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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



27.02.2008
O CAMPEÃO QUE INTERESSA

Por Leon Corrêa (*)

O futebol não é o esporte mais popular do mundo à toa. Ele tem uma característica simples, mas que nenhum outro esporte tem: as regras. São 17, ao todo. Mas que de nada valem, diante da décima-oitava: a interpretação de quem as aplica. No vôlei, bola fora é bola fora. No atletismo, pisou na linha, pisou na linha. Na natação, queimou a largada, queimou a largada.

No futebol, não. Falta pode ser pênalti, ou pode até mesmo nem ser falta. Escanteio pode virar tiro da meta. A bola que entra pode não ser gol, e a que não entra pode. Uma reclamação pode render uma expulsão, enquanto uma falta violenta pode nem ser marcada. Dito isso, vale a pena refletir um pouco sobre a final da Taça Guanabara, disputada no último domingo no Maracanã por Flamengo e Botafogo.

Permito-me discordar de alguns pontos do texto do Marcelo, que apesar de conter imagens belíssimas, infelizmente não condiz muito com a realidade de quem esteve presente ao estádio.

Para começar, ressalto que não me incluo entre aqueles que acreditam em Deus, ou algo parecido, muito menos que ele seja Rubro-Negro, e menos ainda que a estátua que adorna o Morro do Corcovado o seja.

Antes de chegar ao local do jogo, os mesmos problemas de organização que se repetem a cada final: congestionamento quilométrico, provocado por carros particulares mal-estacionados em diversas ruas, poucos ônibus, todos superlotados, metrôs e trens igualmente superlotados, cambistas agindo livremente, pequenos bandos de "torcedores" se enfrentando, literalmente, em diversos pontos da cidade.

Dentro do estádio, mais problemas comuns às grandes decisões, bicões e penetras de todos os tipos na cadeira especial, inúmeras roletas quebradas nas entradas das cadeiras comuns e arquibancadas, causando mais tumulto e invasões de quem tinha ingresso ou não.

Finalmente chegando às cadeiras, tive que assitir à partida em pé, já que todas as pessoas em volta também o faziam. E a chuva não se resumiu a alguns pingos, no segundo tempo as nuvens negras se converteram numa curta porém enorme tromba d'água.

Quem viu a partida pela televisão que transmite, organiza e controla o campeonato, pode até ter a mesma impressão que o Marcelo teve, mas a realidade foi bem diferente. Do primeiro minuto até o confuso lance que originou o empate do Flamengo, pouco se ouvia da torcida do Rubro-Negra, cerca de 55 mil pessoas.

Os alvinegros, em menor número, cerca de 30 mil, ao contrário acreditavam no time e cantaram sem parar por mais de uma hora. Eles só esmoreceram, perplexos diante do que viam, a partir do gol de pênalti. A reação é compreensível, quando se vê de que pouco adianta ter o melhor time, que na verdade outros fatores vão prevalecer.

Muito já se falou sobre a partida e os erros do árbitro. Então vou me ater apenas ao momento-chave da partida, que acontece aos 12 minutos do segundo tempo.

A falta que dá origem ao pênalti não aconteceu. E, em seguida à cobrança desta falta, o zagueiro argentino Ferrero realmente puxa a camisa de Fábio Luciano. Mas o que o ângulo escolhido pelo diretor de tv não deixa ver é que este também empurra Ferrero. E lances como esse acontecem inúmeras vezes a cada partida, sem que seja marcada a penalidade.

Reparem ainda que o árbitro Marcelo Henrique só apita o pênalti depois do lance, atendendo aos gritos dos jogadores do Flamengo.

Choro de perdedor? Inconformismo com a derrota? Pode chamar do que quiser.

O fato é que depois deste momento o time do Botafogo se perdeu em campo, devido à óbvia instabilidade emocional causada pela confusão que se instalou em campo. Além da expulsão inexplicável do meia Zé Carlos, um dos melhores do Botafogo, e que na verdade apenas segurou o atacante Souza para evitar que ele batesse mais no goleiro Castillo. A expulsão de Souza, um dos piores do Flamengo, se justifica pela agressão ao goleiro uruguaio.

No últimos minutos, chama a atenção, além do bonito gol de Diego Tardelli, o fato de o árbitro ter dado um acréscimo de apenas cinco minutos. Somente naquele lance do pênalti a partida ficou parada por este tempo. Sem contar as substituições, os atendimentos médicos e a outra expulsão, do meia Lúcio Flávio, que levou o segundo cartão amarelo e foi expulso infantilmente, por uma falta comum no meio campo.

Cabe a pergunta: Será que se o jogo estivesse 1 a 1, ou se o Flamengo estivesse perdendo, o juiz teria acrescido apenas 5 minutos aos 45 da regra? Ou ele teria esperado até que o Rubro-Negro conseguisse o resultado desejado?

Para encerrar, e poupar as vistas do nosso amigo leitor, já cansadas, não acho que a choradeira dos jogadores em campo e no vestiário seja de todo um mau negócio. Pelo contrário, se eles souberem trabalhar isso como motivação para os próximos jogos, o Botafogo tem tudo para se reerguer e ter um ano digno.

O Flamengo conseguiu o título da Taça GB e a vaga na final, já que evidentemente não interessa que ele vença os dois turnos, o que causaria grande prejuízo à Vênus Platinada. Vamos aguardar para ver se esses erros, que já tiraram o título estadual do Botafogo no ano passado vão se repetir, ou se o adversário, seja ele quem for, poderá enfrentá-lo em igualdade de condições.

(*) Leon Corrêa é jornalista, Alvinegro e repórter do Diário Lance!


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