
29.07.2008
MEU REINO POR UM CANUDO
Por Marcos Fabrício Lopes da Silva (*) - contato@fazendomedia.com
O sociólogo Gilberto Freyre, autor do clássico Casa-grande & senzala, nos deixou várias lições a respeito das "normas" que regem o modus vivendi brasileiro. Muitos se lembram da sua famosa (e contestada) tese da democracia racial. Mas, analisando o conjunto da obra deste pensador, considero que há ensinamentos mais contundentes. Citaria, por exemplo, a importância que Freyre conferiu à publicidade, ao criar o termo "anunciologia" para estudá-la.
Segundo ele, o conteúdo expresso nos anúncios de jornais do século 19 demonstra as estratégias simbólicas de manutenção da ordem escravocrata, sustentada pelo direito de propriedade. Em suas investigações, Freyre elevou a publicidade à categoria de documento histórico, mostrando que ela não fica nada a dever, enquanto testemunha de uma época, às fontes tradicionais de pesquisa, como livros, manuscritos e registros cartoriais.
Essa perspectiva de Freyre deve ser levada em
consideração também nos dias de hoje,
considerando os altos investimentos realizados pelas organizações
em publicidade. Tudo em nome da visibilidade e do lucro. Para
alcançar esses dois objetivos, nada melhor do que uma técnica
de venda em escala de massa, baseada em artifícios de
persuasão e estratégias de convencimento, que visa a
conquistar a atenção do consumidor e a sua ação
de compra. O anunciante, por meio da publicidade, oferece uma isca
apetitosa, cheia de atrativos.
Essa "isca" é a marca, o produto,
o serviço que, ao prometer saciar a fome do público-alvo,
busca fisgá-lo mais pela emoção do que pela
razão. A arte dessa "pescaria simbólica"
consiste em seduzir o consumidor pelo encanto da melhor "isca",
ou seja, aquela que, dentre as várias concorrentes, promete a
saída mais fácil para a resolução do
problema do cliente. Tudo em nome do seu bem-estar e conforto.
Felicidade é a palavra de ordem.
Prática e teoria
Mas há um sorriso amarelo por trás
do "sorriso colgate". E devemos escancará-lo para
melhor diagnosticar o problema. Caminhando pelas ruas de Belo
Horizonte, fui assaltado, em plena luz do dia, por um outdoor de instituição privada de ensino superior que estampava
o seguinte slogan: "O mercado aprova os nossos alunos. Os alunos
aprovam o nosso ensino". Logo perguntei: e o professor (sequer
ele é mencionado no anúncio)? Qual é o papel do
educador nesse jogo?
A meu ver, o professor deve atuar no papel de
"estraga-prazeres" desse sistema, que transformou a
educação em um produto, em um negócio, passando
de direito universal garantido pelo Estado a prestação
de serviço gerenciada pelos interesses particulares dos donos
das capitanias educacionais.
Sistema este que transformou os alunos
em clientes, o professor em "unidade de custo ambulante" e
que faz do estudante uma extensão do mercado, e não o
contrário. Sistema este que transformou os encontros
pedagógicos em desencontros demagógicos e que inverteu
um processo importante ao promover em demasia a carreira profissional
em detrimento do papel fundamental do estudante: o de pensador.
Sistema este que enaltece a prática e desmerece a teoria,
sendo que a prática é a filha, ora obediente, ora
rebelde, da teoria. A prática aponta para a realização.
Mas para que exista a realização é preciso dar
vazão à abstração que a gerou.
Cidadãos e consumidores
Nessas
tenebrosas transações, o diploma deixou de ser a
conseqüência de um processo singular de aprendizado.
Passou a ser a causa de um investimento feito em busca de um retorno
imediato, garantido e sem muito esforço, de preferência.
De certificado de conhecimento, o diploma passou à categoria
de comprovante de renda.
É muito perigoso e reducionista tratar o
estudante como cliente. Reza a cartilha comercial que o cliente
sempre tem razão. Acontece que na educação a
conduta é outra: deve prevalecer o debate de idéias e
de ações entre os agentes envolvidos no processo, não
havendo, portanto, "o dono da verdade".
Nesse curto-circuito da educação
como negócio, as aulas vêm se transformando em
espetáculo, no qual o professor deve se comportar como um
showman, isto é, o "boa-praça" que
recebe seus alunos com piadas e tapinhas nas costas. Enquanto isso, a
turma ri à beça, sem saber na verdade quem é o
verdadeiro palhaço desse circo. Ou fingindo não saber.
"Eu finjo que ensino, você finge que aprende", eis o
pacto da mediocridade roubando a cena.
Nesse caso, o professor deixa de ser um provocador
por excelência para atuar apenas como um "facilitador".
O estudante, por seu turno, torna-se um receptor passivo da
aprendizagem, em vez de ser co-responsável pelo conhecimento
produzido e discutido em sala de aula. Nesse reino desencantado, vale
mesmo tudo pelo tão cobiçado canudo. É o que
oferta a instituição privada de ensino superior,
anunciante daquele desastrado outdoor.
Marcado por uma faceta excessivamente operacional,
que deixa a base humanista em segundo plano, esse estilo de fazer
ensino superior forma uma tropa de elite de cidadãos
imperfeitos e consumidores mais-que-perfeitos.
(*) Marcos Fabrício Lopes da Silva é jornalista e professor.