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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



O MUNDO AO SEU ALCANCE

06.12.2007
Mídia delira contra Chávez

Mais até do que o resultado do referendo na Venezuela, vale comentar o tipo de cobertura que vem fazendo a mídia brasileira sobre o referido país. Talvez esta tenha sido a cobertura mais samba de uma nota só que se tem notícia nos últimos tempos. Na época de Salvador Allende, o Brasil vivia em plena ditadura, ou seja, o noticiário encontrava-se sob vigilância permanente. Era, portanto, um samba de uma nota só dirigido, correndo-se risco até de prisão colocar posições em favor da Unidade Popular chilena. Lá se vão mais de 34 anos daquela tragédia golpista do assassino e ladrão Augusto Pinochet. Vale a constatação histórica que pode servir até de tese de mestrado ou doutorado.

Mas agora os jornalões impressos e os telejornais exageraram na dose. Antes do dia da consulta popular propriamente dita acontecia uma pichação diária do “ditador” venezuelano. Figuras notoriamente de direita e apoiadoras do golpe de estado de abril de 2002 eram contempladas como heróis da “causa democrática”. Chávez era e continua sendo apresentado ao público como o próprio Lúcifer.

Colunistas de O Globo, por exemplo, foram destacados para criticar a revolução bolivariana. Um notório direitista como Ali Kamel escreveu raivosa e furiosamente contra o “ditador”. A vitória do “Não” foi saudada efusivamente, mas na base da parcialidade absoluta. Kamel, Merval Pereira e Miriam Leitão, entre outros, não analisaram, torceram como se o referendo fosse um Fla-Flu.

Os demais jornais, com raríssimas exceções, seguiram a linha de O Globo. Até mesmo a Tribuna da Imprensa acabou voltando às suas origens pré-1964. O combativo Helio Fernandes, que apoiou o golpe contra João Goulart, mas rompeu com seus pares a partir de 9 de abril, criticou, ao estilo lacerdista, a revolução bolivariana. Qual teria sido o motivo da recaída da Tribuna da Imprensa?

Nem todo mundo acompanha o aprofundamento de um processo revolucionário ou aceita a caminhada para o socialismo, o que, claro, é um direito que assiste. Mas daí a baixar o nível de uma forma sectária e emocional vai uma distância grande. Não é jornalismo, é partidarismo na mais pura acepção da palavra, no caso dos jornalões acompanhado de uma falsa áurea de imparcialidade.

Aparelho ideológico da globalização

A mídia brasileira de um modo geral, sempre com as raras e honrosas exceções, deixou de ser o quarto poder para se tornar, usando uma expressão de Ignácio Ramonet, editor do Le Monde Diplomatique, aparelho ideológico da globalização. Entenda-se globalização como defesa dos interesses do capital e do imperialismo. Os jornalões e os telejornais deixaram de seguir o bê-á-bá dos manuais do jornalismo para se tornarem defensores incondicionais de interesses poderosos. O noticiário sobre os acontecimentos na República Bolivarina da Venezuela, de uma certa forma, espelham claramente esta tendência.

O “ditador derrotado” já está sendo apresentado como debilitado, etc e tal. Quem lê os tais mencionados analistas imagina que o governo Hugo Chávez tenha praticamente chegado ao fim. Torcem para que isso aconteça. Mas utilizam argumentos pífios para defender a tese.

Argumentos pífios

Quanto ao “ditador”, os argumentos utilizados não resistem a mínima análise. Agora estão induzindo os leitores a concluir que Chávez é igual a Hitler. Trata-se, claro, de uma ignorância histórica sem tamanho, além de uma visão estreita e claramente eivada de colonialismo cultural. Dizer que Chávez é comunista não colaria, porque este refrão se esgotou. Só cabe na cabeça de filósofos reprovados em bancas da USP, como Olavo de Carvalho e, como ele, dos saudosistas de um tempo de ditadura. Decidiram então desencavar uma figura histórica hedionda que surgiu na Europa no século passado. É até perda de tempo neste caso separar o joio do trigo.

Os tais analistas não entendem ou não querem entender uma coisa: a América Latina está em transformação e os povos não querem mais aceitar goela adentro modelos impositivos que só fizeram aumentar as desigualdades sociais. Este tempo acabou, embora tentem mantê-lo de todas as formas, inclusive acionando os espaços midiáticos dominados pelo conservadorismo.

Logo após Chávez ter reconhecido a derrota no referendo e saudado os vencedores, os jornalões disseram que o presidente venezuelano só respeitou o resultado depois de consultar as representações das Forças Armadas. Era para justificar as mentiras anteriores que garantiam que Chávez não acataria o resultado das urnas caso a proposta do SIM não vingasse. Em poucas horas as mentiras midiáticas caíram por terra, mas mesmo assim os editores não se deram por vencidos. E assim sucessivamente.

Grana da USAID

A mídia silenciou totalmente sobre uma informação que saiu no insuspeito Washington Post segundo a qual representações estudantis da Universidade Católica de Caracas Andrés Bello e outros grupos receberam financiamento de workshops da Agência estadunidense para o Desenvolvimento Internacional (USAID) no valor de 216 mil dólares. E isto desde 2003. Estes mesmos estudantes saíram em campo de mãos dadas com notórios golpistas em defesa do NÃO. Regozijaram-se com o resultado apertado. Mas pode-se imaginar o que aconteceria na Venezuela se fosse o contrário, ou seja, se o SIM tivesse ganho com esta diferença? Os estudantes estariam nas ruas denunciando a fraude.

No Parlamento brasileiro, figuras como o Senador José Sarney, o dono da mídia maranhense, desancou várias vezes contra Chávez. O Senador Osmar Dias, do PDT, não fez por menos e saudou a derrota do “populismo”. No caso deste senador, vale observar que ele está filiado a um partido como o PDT, que diz privilegiar o trabalho em detrimento do capital e ao mesmo tempo está vinculado ao agro-negócio e à UDR do Paraná, o que de saída é uma contradição, pois como pode um partido que diz estar ao lado do trabalho ter em suas fileiras alguém com este perfil ideológico?

Assim caminha a mídia, o mundo da politicalha que treme pelas bases quando se vislumbra a possibilidade de tornar a democracia verdadeiramente democracia e não um arremedo dominado pelo poder econômico. É que com democracia participativa menores são as condições de se fortalecerem figuras como um Osmar Dias e companhia.

Ilustração: Táia Rocha
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> Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).


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