Confesso que já não é de agora que dezembro me chega como um mês... incômodo? Seria essa a palavra? Bizarro talvez? Melancólico? Sei lá... Engarrafamentos, ruas cheias, provas finais, mais trabalho, compras, compras, compras. Intensas ações repressivas para retirar camelôs das ruas, enquanto as lojas “legalizadas” poluem as vias com anúncios, reclames e sons que vêem de alto-falantes ou megafones. A publicidade vendendo um consumo feliz que na verdade é uma violência contra aqueles que estão impedidos de ingressar no maravilhoso mundo do mercado.
A miséria parece mais miserável quando divide as ruas com sacolas de compras infinitas e apressadas. Compre isso, compre aquilo, faltou o presente do fulano, e também o da cicrana. Sem esquecer do fulaninho, que é pequeno, mas já ganha presente como gente grande. Nossa, de quanta coisa precisamos! Precisamos?
No dia da festa, a troca de presentes e um excesso quase vergonhoso de comida me dão um pouco de nojo. Vejo as crianças ganhando mais brinquedos do que são capazes de desejar. Profusão de papéis brilhosos que às vezes até assustam os mais novinhos. Lembro de quando eu era pequena e do sabor que tinha ganhar um brinquedo tão esperado, que era único e se destacava em meio a roupas e outras coisas que os adultos consideravam úteis, mas que nos causavam, no mínimo, indiferença. Presenteavam-se as crianças com roupas para ajudar os seus pais na difícil tarefa de criá-las com dignidade. Era um ato de solidariedade familiar que não entendíamos então e que custava a popularidade dos tios que o exerciam. Hoje, na minha família, e na sociedade brasileira como um todo, os padrões de consumo são outros. Meus primos e sobrinhos ganham em um só Natal mais brinquedos do que os da minha geração tiveram por toda a infância.
Aumentou o consumo e esvaziou-se de sentido a mística. Nada de reunião à mesa para saborear quitutes cuidadosamente preparados. Ao invés disso, um banquete produzido cansativamente e o cada um por si na hora de se servir. Nada do momento ansiosamente aguardado da troca de presentes, um por um, sempre antecedido de palavras carinhosas, cheias de amor e votos de esperança e felicidade. Apenas a entrega burocrática de mercadorias descartáveis, sem cheiro, sem gosto, sem sabor de infância. Nada de discursos ou rezas. Nenhum congraçamento, nenhum compartilhar, seja de alegrias ou das tristezas que se fazem sempre presentes nessa época do ano.
O dia do Natal mesmo, além do delicioso café-da-manhã feito com as sobras da ceia, era momento de brincar com os presentes ganhos, dividir ou mesmo brigar por eles com os primos e irmãos. Agora, os brinquedos ficam espalhados pelos cantos, já causam tédio e desinteresse. Os mais valiosos foram guardados pelos pais para evitar os danos que o brincar junto pode causar. Adorável lição natalina sobre a importância de garantir a propriedade privada.
Quando lembro do poema do Vinícius me dá desespero, um nó na garganta, vontade de chorar. Esquecemos para que fomos feitos. De verdade, esquecemos. Para que servem nossos braços, nossas mãos, nossos dedos? Como fazer caber poesia nessa vida? Por quais milagres esperaremos?
Decidi firmemente que no próximo Natal não comprarei um presente sequer. Minha delicadeza não se mede em mercadorias. Terei carinhos, abraços, palavras, solidariedade para compartilhar. Inventarei uma brincadeira bem legal para reunir todas as crianças da família. Contarei histórias. Lerei poesias. Minha humanidade precisa disso.