Mais até do que o resultado do referendo na
Venezuela, vale comentar o tipo de cobertura que vem fazendo a
mídia brasileira sobre o referido país. Talvez esta tenha
sido a cobertura mais samba de uma nota só que se tem
notícia nos últimos tempos. Na época de Salvador
Allende, o Brasil vivia em plena ditadura, ou seja, o noticiário
encontrava-se sob vigilância permanente. Era, portanto, um samba
de uma nota só dirigido, correndo-se risco até de
prisão colocar posições em favor da Unidade
Popular chilena. Lá se vão mais de 34 anos daquela
tragédia golpista do assassino e ladrão Augusto Pinochet.
Vale a constatação histórica que pode servir
até de tese de mestrado ou doutorado.
Mas agora os jornalões impressos e os
telejornais exageraram na dose. Antes do dia da consulta popular
propriamente dita acontecia uma pichação diária do
“ditador” venezuelano. Figuras notoriamente de direita e
apoiadoras do golpe de estado de abril de 2002 eram contempladas como
heróis da “causa democrática”. Chávez
era e continua sendo apresentado ao público como o
próprio Lúcifer.
Colunistas de O Globo, por exemplo, foram
destacados para criticar a revolução bolivariana. Um
notório direitista como Ali Kamel escreveu raivosa e
furiosamente contra o “ditador”. A vitória do
“Não” foi saudada efusivamente, mas na base da
parcialidade absoluta. Kamel, Merval Pereira e Miriam Leitão,
entre outros, não analisaram, torceram como se o referendo fosse
um Fla-Flu.
Os demais jornais, com raríssimas exceções, seguiram a linha de O Globo. Até mesmo a Tribuna da Imprensa
acabou voltando às suas origens pré-1964. O combativo
Helio Fernandes, que apoiou o golpe contra João Goulart, mas
rompeu com seus pares a partir de 9 de abril, criticou, ao estilo
lacerdista, a revolução bolivariana. Qual teria sido o
motivo da recaída da Tribuna da Imprensa?
Nem todo mundo acompanha o aprofundamento de um
processo revolucionário ou aceita a caminhada para o socialismo,
o que, claro, é um direito que assiste. Mas daí a baixar
o nível de uma forma sectária e emocional vai uma
distância grande. Não é jornalismo, é
partidarismo na mais pura acepção da palavra, no caso dos
jornalões acompanhado de uma falsa áurea de
imparcialidade.
Aparelho ideológico da globalização
A mídia brasileira de um modo geral, sempre com
as raras e honrosas exceções, deixou de ser o quarto
poder para se tornar, usando uma expressão de Ignácio
Ramonet, editor do Le Monde Diplomatique, aparelho
ideológico da globalização. Entenda-se
globalização como defesa dos interesses do capital e do
imperialismo. Os jornalões e os telejornais deixaram de seguir o
bê-á-bá dos manuais do jornalismo para se tornarem
defensores incondicionais de interesses poderosos. O noticiário
sobre os acontecimentos na República Bolivarina da Venezuela, de
uma certa forma, espelham claramente esta tendência.
O “ditador derrotado” já
está sendo apresentado como debilitado, etc e tal. Quem lê
os tais mencionados analistas imagina que o governo Hugo Chávez
tenha praticamente chegado ao fim. Torcem para que isso
aconteça. Mas utilizam argumentos pífios para defender a
tese.
Argumentos pífios
Quanto ao “ditador”, os argumentos
utilizados não resistem a mínima análise. Agora
estão induzindo os leitores a concluir que Chávez
é igual a Hitler. Trata-se, claro, de uma ignorância
histórica sem tamanho, além de uma visão estreita
e claramente eivada de colonialismo cultural. Dizer que Chávez
é comunista não colaria, porque este refrão se
esgotou. Só cabe na cabeça de filósofos reprovados
em bancas da USP, como Olavo de Carvalho e, como ele, dos saudosistas
de um tempo de ditadura. Decidiram então desencavar uma figura
histórica hedionda que surgiu na Europa no século
passado. É até perda de tempo neste caso separar o joio
do trigo.
Os tais analistas não entendem ou não
querem entender uma coisa: a América Latina está em
transformação e os povos não querem mais aceitar
goela adentro modelos impositivos que só fizeram aumentar as
desigualdades sociais. Este tempo acabou, embora tentem mantê-lo
de todas as formas, inclusive acionando os espaços
midiáticos dominados pelo conservadorismo.
Logo após Chávez ter reconhecido a
derrota no referendo e saudado os vencedores, os jornalões
disseram que o presidente venezuelano só respeitou o resultado
depois de consultar as representações das Forças
Armadas. Era para justificar as mentiras anteriores que garantiam que
Chávez não acataria o resultado das urnas caso a proposta
do SIM não vingasse. Em poucas horas as mentiras
midiáticas caíram por terra, mas mesmo assim os editores
não se deram por vencidos. E assim sucessivamente.
Grana da USAID
A mídia silenciou totalmente sobre uma informação que saiu no insuspeito Washington Post
segundo a qual representações estudantis da Universidade
Católica de Caracas Andrés Bello e outros grupos
receberam financiamento de workshops da Agência estadunidense
para o Desenvolvimento Internacional (USAID) no valor de 216 mil
dólares. E isto desde 2003. Estes mesmos estudantes
saíram em campo de mãos dadas com notórios
golpistas em defesa do NÃO. Regozijaram-se com o resultado
apertado. Mas pode-se imaginar o que aconteceria na Venezuela se fosse
o contrário, ou seja, se o SIM tivesse ganho com esta
diferença? Os estudantes estariam nas ruas denunciando a fraude.
No Parlamento brasileiro, figuras como o Senador
José Sarney, o dono da mídia maranhense, desancou
várias vezes contra Chávez. O Senador Osmar Dias, do PDT,
não fez por menos e saudou a derrota do “populismo”.
No caso deste senador, vale observar que ele está filiado a um
partido como o PDT, que diz privilegiar o trabalho em detrimento do
capital e ao mesmo tempo está vinculado ao agro-negócio e
à UDR do Paraná, o que de saída é uma
contradição, pois como pode um partido que diz estar ao
lado do trabalho ter em suas fileiras alguém com este perfil
ideológico?
Assim caminha a mídia, o mundo da politicalha
que treme pelas bases quando se vislumbra a possibilidade de tornar a
democracia verdadeiramente democracia e não um arremedo dominado
pelo poder econômico. É que com democracia participativa
menores são as condições de se fortalecerem
figuras como um Osmar Dias e companhia.