......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



06.04.2008
ARGENTINA: “O CAMINHO É O DIÁLOGO E NÃO A VIOLÊNCIA”

Por Adolfo Pérez Esquivel (*)

É necessário fazer um chamado à serenidade e ao diálogo entre o governo nacional e os produtores agropecuários, com a finalidade de resolver o conflito vigente há mais de 13 dias.

Exigir que "segurem o tranco" esses que pretendem impor sua vontade através da violência e não pelo diálogo. É lamentável a prepotência de grupos piqueteiros liderados por Délia, assim como os dirigentes caminhoneiros, dos Moyanos, que não ajudam com sua atitude e que são grupos de choque para defender o governo.

É o pior dos caminhos escolhidos. Assim como o panelaço, que saíram com panelas de aço inox para defender seus interesses sectoriais e não para buscar soluções justas e dignas para todo o povo. Vamos lembrar que foram eles que aplaudiram e acompanharam a "mão dura" que Blumberg quis impor para condenar a pobreza.

Existem meios de avançar no diálogo, e o governo é responsável por assumir isso e evitar que se chegue a um enfrentamento entre trabalhadores. É um retrocesso na vida democrática do país. Nem todos os produtores rurais estão nas mesmas condições.

Os grandes produtores rurais e as empresas transnacionais enriquecem através da soja e das exportações pecuárias, privilegiando o capital financeiro sobre o capital humano. Os fatos são mais do que eloqüentes. Estão transformando o país em produtor de monocultura de soja transgênica, com as graves conseqüências dessa exploração irracional com danos irreversíveis ao meio ambiente e aos recursos naturais, a devastação das matas naturais e da biodiversidade. Provocando a expulsão dos povos indígenas e do campesinato.

Esses setores, nestes últimos anos, ganharam fortunas que não estão dispostos a distribuir e opõem-se às retenções. As retenções são necessárias para que o país saia do poço em que foi afundado por setores canalhas que pilharam o país com total impunidade, gerando a fome, a miséria e a perda do patrimônio do povo.

Outra situação que é necessário diferenciar é a que vivem os pequenos e médios produtores rurais, muitos deles com a terra hipotecada e sem recursos. As retenções não podem ser da mesma magnitude que para os latifundiários. A eqüidade e justiça de políticas diferenciadas é o que o governo deve estabelecer, entre os que têm mais, e os que têm menos.

Outro ponto crítico é saber o que se faz com as retenções, para onde serão destinadas e qual é seu impacto social, em educação, saúde, trabalho e desenvolvimento do povo. Não podemos esquecer a crise de 2001 e o saque sofrido pelo país.

Estamos em uma etapa de recuperação econômica sustentada e é necessária a redistribuição da riqueza em políticas superadoras, coerentes com as necessidades do povo, e ter como prioridade o pagamento da dívida interna. Evitar que morram crianças, indígenas e anciãos de fome e doenças evitáveis. Criar fontes de trabalho genuíno e não o clientelismo político que tanto dano causa ao país.

Se as retenções são dirigidas corretamente para o bem do povo, na redistribuição da riqueza para tornar realidade o país que queremos, será um triunfo de todo o povo argentino. Por isso digo: Segurem o tranco. O caminho é o diálogo e não a violência.

(*) Adolfo Pérez Esquivel é prêmio Nobel da Paz. Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores. Publicado originalmente na Agência Carta Maior.

 


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