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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



18.12.2008
60 ANOS DA DECLARAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS COM PROTESTOS NAS RUAS

Por Eduardo Sá, da redação. Fotos: Ratao Diniz/Imagens do Povo

No dia em que a Declaração dos Direitos Humanos completou 60 anos o centro do Rio de Janeiro foi palco de protestos, ao invés de comemorações. Familiares de vítimas, entidades defensoras dos direitos humanos, militantes e movimentos sociais, moradores de comunidades, entre outros solidários ao tema, se encontraram em frente ao Palácio da Justiça de onde se dirigiram para a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro – Alerj.

Crianças transmitindo suas mensagens em questionamento aos direitos humanos. Grupo Aiacom (Armazém de idéias e ações comunitárias), uma ONG no Engenho Novo. Foto: Ratão Diniz/Imagens do Povo
Crianças transmitindo suas mensagens em questionamento aos direitos humanos. Grupo Aiacom (Armazém de idéias e ações comunitárias), uma ONG no Engenho Novo. Foto: Ratao Diniz/Imagens do Povo

Nesse momento, trabalhadores da SAMU (Serviço de Trabalhadores Móvel de Urgência) marchavam na Avenida Rio Branco por causa das recentes demissões e pela não militarização do serviço, mediante a substituição por bombeiros.

Num cenário arranjado, com cartazes, cruzes, velas, pinturas feitas por crianças em faixas colocadas ao chão e um jovem fantasiado representando a morte, fizeram um ato na porta da Alerj. Na escada da Assembléia, uma faixa sintetizando o espírito da manifestação, “extermínio ontem, hoje e amanhã – 60 anos da declaração dos Direitos Humanos: eles não cumpriram”.

Primeiro o microfone ficou à disposição para quem quisesse se manifestar, democraticamente, e muitos protestos foram feitos em denúncia às mortes ocorridas na cidade nos últimos anos; estima-se em torno de 1.400 ano passado, morre polícia, bandido, quem não tem nada a ver e assim sucessivamente.

O jovem Fabrício Bento simulando uma fuga de policiais em meio a outras crianças mortas numa suposta comunidade. Foto: Ratão Diniz/Imagens do Povo
O jovem Fabrício Bento simulando uma fuga de policiais em meio a outras crianças mortas numa suposta comunidade. Foto: Ratao Diniz/Imagens do Povo

Em seguida, uma encenação com crianças do Grupo Aiacon (Armazém de idéias e ações comunitárias), uma ONG composta por 450 crianças no Engenho Novo, representando a realidade dos jovens nas ditas “áreas de risco da cidade”. O grupo, dentre outras finalidades, trabalha pela promoção ética dos negros na sociedade e atuaram esbanjando poesia em mensagens como: “educar nossos meninos que o país tem solução”, “fome que come gente, no passado e no presente”, com direito a trechos no ritmo do funk tão carioca, e muitas outras.

Fabrício Bento, de 12 anos, um dos atores da companhia, ao ser questionado sobre qual a importância da apresentação que eles estavam fazendo, deu seu recado: “É para as pessoas ficarem ligadas com o que está acontecendo a essas crianças que estão sendo violentadas e para os nossos governantes tomarem alguma atitude”.

Logo após, mais uma rodada de protestos, quando divulgaram a Marcha Mundial pela Não-Violência que sairá da Nova Zelândia passando por diversos países até chegar à Argentina. Nesse momento a representante do Museu da Memória também ressaltou: “lembrar é reagir, esquecer é permitir”.

Escola para nossos jovens terem um futuro melhor foi o principal pedido na mobilização. Foto: Ratão Diniz/Imagens do Povo
Escola para nossos jovens terem um futuro melhor foi o principal pedido na mobilização. Foto: Ratao Diniz/Imagens do Povo

O menino morto nessa semana no Complexo da Maré foi homenageado e em comunhão, foi feita uma reza. O grupo rumou à Praça Mahatma Ganhdi aos gritos de “não,não, não, não queremos caveirão! Queremos é dinheiro pra saúde e educação!”. Apesar de lotada a região, não houve nenhuma adesão, sintoma da indiferença e naturalização dessas mortes que ocorrem não só no Rio mas Brasil afora.

Crianças e moradores das comunidades no Rio de Janeiro reféns da injustiça. Foto: Ratão Diniz/Imagens do Povo
Crianças e moradores das comunidades no Rio de Janeiro reféns da injustiça. Foto: Ratao Diniz/Imagens do Povo

No meio do caminho, na Cinelândia, outro protesto, uma árvore negra estampando fotos de vítimas em seus frutos e uma mãe ao microfone. Era a mãe do jovem que foi assassinado recentemente numa boate do Rio de Janeiro, Daniela Duque, falando em público. Em suas críticas disse que "nós somos o combustível desse país", "assassinos são tratados como heróis" e "só com a união de todos conseguiremos alguma mudança, pois não há diferenças de religião, poder ou classes".

A mídia estava concentrada no local e a entrevistou, mas os moradores das comunidades e militantes, apesar de em maior número e na defesa de uma causa sistematicamente reproduzida, ficaram ao segundo plano.

Democracia racial, só das favelas para fora. Foto: Ratão Diniz/Imagens do Povo
Democracia racial, só das favelas para fora. Foto: Ratao Diniz/Imagens do Povo

O grupo seguiu para a Praça Mahatma Ganhdi onde os participantes ficaram de vigília durante a tarde para a concentração das entidades.

Como foi dito em uma das falas dos protestos, “nós só queremos que as pessoas não excluam negros, crianças, idosos e mulheres” e foi essa, dentre outras mensagens, que os manifestantes tentaram transmitir num dia que, infelizmente, não pode ser lembrado com muita comemoração.


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