......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



16.09.2008
O JABÁ UNIVERSITÁRIO NA SOCIEDADE GLOBAL

Por Marianna Araújo (*)

Vi alunos que se recusam a receber. Vi outros a quem uma pasta e uma caneta causam imensa alegria. Há ainda aqueles que recebem e ignoram a logo estampada no caderno, e alguns que reagem com surpresa ao “presente”. Refiro-me a um kit do programa Globo Universidade que vem sendo distribuído aos alunos dos programas de pós-graduação em comunicação do Rio de Janeiro (é a cidade da qual tenho notícia).

Perguntará o leitor: que mal há nisso? Nenhum. Como bem disse um colega, jornalista de boa cepa, “é só colar uma foto na capa do caderno, para não sair fazendo propaganda por aí”. Afinal, o programa é desenvolvido pela emissora Globo, empresa de comunicação brasileira. A maior do país, inclusive. Assim sendo, o jabá não é de se estranhar.

No entanto, nem tudo aquilo que se vê é verdade. Ou como diria alguém de quem não me recordo, a verdade é aquilo que encobre a realidade. Os cadernos e canetas distribuídos pelo Globo Universidade fazem parte de um projeto maior que busca realizar parcerias entre a emissora e a universidade. Nisso, também, não vejo mal nenhum. Ou melhor, até vejo, mas vejo também a possibilidade de aspectos positivos. Seria de muita valia para o espaço universitário que a maior empresa de comunicação do país abrisse suas portas para a pesquisa e para o debate. Seria. Mas não é isso que se vê.

Do Rio para Natal
Nas últimas semanas, tive notícia de mais duas ações do programa. O Globo Universidade foi um dos apoiadores do Intercom 2008, um dos principais congressos de comunicação do Brasil e que este ano aconteceu na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. As pastas distribuídas no Rio faziam parte dos kits dos congressistas. A parceria também incluiu a participação de profissionais da emissora no congresso. Sempre dando palestras.

A outra ação foi o apoio à visita do professor Jesús Martin-Barbero ao Brasil. Barbero vive na Colômbia e é um intelectual respeitado, um dos principais estudiosos de comunicação no mundo. Ele está dando uma semana de aula na Escola de Comunicação da UFRJ, numa turma que é aberta para alunos de outras faculdades.

Segundo a página do programa Globo Universidade, o projeto trata de “incentivar o intercâmbio de conhecimento entre a TV Globo e as universidades do Brasil e do exterior”. Isso com o objetivo de contribuir “para a geração de conhecimento sobre televisão no país e para a formação de futuros profissionais que apostem numa televisão de conteúdo nacional e que valorize a cultura brasileira”. Gerar conhecimento e valorizar a cultura nacional. Como é bela e animadora a verdade.

Pois bem, o que se vê por detrás daquilo que a verdade encobre é que o programa se limita a parcerias superficiais e a divulgação de trabalhos que, claro, passam por um processo prévio de seleção. No histórico de ações do projeto, disponível na página, não se vê nenhuma atividade que proponha o debate sobre questões centrais para qualquer comunicólogo brasileiro como o monopólio das comunicações e sua democratização – apenas para tocar nos temas mais óbvios, outras questões demandariam uma abordagem mais densa. Mais: qualquer pesquisador que estuda aquilo que é produzido pela emissora conhece as dificuldades de acesso que por ela são impostas. Essa situação piora se o trabalho apresenta um caráter crítico, isto é, se propõe refletir sobre questões como as que apontei acima.

Não raro, leitor, esta que vos escreve não é tão ingênua quanto parece. Para mim, sempre esteve mais do que claro que não é interessante para as Organizações Globo sentar-se com pesquisadores do campo das comunicações e discutir temas que possam interessar à sociedade brasileira. Não é interessante porque muitos destes temas vão contra seus principais interesses, quais sejam, financeiros e políticos. A Rede Globo é uma empresa e empresas funcionam segundo a lógica do lucro, do mercado. Dela, não há de esperar ações para além desse horizonte. E mais, como todo grande meio de comunicação, ela tem papel fundamental na condução do discurso hegemônico que tem lugar em nossa sociedade. Debater sobre comunicação coloca, necessariamente, este discurso em xeque. Parece-me que isso também não interessa à Globo.

Posto isso, me pergunto, então, em que medida o Globo Universidade pode contribuir à pesquisa e ao debate sobre comunicação no Brasil, para além de distribuir canetas? Financiando eventos e visitas de professores estrangeiros? Talvez.

Os rumos do programa, nós conheceremos com o tempo. Só ele mostrará a dimensão do espaço que a universidade pública vai ceder à comunicação privada. Mas, de pronto, o que está colocado, já me permite concluir, perguntando: que ambiente de pesquisa e crítica sobre comunicação social se cria quando sentamos à mesa, bebericamos da água e escrevemos nos cadernos oferecidos pelo capital, enquanto este se ocupa de esfacelar a pesquisa e a crítica sobre comunicação, ao tratá-la como uma mercadoria frutífera – em termos políticos e financeiros?

(*) Marianna Araújo é jornalista, mas não sonha em apresentar o Jornal Nacional.


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