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SINAIS DAS RUAS
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23.03.2008
Edson Luís: presente!
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Os que lutam
Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.
(Bertolt Brecht)
No dia 28 próximo relembraremos os 40 anos da morte do estudante Edson Luís, assassinado pela Polícia Militar do estado da Guanabara, a serviço da ditadura militar. Edson Luís era estudante secundarista de uma escola pública e provinha de uma família pobre,de imigrantes paraenses. Junto com seus companheiros, participava da organização de um protesto contra as más condições oferecidas pelo restaurante Calabouço, onde se alimentavam sobretudo os estudantes pobres habitantes da cidade do Rio de Janeiro.
De modo selvagem, segundo os jornais da época, a Polícia Militar invadiu o Calabouço e atirou nos jovens que ali se encontravam, matando Edson e ferindo várias pessoas. Segundo o Correio da Manhã de 29 de março de 1968:
Estudantes reuniram-se, ontem, no Calabouço, para protestar contra as precárias condições de higiene do seu restaurante. Protesto justo e correto. O Correio da Manhã, nesta mesma página, já condenou a inércia em que o Estado vem-se mantendo diante das reiteradas reivindicações estudantis. Apesar da legitimidade do protesto estudantil, a Polícia Militar decidiu intervir. E o fez à bala. Há um estudante morto, um outro em estado gravíssimo. Um porteiro do INPS, que passava perto do Calabouço, também tombou morto. Um cidadão que, na Rua General Justo, assistia, da janela de seu escritório, ao selvagem atentado, recebeu um tiro na boca. Este o saldo da noite de ontem. Não agiu a Polícia Militar como força pública. Agiu como bando de assassinos. Diante desta evidência cessa toda discussão sobre se os estudantes tinham ou não razão - e tinham. E cessam os debates porque fomos colocados ante uma cena de selvageria que só pela sua própria brutalidade se explica.
Atirando contra jovens desarmados, atirando a esmo, ensandecida pelo desejo de oferecer à cidade apenas mais um festival de sangue e morte, a Polícia Militar conseguiu coroar, com esse assassinato coletivo, a sua ação, inspirada na violência e só na violência. Barbárie e covardia foram a tônica bestial de sua ação, ontem. O ato de depredação do restaurante pelos policiais, após a fuzilaria e a chacina, é o atestado que a Polícia Militar passou a si própria, de que sua intervenção não obedeceu a outro propósito senão o de implantar o terror na Guanabara. (...)
Os companheiros e companheiras de Edson Luís levaram seu corpo para ser velado na Assembléia Legislativa, sob grande tensão, pois suspeitava-se que o cadáver poderia ser seqüestrado pelas forças repressivas para evitar as investigações. Foi o início de uma série de protestos que marcaram o ano de 1968. No enterro do estudante e nas manifestações que se seguiram, cartazes lembravam a todas as mães que aquele morto poderia ser seu filho, construindo a idéia de que aquele era um luto coletivo, um luto transformado em luta. Milhares de pessoas lotaram a Cinelândia e o centro da cidade.
Mesmo sob ameaças das forças da repressão, foi realizada a missa de sétimo dia na igreja da Candelária, reunindo centenas de pessoas. Dor e indignação tornados protesto. Com a igreja cercada pelos militares, os padres responsáveis pela missa saíram na frente da multidão, tentando impedir com seus corpos o massacre que se anunciava.
Greves, protestos e passeatas ocorreram durante o ano em todo o país. A mais famosa foi a passeata dos Cem Mil, que trouxe uma multidão para as ruas do Rio de Janeiro no mês de junho. Em consonância com o que acontecia no mundo na mesma época, aqui entre nós o protagonismo juvenil nesses atos chamava a atenção. Jovens que reivindicavam o direito de sonhar com um mundo melhor e lutar por ele. Muitos pagaram com suas vidas ou tiveram seus corpos e mentes torturados.
Hoje 1968 é lembrado na grande imprensa e na indústria cultural como um período de grandes mudanças culturais, conduzidas por jovens loucos e vanguardistas e de sonhos que hoje envelheceram, que não nos dizem mais respeito. O que ficou foi uma gama de conquistas individuais, como a maior liberdade sexual. Assim é a série Queridos Amigos, da TV Globo, por exemplo, na qual o personagem mais patético e caricatural é o que continua professando ideais de esquerda, interpretado por Matheus Nachtergale.
O mesmo tom apareceu numa reportagem da revista Época publicada no início do ano. Saem de cena as lutas coletivas, só revividas como farsa nas revoltas dos estudantes rebeldes sem causa de Duas Caras. Ainda no clima revival, o jornal O Globo aposta em Fernando Gabeira, um dos muitos arrependidos de 1968, como candidato a prefeito da cidade.
40 anos se passaram e muitos Edsons Luíses continuam a morrer nas favelas e periferias de todo o país, vitimados por um sistema social perverso e injusto, que condena a juventude pobre a morrer de forma violenta ou ao encarceramento em prisões que degradam os seres humanos. A memória, como sabemos, é disputada na luta de classes. O modo como escrevemos a história não diz respeito somente ao que aconteceu no passado, mas sobretudo ao presente e ao futuro que construiremos.
Portanto, aqueles que consideram que o mundo em que vivemos precisa de uma transformação radical são herdeiros daqueles que lutavam em 1968 contra todas as formas de opressão. Recuperar a atualidade de 1968, portanto, é retirar essa memória da esterilidade da leitura culturalista que a torna uma peça de museu e fazê-la viver como chama que alimenta e inspira os combates dos oprimidos de hoje.
Ilustração:
Nico
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Adriana Facina é antropóloga, professora do
Departamento de História da UFF, membro do Observatório
da Indústria Cultural e autora dos
livros Santos e canalhas: uma análise
antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de
Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura
e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).
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