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05.12.2008
IGNACIO RAMONET CONCEDE ENTREVISTA EXCLUSIVA COM PARTICIPAÇÃO DO FAZENDO MEDIA
Por Eduardo Sá, da redação
De passagem pelo Rio de Janeiro no 14º Curso Anual do Núcleo Piratininga de Comunicação – Mídia dos trabalhadores e política, o diretor do jornal francês Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, concedeu entrevista exclusiva para o programa Brasil Nação da TV Educativa do Paraná com participação do Fazendo Media.
O programa é apresentado pelo jornalista Beto Almeida e, além do convidado especial, contou com a presença de Maria Inês Nassif do jornal Valor Econômico e Marcelo Salles do Fazendo Media. As perguntas também foram abertas para alguns sindicalistas, jornalistas e estudantes de jornalismo que estavam participando do curso.
De maneira geral, o entrevistado vê os meios de comunicação como um “instrumento ideológico da globalização” e os comparou ao discurso ideológico da Igreja Católica quando justificava suas vítimas nas conquistas das Américas. “É uma forma política da conquista neoliberal em escala planetária, os grandes meios estão comprados para afirmar que não há outro modelo que não o neoliberalismo”, opinou.
Ignacio Ramonet abordou diversos temas, indo desde a crise econômica até experiências da mídia alternativa em outros lugares do mundo. No tocante às questões econômicas, ele destacou que os jornalistas dessa área não expõem em suas narrativas as questões centrais. Isso, segundo Ramonet, confunde as pessoas em benefício das classes dominantes, às quais as grandes mídias estão “umbilicalmente relacionadas”.
“A informação econômica é grosseira, só se dá em periódicos das elites”, por isso as pessoas não conseguem contextualizar os acontecimentos e seus protestos se tornam inconsistentes.
De acordo com o jornalista, essa crise traz consigo uma oportunidade, apesar de seus problemas e sofrimentos que, por conseqüência das injustiças, pode provocar uma grande cólera social em favor de um novo arranjo econômico. Arranjo este que deveria suprimir os paraísos fiscais, as especulações, integrar os países do sul, discutir um novo FMI e favorecer as classes modestas que são exploradas por esse modelo.
O coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação, Vito Giannotti, perguntou da “platéia” como fica a esquerda nessa história já que as crises trazem revoluções conforme o entrevistado afirmou. Ramonet acredita que a esquerda está desmantelada intelectualmente, teoricamente não há planos, não tem produzido, deixou de pensar há quinze anos. Ele afirmou que são necessárias formulações para os tempos de hoje, condizentes com as questões contemporâneas ao invés de reproduzir fórmulas prontas; apontou os pensamentos de Che Guevara como os mais modernos até então, por exemplo.
Marcelo Salles, um dos idealizadores do jornal Fazendo Media, lhe apresentou dados sobre o cenário dramático no Rio de Janeiro em relação às comunidades de baixa renda e indagou se em outros lugares do mundo a imprensa também legitima os pobres como inimigos e não questiona esse tipo de atuação. Ignácio Ramonet respondeu que “não com as mesmas estatísticas que são impressionantes”, mas observou que em algumas regiões da Europa os meios são mais compreensivos com as ações do governo porque as classes pobres não são tão expressivas nem tão agressivas como eram antes; deixou evidente a gritante desigualdade em nosso país.
Marcelo também destacou a omissão e/ou distorção dos meios de comunicação em relação a líderes como Fidel Castro, entrevistado por Ignacio Ramonet. A entrevista, uma longa conversação entre Fidel e Ramonet, foi publicada recentemente. O diretor do Le Monde Diplomatique confirmou essa postura da mídia e que foi justamente essa a sua intenção na obra, conhecer e apresentar Fidel. Disse estar trabalhando numa publicação semelhante com Hugo Chávez, pois acredita que através das entrevistas o público pode se aproximar da personalidade desses mitos que são mal vistos até pela esquerda por falta de informação.
Um sindicalista intrigado com essa nova ferramenta que é a Internet perguntou sobre o controle e liberdade que ela pode oferecer às pessoas e o jornalista discorreu sobre a estrutura desse universo virtual. Segundo ele, “é uma grande liberdade e uma grande dependência”, pois ao mesmo tempo que ela atinge todo o mundo em tempo real, é regida por uma sociedade privada que depende dos secretários do comércio dos Estados Unidos. Tudo está vigiado em poucos pólos e a lei patriota autoriza a apreensão de qualquer PC conectado.
Manter a mídia alternativa
Uma das editoras do Fazendo Media, Raquel Junia, comentou a menção do entrevistado na palestra do curso sobre a necessidade de publicidade para os meios alternativos se sustentarem. O jornalista francês ressaltou a importância desses meios, já que “democracia é o contrapoder sendo expresso” e sugeriu a busca por colaborações de empresas socialmente ou ecologicamente corretas, em sindicatos ou similiares desse gênero.
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