......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



SINAIS DAS RUAS

20.05.2008
Sejamos realistas, peçamos o impossível

“É preciso tentar ser feliz, nem que
seja apenas para dar o exemplo.”
Jacques Prévert


Em 2008 comemoramos 40 anos do ano de 1968. Foi um ano de lutas e levantes em todo o mundo, uma nova primavera dos povos, com especificidades locais, mas também com muitos pontos comuns. Na Tchecoeslováquia, Alexander Dubcek liderava uma série de reformas com o objetivo de criar um socialismo com face humana, desestalinizando o país e dando novas esperanças para aqueles que não concordavam com a burocracia soviética, mas também não viam no capitalismo possibilidade de felicidade humana. Mesmo contando com forte apoio popular, a Primavera de Praga, como ficou conhecido esse movimento, foi interrompida com a invasão dos tanques do Pacto de Varsóvia em agosto, a mando da URSS.

No México, um movimento que reivindicava reformas democráticas e criticava o regime quase que de partido único do PRI (Partido Revolucionário Institucional), garantido com eleições fraudulentas, unia trabalhadores e estudantes. No auge das mobilizações, durante uma reunião na Praça das Três Culturas, em Tlatelolco, Cidade do México, forças militares abriram fogo contra a multidão, resultando em cerca de 300 mortos. Muitos corpos desaparecidos e um grande esforço do governo mexicano em ocultar a dimensão do massacre, o que acabou resultando no lema “2 de outubro não se esquece!”, pichado nos muros e estampado em panfletos distribuídos clandestinamente.

Na França, maio foi o revolucionário mês onde as demandas estudantis se uniram com greves de trabalhadores realizadas a revelia dos sindicatos pelegos e da direção do burocratizado PCF (Partido Comunista Francês). Estudantes, trabalhadores, intelectuais, artistas e diversos setores da sociedade francesa se congraçaram em torno de bandeiras anticapitalistas, denunciando a sociedade de consumo e a indústria cultural como alienantes e contrários à felicidade humana. Universidades ocupadas, barricadas nas ruas, imagens de Mao Tsé Tung, Che Guevara e Ho Chi Min, símbolos de uma esquerda antiestalinista, confrontos que duraram semanas e frases inesquecíveis. É proibido proibir. Sejamos realistas, peçamos o impossível. A luta continua. Abaixo a sociedade espetacular-mercantil. Revolução, eu te amo.

Após semanas de levante, a repressão e mesmo uma articulação para garantir um golpe de estado caso os revolucionários saíssem vitoriosos, bem como contradições internas ao próprio movimento acabaram por garantir o retorno à ordem, mesmo que com o atendimento de algumas importantes demandas dos trabalhadores e estudantes. Ainda não seria dessa vez que o mundo assistiria à vitória do impossível.

No Brasil, 1968 foi o ano das grandes mobilizações contra a ditadura militar, impulsionadas a princípio pelo assassinato do estudante Edson Luís no restaurante Calabouço pela polícia militar do estado da Guanabara. Era o mês de março e multidões foram ao enterro do jovem, numa época em que a sociedade brasileira ainda era capaz de se indignar e protestar contra a violência policial. A movimentação culminou, no Rio de Janeiro, com a Passeata dos Cem Mil exigindo o fim da ditadura militar. As greves operárias de Osasco e Contagem também demonstravam que o movimento operário havia sobrevivido, a despeito da dura repressão contra suas lideranças. Seguiu-se um endurecimento do regime militar, explicitado na edição do Ato Institucional no. 5 (AI-5) em dezembro.

Muitos outros eventos ocorreram por aqui e em outros lugares. Lutas políticas e enfrentamentos que ameaçaram o capitalismo e demonstraram publicamente sua capacidade de gerar infelicidade. Muitas das bandeiras de 1968, contra a agressão imperialista (naquele momento diretamente associada à invasão do Vietnã por tropas estadunidenses), contra a superexploração dos trabalhadores, contra a alienação cultivada pelos meios de comunicação e pela indústria cultural, contra as opressões raciais e de gênero, contra a depredação do meio ambiente são pertinentes aos nossos dias. Rigorosamente nenhuma dessas questões está resolvida no presente. Talvez por isso mesmo o grande esforço por parte da mídia gorda e do conservadorismo político em liquidar ou diminuir a herança de 1968.

Nicolas Sarkozy, presidente francês, assumidamente de direita, que se elegeu com um discurso anti-imigrantes, disse que se deveria “liquidar” a herança de 1968, seu relativismo moral e anarquia, nos seus termos. Daniel Cohn-Bendit, líder estudantil em 1968 e que fez toda sua carreira política em cima disso (hoje é do partido Verde alemão, aliás, hoje os verdes são abrigo de muitos arrependidos de 68 no mundo todo), publicou recentemente o livro Forget 1968 (Esqueça 1968), cujo título traz uma mensagem bem direta. Cohn-Bendit, que era chamado na época de Danny Le Rouge (Dani o vermelho), deve tudo o que tem hoje, material e simbolicamente, ao maio de 1968. No entanto, seu papel é de deslegitimar a atualidade histórica aquelas lutas, considerando-as parte de um mundo que já não existe mais.

Na recente cobertura da imprensa sobre o tema, prevalecem as vozes dos arrependidos, ou daqueles que, sob o prestigioso rótulo de historiadores, vão se esforçar em demonstrar como os protagonistas de 1968 eram jovens autoritários, inconseqüentes e aventureiros. Não se fala em revolução, em classe trabalhadora e muito menos em lutas anticapitalistas. O que ficou foi a revolução sexual, a mudança nos costumes, uma contracultura entendida de modo domesticado e tudo aquilo que o mercado pode absorver como estilos de vida e consumo.

Esvaziam-se de sentido as lutas coletivas que exigiam o impossível. Mais do que exigiam, construíam de fato uma alternativa que, se não foi vitoriosa naquele momento, serve como lição de esperança aos que não consideram que o mundo em que vivemos é bom. Os que se esforçam em liquidar a herança de 1968 sabem como é perigosa essa esperança, porque ela fala diretamente à nossa infelicidade cotidiana. Afinal, quantos de nós acordamos realmente felizes numa segunda-feira?

Ilustração: Nico
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> Adriana Facina é antropóloga, professora do Departamento de História da UFF, membro do Observatório da Indústria Cultural e autora dos livros Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).

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