......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



SINAIS DAS RUAS

09.03.2008
Mídia tipo Colômbia

É nós que tá neguinho
tipo bagdá...
tipo colombia tá ligado?!!
1 hora da manhã o bonde todo se apronta
Desce pelas vielas no estilo tipo colombia...
papum...tipo colombia
papum tipo colombia.....tipo.tipo... tipo... colombia...
(...)
Se liga no meu papo to de sacanagem o bonde dos metralha não quer ser celebridade
Não ker capa de revista nem tv nem jornal se vim tirando foto comedia passar mau..
Nosso bonde sem neurose,paz,justiça e liberdade........
Nós só que um malote pra ajudar nossa irmandade....
Muito atividade neguinho é nós que cria.
Nós só quer o dinheiro pra ajudar nossa família.
mando um papo reto neguinho é nós que tá....
Demorô meu mano.ham...
Deixa eu cantar.
Não sou marcio garcia
E nem fábio assunçao
Não kero ir pra globo e nem
Passar no faustão
o bonde e preparado neguinho so gargalhada
e o bonde da fazendinha tome dos irmao metralha...

(MC Frank, trecho da música “1 Hora da Manhã”)


O funk proibidão é um fenômeno de massas típico do Rio de Janeiro. Como o próprio nome diz, esse tipo de música não pode ser executado publicamente, não toca nas rádios e não aparece na televisão. No entanto, os proibidões são o grande atrativo musical dos bailes de comunidade, são baixados da internet ou consumidos na forma de CDs piratas por milhares de pessoas, principalmente jovens, de diversas classes sociais. A sua proibição é justificada, segundo os defensores da proibição, porque essas músicas fariam apologia ao crime, apoiando facções que dominam o tráfico varejista na cidade.

Porém, sob essa alegação, acabam sendo proibidos também os funks de protesto, bem como aqueles que nada mais fazem do que narrar a realidade da vida daqueles que moram nas favelas. Além disso, os proibidões fornecem munição para aqueles responsáveis pela segurança (?) pública que volta e meia afirmam nos jornais que vão proibir a realização dos bailes, atacando assim uma das únicas alternativas de lazer daqueles jovens que habitam as favelas e periferias cariocas, contribuindo para o aprofundamento do processo da criminalização dos pobres em curso na nossa sociedade.

Como de hábito, a grande imprensa tende a apoiar esse tipo de medida moralizante, como apóia a repressão brutal aos camelôs e aos trabalhadores informais que tentam se virar nas ruas da cidade, bem como a política de execuções sumárias que conferiu à polícia carioca o título de uma das maiores matadoras do mundo. No setor internacional, assistimos ainda a condenação moral dos guerrilheiros das FARC e dos militantes palestinos do Hamas como violentos e terroristas.

Na batalha da desinformação, não sabemos quem são essas pessoas, por que lutam, em que condições vivem. Todos iguais, todos perversos e todos querendo ser ditadores cruéis como Fidel ou Chávez. Até aí, nada diferente do habitual de uma mídia oligopolizada e caninamente defensora dos de cima como a nossa.

Porém, algo de novo me pareceu surgir nessa suposta cobertura sobre o massacre dos militantes das FARC que estavam em solo equatoriano. Um cheiro de sangue no ar. A morte de mais de duas dezenas de guerrilheiros enquanto dormiam, sem chance de rendição e nem de combate, vem sendo comemorada pela nossa mídia gorda. Mais lixo humano eliminado, ah como o mundo seria melhor sem essa gente! Vi Alexandre Garcia, aquele mesmo que fazia campanha desabrida para Fernando Collor de Mello, esbravejando, dizendo que se o presidente colombiano Alvaro Uribe tinha de pedir desculpas ao governo equatoriano por ter invadido seu território, este também devia desculpas por abrigar em seu solo narcoterroristas.

Descaradamente pró-Colômbia, a mídia brasileira abraça o projeto imperialista mais violento da América Latina. Desde o final do século passado, a Colômbia tem sido exemplo de submissão a um projeto de ocupação militarista, sob a desculpa da “guerra às drogas”, curiosamente conduzida por diversos atores sociais envolvidos até o pescoço com o tráfico internacional de drogas e armas. No pós 11 de setembro de 2001, essa intervenção ganhou nova legitimidade através da “guerra ao terror”, nova face de uma repressão anticomunista brutal numa era pós-Guerra Fria. Como resultado, a Colômbia é hoje um dos países que mais recebem “ajuda” militar estadunidense.

Com a ação, que foi condenada internacionalmente, Alvaro Uribe sepultou as chances de negociação pacífica com as FARC, pôs em risco a vida dos reféns, violou regras sobre confrontos armados que garantem o direito de rendição aos combatentes, e abriu um precedente perigoso de desrespeito às fronteiras dos países da América do Sul. Sob sua administração, os assassinatos políticos prosseguem rotina na vida política colombiana, o que faz com que gente como Jaime Caicedo, secretário-geral do Partido Comunista Colombiano e professor universitário, tenha de andar de carro blindado. Que exemplo de democracia! Ditadura mesmo é na Venezuela, onde a imprensa golpista funciona livremente, atacando um presidente eleito e referendado pelo povo, sem que ninguém seja preso ou assassinado por isso.

Na mídia tipo Colômbia, a apologia ao crime é dever de ofício, pois desde Marx, sabemos que muito sangue tem de correr para que o capitalismo possa existir. Cabe à mídia proibidona encontrar meios de justificar o injustificável, nem que seja travestindo de democrata um dos maiores criminosos da história de nosso continente, pois o sangue que escorre hoje das mãos de Alvaro Uribe viram moeda forte nos cofres de quem financia esse estado de coisas.

Proibidão por proibidão, fico com MC Frank, porque, mesmo em meio às contradições presentes na música e na sociedade, o artista vê o mesmo que aqueles que hoje lutam contra todas as formas de opressão constituídas e perpetuadas com a ajuda indispensável da grande mídia: definitivamente, a gente não se vê por ali.

Ilustração: Nico
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> Adriana Facina é antropóloga, professora do Departamento de História da UFF, membro do Observatório da Indústria Cultural e autora dos livros Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).

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