Na semana passada tive de passar pela experiência que é rotina para milhares de pessoas que utilizam os serviços das Barcas S.A.: fazer a travessia para Niterói em horário de rush. Todos que vivem isso sabem: filas imensas, passageiros em pé por superlotação, desrespeito ao direito de grávidas, portadores de deficiências e idosos, gente passando mal por causa da aglomeração na estação, barcas sem ventilação adequada, já apelidadas de saunas ambulantes pelo povo, passagens muito caras (2,50 a viagem). A polícia sempre mobilizada, com carros estacionados nas estações, a postos para defender o monopólio de uma possível e justificada revolta popular. Afinal, isso não seria algo novo. É só lembrarmos, por exemplo, da Revolta da Cantareira, ocorrida em 1961, que incendiou a cidade de Niterói.
A empresa Barcas S.A. transporta mais de uma milhão e meio de passageiros todos os meses, segundo estatísticas publicadas em seu site. Com a passagem a 2 reais e 50 centavos, mais aluguel de espaços para lojas e lanchonetes nas estações e dentro das próprias barcas, bem como a venda de espaços de publicidade, pode-se perceber que o faturamento é realmente apetitoso. De transporte popular, com preços baixos, a barca tornou-se um amálgama pós-moderno de consumo, velocidade e limpeza estética supostamente civilizados com a barbárie expressa na superlotação, no desconforto e na insegurança. Vendedores de jornais não podem mais anunciar as notícias do dia, o que não deixava de ser uma forma de comunicação popular. Pregadores não podem mais fazer seus discursos. Ninguém está autorizado a cantar, batucar, fazer performances que marcavam a antes divertida viagem. Nem sequer a paisagem da Baía de Guanabara se desvenda nas janelas da nova gaiola.
Agora temos pães de queijo com mate, limpinhos e caros, jornaleiros mudos, moças de shortinho vendendo bebidas e um povo mudo indo para casa ou para o trabalho. Acho que esse ambiente ascético cumpre um papel ideológico também. Sob a aparente civilidade das novas barcas, é mais difícil interagir, trocar experiências e se revoltar contra os absurdos gerados pela associação de serviço de má qualidade, com altos preços, sustentados por uma generosa complacência do poder público.
Nos ônibus, a mesma coisa. Mais limpos e à vezes até com ar condicionado, levam motoristas transformados também em cobradores, cuja atenção no trânsito têm de ser dividida com a tarefa de receber dinheiro e dar troco corretamente. Em Niterói, uma das passagens proporcionalmente mais caras do Brasil, pois se cobra 2 reais por percursos muito curtos, algumas empresas transformaram seus ônibus em verdadeiras arapucas, com somente uma entrada de passageiros e janelas estreitas, que colocam os passageiros em risco em caso de acidente. Alguns ônibus da empresa Fortaleza, linha 53, motoristas-trocadores, têm uma roleta muito pequena e freqüentemente vejo pessoas entaladas, com dificuldades de transpô-las e, como os bancos e suportes de mãos ficam muito distantes, tropeçando quando o ônibus arranca. Estranhamente, os muitos fones de ouvido que vejo nos ônibus me parecem ter algo a ver com as poucas reclamações e expressões de indignação com essa situação.
Esse sistema de transporte público também ameaça o direito de ir e vir. O preço abusivo das passagens contribui de modo decisivo para a criação de guetos nas cidades, pois se locomover é algo cada vez mais dispendioso e difícil. São muitos os jovens da periferia do Rio de Janeiro que não conhecem o centro da sua cidade, que nunca circularam para além das imediações dos seus bairros, que são privados do direito de buscar trabalho, lazer e novos horizontes.
Desnaturalizar esse transporte desumanizado, questionar e protestar contra os administradores dessa nossa cotidiana vida de gado é fundamental para qualquer projeto político que se queira realmente popular e transformador.