......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



07.10.2008
A JUVENTUDE E A VIOLÊNCIA ECONÔMICA CULTIVADA

Por Eduardo Sá, da redação

Na mesma semana em que a UERJ foi ocupada pelos estudantes ocorreu na própria universidade um colóquio abordando o tema Juventude, Subjetividades e Violência. A ocupação não foi de forma alguma violenta e os universitários têm suas reivindicações (clique aqui), enquanto o colóquio evidenciou através de especialistas a cultura e processos aos quais os jovens brasileiros estão submetidos historicamente.

Numa mesa interdisciplinar composta por profissionais com visões variadas sobre o tema foi possível constatar que alguns apontamentos caminhavam para a mesma direção. As regiões pobres foi um deles, muito se falou a respeito por que basicamente muitas dessas crianças desde pequenas “estão submetidas a uma pedagogia da violência, aprendem valores, formas de ver o mundo que permitem que a violência se reproduza”, segundo Ignácio Cano, membro do Laboratório de Análises da Violência da UERJ. E seguindo seu raciocínio, isso também pode formar uma revolta contraproducente, conceito por ele defendido, cujas “pessoas aprendem que reagir não adianta nada” por causa das conseqüências repressoras de modo a torná-los reféns do tráfico ou das milícias.

Dentro desses valores e formas de ver o mundo por eles absorvidos encontram-se os meios de comunicação com forte influência, senão o mais influente, por ser o principal agente produtor de subjetividades seja por eles acessados ou pela sociedade a sua volta que as cultiva; em grande parte graças a esses mesmos meios.

João Camillo, professor da UFRJ, acredita que essa produção de “moda e este esteticismo provocam um genocídio visto nos sistemas carcerários e periferias” de forma a construir uma “culturalização de um ciclo perverso que vai da penalização da pobreza à marginalização”; para ele a cultura é um caminho alternativo para essas regiões, mas não único nem salvador.

Fenômeno histórico
Com um mercado de trabalho cada vez mais incerto, somado às dificuldades, jovens começam no batente desde cedo fazendo talentos serem desperdiçados e infâncias reduzidas. As crianças nas ruas é um fenômeno brasileiro vindo de Portugal desde o século XVI e além deste estigma conta ainda com os moralistas que “continuam falando que o trabalho é a melhor forma de formar as crianças”, afirma a historiadora Mary Del Priori, referindo-se, principalmente, às crianças do campo hoje.

Ao mesmo tempo existem as conseqüências sociais frente ao modelo consumista pós-moderno hoje cultuado, pois publicidades chegam incessantemente a todos mistificando mercadorias enquanto só uma misera minoria tem condições econômicas de comprá-las. Fato que coloca os meios de comunicação em pauta, pois o modelo comercial pelo qual as informações são produzidas além de criar necessidades não vitais já é em si, por essas mesmas razões dentre outras, excludente.

Numa visão mais ampla sobre a juventude Marisa Fafferman abordou a situação do tráfico de drogas que é uma realidade gritante no Rio de Janeiro e de outros estados brasileiros. Para ela “esses jovens não entram para o mundo do crime, eles entram para o mundo do trabalho”, pois o tráfico estrutura-se da mesma forma que tantos outros comércios ao subordinar os jovens a horários e tarefas sob o mesmo ordenamento.

Esses jovens crescem aprendendo que a aquisição de produtos supõe uma ascensão social com o dinheiro rapidamente gasto e produzido, mas nesse caso ocorre em meio a um contrato verbal regido à lealdade ao invés de formalizado nas regras do mercado. Marisa defende que “o tráfico de drogas é um protótipo da sociedade de consumo” e esses jovens são meras “peças descartáveis para uma indústria internacional” que exige transporte, empacotamento, processos químicos e tantos outros mecanismos necessários para seu funcionamento, assim como noutros tantos negócios.

A mídia nesse contexto não só cria valores, mas também estereótipos. “A criminalização da juventude é uma constante de acumulação de capital historicamente” e o “grande discurso da mídia é que nos distanciamos desses marginalizados” ressaltou a criminologista Vera Malaguti. Nos discursos midiáticos muitas vezes indivíduos são legitimados como inimigos ou retratados como o outro distante alimentando a indiferença ou muitas vezes o preconceito.

Neste cenário descrito pelos palestrantes vê-se que um ciclo vicioso está montado. Produz-se sem parar e cultiva-se o consumo exacerbadamente, em sua maioria via subjetividades midiáticas, mais do que a grande maioria pode consumir e gerando, assim, resultados sócio-culturais catastróficos para toda sociedade.


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