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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



16.03.2008
O DESAFIO DA INCLUSÃO: A DIFERENÇA ENTRE ESCUTAR E OUVIR

Por Saene Santos (*)

Para uma criança aprender um idioma é necessário estar em contato constante e interativo com usuários desse idioma. Com a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) não é diferente: quando exposta ao contato com pessoas que a utilizam, naturalmente a criança adquire essa língua.

Criei uma expectativa positiva com a oportunidade de estar em contato com um grande grupo de alunos surdos em uma escola pública da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Como estagiária na Educação Infantil comecei a vivenciar a comunicação por uso de LIBRAS e percebi que era algo fascinante - pelo menos teoricamente. Mas como era de se esperar, o ensino público causou-me decepções. Notei que na maior parte do tempo os professores e os outros funcionários da escola usavam a língua oral para se comunicar em todos os lugares, desde a sala de aula até os corredores e demais dependências.

A frase que as inspetoras mais sabiam sinalizar - e como a usavam! - era "não pode!", empregada sempre que os alunos se envolviam em suas comuns peraltices de criança, correndo pelas rampas e pelo pátio na hora do recreio e da saída. Fora isso, era raríssimo sinalizarem algo. Como é que essas crianças surdas aprenderão o idioma se não estão observando outros utilizarem? Onde entra o bilingüismo? Como irão se desenvolver plenamente? Realmente o descaso traz grandes prejuízos.

No sítio do renomado Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES / http://www.ines.org.br) há um relato de um deficiente auditivo que em toda a sua vida escolar apresentou grandes dificuldades de atenção por não conseguir ouvir bem seus professores durante as aulas. Mesmo assim, por mérito próprio, conseguiu se formar na faculdade. Já estava trabalhando como professor quando seu diretor solicitou um exame médico específico e então foi diagnosticada a perda acentuada de audição, o que o levou a usar aparelho auditivo. Esse homem lamenta o quanto perdeu em conhecimento durante toda a sua vida escolar, pelo fato seus parentes e professores não terem notado sua deficiência antes.

Uma das propostas dessa escola em que estagiei é proporcionar um "ambiente inclusivo", por isso há turmas com alunos ouvintes no mesmo turno, só que em salas separadas. O convívio entre ouvintes e surdos não é estimulado pela equipe escolar. Perguntei a alguns alunos ouvintes se tinham coleguinhas surdos e eles responderam: "O que é um surdo?", "aqui na escola já vi uns mudinhos... ", ou então: "Ah tia, tem uns malucos que não sabem falar, mas ficam gritando e eu não gosto deles". Esses comentários muito comuns exibem a falta de integração na comunidade escolar e não deixam de ser um retrato do cotidiano extra-escolar.

Na hora do recreio é visível a separação entre ouvintes e surdos, que formam grupos separados para brincar. Os ouvintes têm pouco ou nenhum interesse em se aproximar dos surdos e por vezes tem até medo deles. Isso acontece porque os surdos não têm a percepção do volume de sua voz e ao tentarem se comunicar oralizando palavras, às vezes emitem sons muito altos, assustando os interlocutores. Afinal, ser surdo não significa ser também mudo. As cordas vocais muitas vezes são perfeitas, mas como não ouvem, dificilmente falam.

Na própria família os surdos encontram resistência e preconceito quanto ao uso da Língua Brasileira de Sinais. Observei a avó de uma das alunas surdas conversando ou tentando conversar com ela sem usar gestos e resolvi depois me aproximar dessa avó para saber porque não usa LIBRAS para se comunicar com a sua neta. Ela disse: "Mas eu sou normal, eu falo a língua que todo mundo fala e se ela quiser, ela é que precisa aprender a falar (oralizar), porque ela é que vive em um mundo de ouvintes e não eu num mundo de surdos!".

Tarefas que para ouvintes são simples, como pedir alguma informação na recepção da maioria dos estabelecimentos comerciais, podem ser um desafio para alguém surdo. Por que isso acontece? Segundo Carlos Skiliar, "é comum definir a comunidade surda como uma minoria lingüística, baseando-se no fato de que a língua brasileira de sinais é utilizada por um grupo restrito de usuários" (A surdez, um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Ed. Mediação, 2001. p.22). Sendo assim, ainda é raro que funcionários de vários estabelecimentos que estão em contato direto com o público tenham também domínio de LIBRAS, e o que é mais interessante, em muitas escolas (claro que há exceções) opta-se por estudar como segunda língua o inglês ou o espanhol, mas a Língua Brasileira de Sinais não aparece nos currículos regulares, mesmo as que tenham surdos estudando com ouvintes...

Será uma utopia crer que um dia (não muito distante) essa situação irá mudar? Onde está a intervenção efetiva da escola com seu papel de formar cidadãos dignos e participativos? É ainda muito difícil observar a real integração de surdos no ensino público com o compromisso de socializar ou estreitar o relacionamento surdo-ouvinte. Por que essa relutância? Há escolas em que alunos surdos no Ensino Fundamental estudam em salas de ensino regular com alunos ouvintes, tendo um intérprete durante as aulas - mas é só! Não há preocupação em mobilizar toda a comunidade escolar (diretores, coordenadores, alunos e professores ouvintes e demais funcionários) para aprender esse idioma. Nós mesmos fazemos uso de gestos naturalmente ao conversarmos e essa gesticulação no nosso cotidiano faz parte do vocabulário da LIBRAS, apesar de não notarmos. Mesmo sendo aceitos na escola regular com a proposta de estarem incluídos como grupo, os surdos ainda estão excluídos dentro da escola.

Infelizmente ainda estamos muito longe desse ideal, na medida em que parentes de surdos, diretores e professores preferem aderir ao ouvintismo e insistentemente oralizar os surdos, privando-os do  direito que têm de viver e participar das atividades usando o seu idioma característico. Quem sabe acabam se dando conta de que LIBRAS não é uma língua estrangeira, que os surdos não são turistas de passagem pela escola e têm sim o direito de estudar num ambiente em que todos são responsáveis direta ou indiretamente por sua educação, ao invés de continuar com as atuais práticas ouvintistas excludentes.

Lembra daquela aula em que você desejou pôr palitinhos nas pálpebras para manter-se acordado de tão interessante e estimulante que era o assunto? Embora você estivesse ali presente ouvindo as palavras de seu professor, provavelmente sua mente e seus pensamentos estavam em outro lugar. Mesmo ouvindo, você não escutou ou não deu atenção ao que estava se passando ali. O que quero evidenciar é que nem sempre estamos realmente atentos enquanto ouvimos algo. Escutar é mais que apenas ouvir, é dar detida atenção, aplicar o ouvido com atenção, atender aos conselhos, prestar atenção para ouvir alguma coisa, além de aplicar o sentido da audição. Será que alguém mais está escutando o apelo constante da comunidade surda? Ou continuamos ouvindo?

(*) Saene Santos é estudante de Pedagogia.


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