
08.07.2008
O GLOBO FAZ ENTREVISTA COM MST, MAS NÃO A PUBLICA
Por Raquel Júnia, da redação
O Jornal O Globo de domingo, 22 de junho, traz uma reportagem com o título “MST troca a reforma agrária pelo agronegócio”. A afirmativa, de acordo com o movimento, não condiz com a realidade, até porque seria impossível dissociar um tema do outro.
E foi exatamente isso que o membro da coordenação nacional do MST, José Batista de Oliveira, respondeu em entrevista concedida ao próprio jornal. A entrevista, entretanto, não foi utilizada.
Reproduzimos abaixo as perguntas de O Globo e as respostas inutilizadas de José Batista de Oliveira e, posteriormente, a reportagem veiculada no dia 22 de junho.
ENTREVISTA DE JOSÉ BATISTA DE OLIVEIRA, DA COORDENAÇÃO NACIONAL DO MST
Pergunta 1: Houve uma redução na quantidade de ocupações e acampamentos dos movimentos sem-terra como o MST, como notamos inclusive nos dados da CPT. Alguns especialistas, como Ariovaldo Umbelino, avaliam que os movimentos vivem um "refluxo". Gostaríamos de saber qual o motivo dessa refreada.
Resposta: A Reforma Agrária está parada em todo o país, as famílias do movimento continuam fazendo a ocupação de latifúndios, manifestações e protestos. Um estudo do professor Bernardo Mançano aponta que os números de ocupações foram superiores aos dados da CPT e da Ouvidoria Agrária.
Pergunta 2: Essa mudança nas formas de protestos, que não priorizam mais as ocupações, é tática ou estratégica? Por que?
Resposta: As ocupações de latifúndios são instrumentos de luta do nosso movimento e são fundamentais. Cerca de 70% das terras desapropriadas foram destinadas para a Reforma Agrária com a pressão das ocupações. Logo, continuamos dando prioridade às ocupações de terras. No entanto, os inimigos da Reforma Agrária e dos trabalhadores pobres do campo são as empresas transnacionais que querem controlar a agricultura.
Pergunta 3: Houve uma mudança na orientação ideológica do MST?
Resposta: Não, o MST organiza os pobres de campo para fazer a luta pela Reforma Agrária e contra a desigualdade e a pobreza no campo.
Pergunta 4: O V Congresso do MST estabeleceu várias prioridades, como a luta contra o atual modelo econômico, e não priorizou a reforma agrária como objetivo maior. A reforma agrária já não basta? O MST desistiu dos antigos projetos pela reforma agrária ou esta se tornou uma bandeira menor?
Não existe uma contradição em fazer a luta pela mudança do modelo econômico e pela Reforma Agrária. A Reforma Agrária apenas se viabilizará com a superação da política econômica neoliberal. O país precisa de um modelo econômico que garanta distribuição de renda e geração de empregos, com o fortalecimento indústria e da agricultura voltada para o mercado interno, no qual a Reforma Agrária viabiliza a produção de alimentos para a população.
Pergunta 5: O que mudou realmente nas diretrizes de ação do MST depois de sua incorporação à Via Campesina?
Fazemos parte da Via Campesina desde a sua fundação, em 1993, quando participamos de uma conferência internacional com representantes de sem-terra e de pequenos proprietários rurais. Nesse sentido, contribuímos para a construção da organização, nas linhas gerais e nas propostas da VC para a agricultura. A nossa articulação internacional nos ajudou a compreender os efeitos mundiais do neoliberalismo na agricultura, que nos obriga a derrotar a estratégias das empresas transnacionais para criar condições para a produção de alimentos.
Pergunta 6: As políticas compensatórias do governo Lula, como bolsa-família, de certa forma ajudam no esvaziamento dos acampamentos?
O principal elemento para a desmobilização de parte das famílias de trabalhadores rurais é a falta de perspectiva para a realização da Reforma Agrária. Os trabalhadores vêem a reforma agrária parada em todo o país e as empresas do agronegócio comprando terras e ampliando suas operações, com apoio do governo. O Bolsa-Família tem um papel importante para garantir a sobrevivência dos mais pobres e tem um efeito anestésico. Até quando a sociedade vai manter os pobres no campo com políticas assistenciais? A Reforma Agrária é a solução para os problemas estruturais do campo.
Pergunta 7: Além disso, a simpatia das bases por Lula, que não criminaliza os movimentos sociais como fazia FHC, cria um certo engessamento dos movimentos sem-terra? Nos acampamentos ouve-se frases como "Ruim com Lula, pior sem ele...". Isso engessa as lideranças?
Não é nenhum mérito do governo Lula ser um pouco melhor que o governo FHC. A nossa avaliação é que a Reforma Agrária está parada, o governo não cumpriu suas promessas e está em dívida com as famílias sem-terra e com os movimentos sociais do campo.
Pergunta 8: A opção do governo Lula pelo agronegócio ajudou o MST a mudar suas táticas ou estratégias?
A agricultura sofreu mudanças importantes durante do governo FHC, que continuam no governo Lula, com o apoio ao modelo concentrador e devastador do agronegócio. O capital financeiro e as empresas estrangeiras, associadas com o velho latifúndio, querem controlar as terras e a agricultura. Com isso, disputamos território com as empresas transnacionais. O MST e os movimentos do campo defendemos um modelo baseado na pequena e média propriedade para a produção de alimentos para o mercado interno, com base em prática da agroecologia.
Pergunta 9: Quais são as perspectivas para o MST e também para a reforma agrária no Brasil? O MST acredita neste plano de assentar 100 mil famílias por ano ao mesmo tempo em que promete qualificar os assentamentos já existentes?
A distribuição de terras e o apoio à agricultura familiar e aos assentamentos devem caminhar de forma conjunta para a consolidação de um modelo agrícola baseado em pequenas e médias propriedades. Queremos uma Reforma Agrária que garanta a democratização da terra, educação para as crianças, jovens e adultos no campo e um programa de agroindústrias para beneficiamento e industrialização dos alimentos.
JORNAL O GLOBO
“MST TROCA A REFORMA AGRÁRIA PELO AGRONEGÓCIO”
O Globo, edição de 22/06/2008, caderno 'O País', página 15
Sem-terra deixam de lado movimento por áreas para assentamento e passam a atacar empresas do país e multinacionais
Soraya Aggege
SÃO PAULO. Os movimentos dos sem-terra estão esvaziando os acampamentos e as ocupações pela reforma agrária no país, enquanto engrossam os protestos contra o agronegócio e as multinacionais. Levantamentos feitos pelo GLOBO mostram que,
nos últimos quatro anos, os sem-terra — a maioria do MST — reduziram em 90% seus acampamentos em estradas, considerados estratégicos no movimento por reforma agrária, enquanto que, no mesmo período, o governo só cumpriu em 30% sua promessa de assentar 550 mil famílias — nos últimos cinco anos foram assentadas 150 mil novas famílias.
— Os acampados abandonaram a estrada porque se convenceram da dura realidade: Lula não vai fazer reforma agrária. Sabendo disso, o MST decidiu engrossar a demanda, e fala agora em combater o agronegócio — diz o presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), Plínio de Arruda Sampaio, que apóia o MST.
Desde 2003, após a posse de Lula, quando os sem-terra fizeram várias invasões de terras no país, os movimentos têm reduzido gradativamente suas mobilizações pela reforma agrária, ao mesmo tempo que o governo amplia programas como o Bolsa Família e demonstra sua opção pelo agronegócio e as corporações do campo.
Em 2003, 59.082 famílias acamparam nas estradas pela reforma agrária. Nos últimos cinco anos, a quantidade caiu para 10%: até dezembro de 2007, apenas 6.299 famílias se mobilizaram nos acampamentos, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
A quantidade de famílias em ocupações também diminuiu: o pico histórico foi em 2004, com 79.591 famílias. No fim de 2007, a quantidade caiu para 49.158, segundo a CPT. Ao mesmo tempo, a quantidade de assentamentos novos do governo
também foi reduzida. Nos oito anos do governo Fernando Henrique, foram assentadas 400 mil famílias. Lula assentou 150 mil em cinco anos, segundo checagens de pesquisadores sobre os dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Outro dado que pode explicar a desmobilização é a média de espera nos acampamentos: quatro anos no governo Lula, dois no governo FH, segundo estudos do geógrafo Bernardo Mançano Fernandes, da Unesp.
Maioria das terras é controlada pelo agronegócio
Para geógrafo, modelo adotado por corporações gera poucos empregos
SÃO PAULO. Do total de 420 milhões de hectares de terras agricultáveis do Brasil, o agronegócio já controla 300 milhões de hectares, boa parte por grandes corporações agropecuárias, na avaliação do geógrafo Bernardo Mançano.
Cerca de 60 milhões de hectares foram destinados à reforma agrária no país, desde o governo Getulio Vargas. O restante está distribuído na produção familiar.
— Há então uma espécie de reserva de território do agronegócio.O problema é essa “reserva” de terras que, na verdade, são devolutas — disse o pesquisador da Unesp.
Segundo Mançano, o agronegócio hoje é controlado pelas grandes corporações, envolvidas no que ele chama de “conjunto de sistemas”: — Elas têm de dois a seis sistemas, com atuação tanto em agricultura como no sistema financeiro.
Elas adotam um modelo que gera poucos empregos, provoca migrações, acaba com a diversidade e devasta regiões inteiras. Os movimentos hoje lutam contra esse modelo das grandes corporações, nacionais ou transacionais.
Para especialista, governo Lula optou por agronegócio O geógrafo Ariovaldo Umbelino, que coordena várias pesquisas na Universidade de São Paulo (USP) sobre a reforma agrária, avalia que os movimentos de massas vivem um momento de refluxo. Na teoria política, significa um ciclo dentro de um contexto histórico maior.
— As lutas de massas vivem um refluxo. Isso, no entanto, não quer dizer que no futuro a pressão não voltará a crescer. O país tem uma demanda reprimida de cinco milhões de famílias.
Para o geógrafo, os movimentos de sem-terra se subdividem hoje em dois grupos: os ligados à Via Campesina, como o MST, que querem uma mudança profunda no modelo econômico, e o “bloco sindical”, que reúne os sindicatos e federações de sem-terra, atualmente mais ligados ao governo — inclusive com cargos públicos.
— Em geral a reforma agrária não aparece mais em primeiro lugar nas reivindicações. Pelos nossos estudos, essa mudança se deve a uma combinação de fatores. O governo Lula fez uma opção preferencial pelo agronegócio — disse Umbelino.
O Ministério do Desenvolvimento Agrário contesta os especialistas. Os dados são de que nos últimos cinco anos foram assentadas 448.954 famílias. Para este ano, estão previstos R$ 4,3 bilhões no orçamento do Incra — aumento de
7,47% em relação ao ano anterior. O ministério nega que a concentração de terras esteja aumentando.
Os dados preliminares do censo agropecuário 2007 revelam que o número de propriedades rurais cresceu de 4,8 milhões para 5,2 milhões, ao mesmo tempo em que o tamanho médio delas diminuiu, segundo o ministério.