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PROMETHEUS
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06.12.2007
Dinheiro público faz
a festa da TV digital
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A TV digital aberta no Brasil foi oficialmente
inaugurada no domingo, dia 02 de dezembro, em festa promovida pelas
emissoras de televisão e que contou com a
presença do
radiodifusor e dublê de ministro (Hélio Costa) e
do
presidente da República, Luis Inácio Lula da
Silva.
Na oportunidade, o presidente avisou que o Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) criará
uma
linha de crédito especial (a juros subsidiados) para que o
comércio varejista possa baratear o terminal de acesso que
permitirá que as TVs analógicas recebam o sinal
digital.
O terminal de acesso mais barato é produzido pela Positivo,
que
sugere um preço final de R$ 500,00. Mas é
possível
encontrar outras marcas vendidas por quase R$ 1 mil. Tal aparelho
não capta imagens em alta definição (o
que de
resto também demandaria um monitor igualmente em alta
definição) e não tem qualquer recurso
de
interatividade. É tão somente um seletor de
canais em
modo digital e que captará exatamente a mesma
programação disponível na TV
analógica.
Como o Brasil resolveu adotar uma tecnologia que só
é
utilizada em um único país (o Japão),
em
contraste, por exemplo, com o DVB europeu, adotado por cerca de 65
países, é de se esperar que tenhamos problemas na
escala
da produção, que terminarão impactando
o
preço final. Por outro lado, há meses
já se ouvia
nos bastidores que as empresas estavam criando um preço
artificialmente alto para justificar um possível apoio
financeiro do governo. A única tecnologia brasileira que
constará na TV digital do Brasil (o software Ginga), por
exemplo, não foi adotado ainda sob
alegação de
custos para implementação, mesmo que seus
criadores
afirmem que o custo real não passa de R$ 5,00 por cada
terminal
de acesso.
Pois parece que o governo ouviu a indústria e o varejo e
resolveu colocar dinheiro público para baratear o terminal
de
acesso. E aqui começam os absurdos.
O governo não tem em mãos uma planilha de custos
do
terminal de acesso e, portanto, não sabe dizer se os
preços foram artificialmente inflados justamente a espera
dos
juros subsidiados do governo. Algo no estilo daquela velha
fórmula de criar dificuldades para vender facilidades.
Os terminais de acesso que serão financiados são
meros
seletores de canais. Se no futuro a TV digital brasileira tiver
qualquer nível de interatividade, o atual usuário
terá que jogar no lixo o seu terminal de acesso para comprar
outro. Ou seja, o governo está financiando uma tecnologia
sabidamente obsoleta.
Como o acordo com o Japão não prevê
nenhum tipo de
transferência de tecnologia e tampouco a
formação
de mão de obra especializada, o governo estará
financiando indiretamente ou a importação dos
terminais
de acesso ou a simples montagem deles em Manaus, através do
expediente de maquiladoras (empresas que recebem os produtos
semi-prontos, em kits, e que apenas fazem a montagem final, utilizando
mão de obra barata e pouco qualificada).
A este "dinheiro fácil" destinado ao comércio
irão
se somar os recursos já disponíveis para as
indústrias de equipamentos, os radiodifusores e os
produtores
(veja aqui [LINK] uma análise deste programa do BNDES, feita
a
pedido do Boletim de Acompanhamento Social do BNDES).
O pior de tudo é que a utilização de
recursos
públicos para por em prática o acordo firmado com
o
Japão, obriga que tal acordo seja ratificado pelo Congresso
Nacional (conforme o artigo 49 da Constituição
Federal).
Quando o governo disponibiliza tais verbas públicas para
executar acordos internacionais sem o consentimento do parlamento
está incidindo em atitude inconstitucional. Tudo isso, e
mais
uma vez, apenas para garantir o sucesso de uma política que
beneficia exclusivamente as emissoras de TV e as multinacionais da
eletrônica.
Quem sabe um dia o governo Lula responderá à
história pelo crime de lesa pátria que
está
cometendo na implantação da TV digital
brasileira.
Ilustração:
Táia Rocha
__________
>
Gustavo Gindre é jornalista (UFF), mestre em
comunicação (UFRJ), coordenador geral do
Instituto de
Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura
(INDECS),
membro eleito do Comitê Gestor da Internet do Brasil e membro
do
Coletivo Intervozes.
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