latina silencia sobre estes fatos e prefere diariamente investir
furiosamente contra a “ditadura chavista”, onde não
tem jornalista preso, ninguém foi ameaçado como na
Colômbia e assim sucessivamente.
O que terão a dizer sobre isso os parlamentares
do Partido dos Democratas (os Demos), que fizeram um show de
reacionarismo explícito em ocasião da
votação na Comissão de Constituição
e Justiça da Câmara dos Deputados, favorável ao
ingresso da República Bolivariana da Venezuela no Mercosul?
Candidato protesta contra Forte Benning, ex-Escola das Américas
Por fim, na Geórgia 20 mil pessoas se reuniram
outra vez em frente à entrada do Forte Benning para exigir o
fechamento do Instituto de Cooperação para a
Segurança Hemisférica, nome atual da Escola das
Américas, também conhecida como Escola de Assassinos.
Onze pessoas foram presas e acusadas de invadir a propriedade privada.
As Forças Armadas estadunidenses utilizam esta escola hoje com o
objetivo de treinar soldados latino-americanos para o combate à
contra-insurgência e ao narcotráfico.
Vale assinalar ainda, já que a mídia
conservadora omite fatos desta natureza, que da
manifestação contra esta Escola onde vários
oficiais latino-americanos aprenderam a torturar participou o candidato
presidencial democrata Dennis Kucinich. O referido pode até
não ter chance de sair candidato a Presidente, mas o simples
fato de estar presente a uma manifestação desta natureza
já é notícia - não para a mídia
conservadora, que prefere apenas badalar Hillary Clinton, por sinal a
candidata que está tendo o maior apoio da indústria de
armamentos.
Ilustração:
Táia Rocha
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Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor.
Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus,
repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente
da Rádio Centenária de Montevideo,
além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989
a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988
a 1989). Atualmente é correspondente do semanário
uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato.
É autor, entre outros, dos livros América
Que Não Está na Mídia (Adia,
2006), Dossiê Tim Lopes -
Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora
do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América
Latina - Histórias de Dominação e
Libertação (Papirus, 1985) e Cuba
- apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba
(Ato Editorial, 1986).