O domingo começou chuvoso no Rio de Janeiro. Lá de cima o Cristo olhava o chão molhado e conversava de perto com as nuvens cinzas que despontavam lá em cima. Talvez perguntasse, baixinho, quanta água derramariam sobre o Maracanã logo mais. Sim, porque se nesse dia toda a cidade fala sobre a final, por que não o Cristo, que é tão flamenguista quanto Deus é brasileiro?
Não veio o dilúvio anunciado, mas uns pingos que logo se transformaram em chuva fina já nos primeiros minutos da partida. E foi nesse ritmo que a vibrante torcida botafoguense foi recompensada. Wellington Paulista tinha tudo para ser o herói do jogo. Foi um valente. Seu gol, por exemplo. Sozinho, passou por três adversários, aos trancos e barrancos, até chutar, da entrada da área. A bola passou, caprichosa, debaixo da perna do zagueiro e venceu o goleiro Bruno. 1 x 0 Botafogo, para delírio da Fúria.
Mas não se passaram cinco segundos após o gol do Botafogo e a torcida do Flamengo voltou a cantar a plenos pulmões: “Oh, meu mengão. Eu gosto de você. Quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro. Cante comigo, mengão: acima de tudo rubro-negro”. Cantar não. Gritar. Um grito que abafou a torcida adversária, o que não seria nenhum espanto devido à conhecida vantagem numérica que os flamenguistas impõem a cada jogo. A questão é que o Flamengo tinha acabado de levar um gol! Mas sua torcida demonstrou uma espécie de confiança cega na vitória misturada com esse amor que não é explicável, mas compreensível para qualquer um que pise no Maracanã numa final de campeonato.
Esse domingo, 24 de fevereiro, não foi exceção. Estádio lotado, nada menos que 85 mil pessoas testemunharam uma das partidas mais emocionantes da história dos campeonatos cariocas. Após o primeiro gol, o jogo ficou aberto. Era lá e cá. Qualquer resultado poderia ter acontecido. Aliás, qualquer resultado num jogo normal. Só que este não foi um jogo normal por dois motivos: um, tratava-se de uma final de campeonato e, dois, havia a torcida do Flamengo.
Não deve ser nada fácil enfrentar uma multidão como essa. Uma multidão que agita bandeiras do Zico e outros ídolos do clube, mas também agita a imagem de Che Guevara, o mapa do Brasil e a bandeira do 26 de Julio, com fundo vermelho e negro a emoldurar a data em que foi tomado o Quartel de Moncada, em Cuba, ponto chave da Revolução. Uma multidão que exibe uma faixa de luto pela menina Ágata, morta aos 11 anos, “covardemente assassinada” de acordo com seus dizeres. Nenhuma dessas bandeiras e cartazes são vistos na mídia da direita, que hoje controla os meios de comunicação de massa no Brasil.
Uma multidão que não pára de cantar e incentivar os jogadores, um a um, durante os 90 minutos e mais os acréscimos. Imagine você, caro leitor, querida leitora, ouvir dessa multidão, a plenos pulmões: “Tu és... Time de tradição. Raça, amor e paixão. Oh, meu mengo... Eu sempre te amarei, onde estiver estarei. Oh, meu mengo”. Não há como ficar impassível. Não há como! Os versos atravessam seu corpo e você sente cada palavra estufar-lhe o peito. Difícil o torcedor não verter lágrimas. Impossível o jogador não dar seu sangue pela vitória.
E quando o time atacava o Botafogo, já no segundo tempo, um lançamento encontraria o zagueiro Fábio Luciano. Mas o gigante foi impedido de saltar em direção à bola, sua camisa quase foi arrancada pelo defensor e o juiz marcou pênalti. O mesmo juiz que havia economizado quatro cartões amarelos para o Botafogo e, numa falta com a mesma gravidade, havia punido um jogador do Flamengo. E os botafoguenses choraram e assumiram a posição de vítima, o que é uma pena e péssimo exemplo para sua torcida. Primeiro porque não corresponde à realidade e, segundo, porque ninguém escuta a voz da vítima.
Ibson cobrou e empatou. Flamengo 1 x 1 Botafogo. A chuva, que era fininha, caiu pesada. Foi como um aviso. Era como se se materializasse a energia da torcida do Flamengo, que prometia um dilúvio revolucionário. Na seqüência, confusão generalizada. Souza tenta pegar a bola para reiniciar o jogo, mas o goleiro do Botafogo impede. Ele insiste e consegue tomar-lhe a bola, mas é golpeado covardemente, por trás, por Zé Carlos. Os dois são expulsos e a partida recomeça.