......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



SINAIS DAS RUAS

26.11.2008
“Eu participo, tu participas, nós participamos, eles lucram”

Meus senhores, é mesmo um problema
Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos
Toda oportunidade
De discutir a questão.
Quando queiram os senhores! A todo momento!
Pois o desemprego é para o povo
Um enfraquecimento.
Para nós é inexplicável
Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável
Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade
Dizer que é inexplicável
Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer
A confiança das massas
Para nós imprescindível.
É preciso que nos deixem valer
Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer
Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber
Com esse desemprego!
Ou qual a sua opinião?
Só nos pode convir
Esta opinião: o problema
Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é: nosso desemprego
Não será solucionado
Enquanto os senhores não
Ficarem desempregados!

(
Bertolt Brecht)

A frase que dá título a este artigo, uma das muitas escritas nos muros de Paris durante o maio de 1968, me veio à lembrança quando vi na TV o presidente Lula fazendo um apelo à população brasileira para que todos consumam. Ele disse mais ou menos assim: “se você deixar de comprar com medo de perder o emprego e não ter como pagar suas dívidas, saiba que é justamente ao não ir às compras que seu emprego fica ameaçado”. É como se o próprio trabalhador, no final das contas, fosse o culpado pela “crise” e suas conseqüências. E, como consumidor voluntário, tivesse a capacidade de participar da salvação da economia mundial.

O mesmo tipo de argumento aparece nas campanhas contra a dengue, nas quais a população vitimada pelo desmantelamento da saúde pública é culpabilizada pela epidemia. Economizando na contratação de profissionais de saúde, as campanhas estatais engordam ainda mais a mídia gorda com anúncios em horário nobre pedindo a participação de todos no combate ao mosquito. Uma espécie de cruzada na qual todos ganham, menos as vítimas preferenciais do aedes aegyptis. A mídia corporativa ganha com a venda de espaço publicitário e no incentivo fiscal por fazer serviços de utilidade pública. O governo se desincumbe do investimento na saúde. E as instituições financeiras têm garantido seu financiamento através dos repasses dos orçamentos públicos, cuja maior parte hoje está comprometido com o pagamento das supostas dívidas interna e externa, que jamais sofreram qualquer auditoria.

Enquanto uma quantia incalculável de dinheiro está sendo usada para salvar o mercado financeiro, vejo na telinha o governador de Santa Catarina pedindo doações voluntárias de água, comida e colchões. Mais uma vez, o espírito de solidariedade e o desejo de participação cidadã do povo perversamente manipulado pelos governantes títeres do capital.

Cada vez mais parasitário, o capital suga avidamente as riquezas produzidas por trabalhadoras e trabalhadores. Sua mão assassina está nas chamadas catástrofes naturais, cujo resultado em número de vidas humanas perdidas é a outra face da depredação da natureza e da falta de investimento na infra-estrutura capaz de impedir tais tragédias.

No mesmo dia em que as águas de um rio eram apontadas como algozes dos 84 mortos e milhares de desabrigados em Santa Catarina, páginas de notícias da internet anunciavam “Salários devem ser reduzidos em 2009”. Onde vai sangrar isso? Quem vai pagar essa conta? Certamente, de acordo com as manchetes a serviço dessa máfia internacional, serão aqueles que devem fazer a sua parte não reclamando da redução salarial, afinal, melhor isso do que o desemprego, ou o caos, como se já não vivêssemos num mundo insustentável econômica e eticamente.

Como todas as máfias, a do mercado financeiro precisa da sensação de insegurança para vender ordem e proteção. Afinal de contas, a vida sempre pode piorar. O que nos resta é fazer a nossa parte, vamos participando dócilmente, virando garrafas de cabeça para baixo, tirando água dos pneus velhos, consumindo o que não precisamos (a época é boa, afinal, estamos no Natal!), mandando colchões e mantimentos para os atingidos pelas chuvas, agradecendo por estarmos vivos.

Em meio à conclamação à participação popular no financiamento das desigualdades sociais, há os que desafinam e me fazem lembrar a bela frase de Walter Benjamin, filósofo marxista judeu que se suicidou para escapar do cerco nazista: “Nossa esperança são os desesperados”. Os supermercados saqueados por aqueles que perderam tudo mostram que o respeito à propriedade privada não pode se sobrepor à defesa da vida humana.

Ilustração: Nico
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> Adriana Facina é antropóloga, professora do Departamento de História da UFF, membro do Observatório da Indústria Cultural e autora dos livros Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).

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