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26.06.2008
PROSAS DA ESTRADA
Por Luiza Cilente
A tarefa mais árdua que Valmir enfrenta diariamente é manter as pálpebras abertas. A sua prática exige não mais que pequenos movimentos: sentado, olhar sempre à frente horas e horas seguidas, basta uma pequena distração e tudo termina num tremendo desastre. O que não é difícil para quem dorme cerca de duas horas por dia. Nordestino, Valmir é um moreno baixinho. É desses caminhoneiros que gosta do que faz e não dispara muitas reclamações. Mas não é preciso ser phd em matemática para verificar que o peso de sua carga horária é relativamente maior da que carrega atrás de sua cabine. A rota de Valmir é sempre a mesma e a estrada é longa: de Bauru (SP) a Campo Grande (MT) são aproximadamente 663 km, percorridos em média a 60 km por hora no caminhão da empresa em que trabalha. E para cumprir essas 11 horas quatro vezes por semana, subtrai-se, então, algumas horas de sono do motorista Valmir.
Houve um tempo em que até pensou em deixar essa vida. A opção foi se deslocar junto com toda a família para o Sul do país. Para o recém ex-motorista, nesse momento técnico de uma empresa telefônica, as praias de Florianópolis nos fins de semana supriam a falta da vida deixada para trás. Quem não se adaptou à novidade foi a esposa, “lá eu ganhava melhor mas minha mulher sentia muita falta dos parentes, não agüentou, voltamos pro Mato Grosso, e eu voltei pro caminhão.” O sorriso porém não se extingue, sem rancor lamenta, “não tinha jeito né, mas eu preferia ter ficado lá, adoro praia.”
O mar já era. Mas de volta ao asfalto, a companhia do sol é constante. O calor esvai-se com a chegada do crepúsculo, mas nada de descanso: na estrada o horário é integral. As mãos só largam o volante nos segundos em que ajeita João Vitor, seu filho de apenas 7 anos. O menino sempre sonhou em viajar com o pai, que pouco tempo tem para gastar com a esposa e os quatro filhos. Quando está em casa, o que Valmir mais aproveita é a cama. No caminhão João Vitor sempre está sorridente, qualquer minuto de parada é um deleite na poltrona do motorista, com sua brincadeira preferida: imitar o pai no volante.
Caroneiro está fora de moda?
Foi bem em frente a uma distribuidora de bebidas em Bauru (SP) que o encontramos. Em meio a dezenas de caminhões estacionados, muitos motoristas tiravam um cochilo dentro da própria boléia. Outros penduravam a rede nas sombras generosas das poucas árvores que circundavam o local. Estavam esperando para carregar e retornar ao Mato Grosso. No dia seguinte já estariam voltando. O calor era escaldante, gotas de suor escorriam pelas testas de quem ousasse caminhar sob o sol. A saga de encontrar uma carona à Campo Grande nos forçava a andar pelo labirinto de caminhões. De cabine em cabine a mesma pergunta: “Carona?”. Os nãos viam seguidos das mesmas desculpas, “esse aqui é rastreado, a empresa proíbe”, “Assim sou despedido, tem sensor nos bancos, nem minha mulher eu posso trazer”.
A sorte nos acenou das portas abertas de um caminhão amarelo em busca de refresco. Já prontos para repetir o mesmo pedido quando nos vemos forçados a mudar instantaneamente o tom de voz. “Moç... menino, queríamos falar com seu pai.” Quem nos fitava de dentro da cabine era um pequeno garotinho, magro, cabelos raspados e bem agitado, João Vitor sorriu, “acorda pai” e se volta para o lado de trás da cabine onde o homem descansava na pequena e estreita cama. A surpresa foi Valmir aceitar de primeira.
Hora da parada. A quantidade de anúncios de estimulantes é bastante expressiva nos postos de gasolina. Não é à toa, cerca de 32% dos acidentes rodoviários são causados por sono no volante. Valmir evita esse tipo de substâncias, “eu tomo Gatorade, melhor coisa, é tiro e queda”. Mas acrescenta que também não recusa um dos mais famosos “estimulantes” brasileiros, o conhecido cafezinho.
“É bom dar carona também porque nos ajuda a ficar despertos, com companhia é mais difícil cochilar”, nos explica Valmir depois de nos acomodar da melhor forma em seu veículo. E para vencer o sono na companhia de desconhecidos é mesmo preciso coragem. O velho slogan hippie “paz e amor” já foi levado mais a sério pelos caroneiros. Se a estrada era uma forma de buscar um novo rumo para vida, hoje também é lugar de ganhar dinheiro fácil. E em troca da carona, pode vir um assalto. Valmir foi um que não escapou dessa, “ Dei carona para o rapaz mas no meio do caminho ele apontou uma arma para mim. O que eu ia fazer? Não podia arriscar minha vida. Perdi o emprego.” Mas com o filho a preocupação é maior. Por isso, dá carona e diminui o risco de dormir em cima do volante.
Outra artimanha para vencer o sono é o bom humor. Em busca de distração mostra-se um eficiente piadista: diante de um comentário sobre capoeira comenta com o filho “ eu também jogo capoeira sabia filho? Joga pai? Jogo ué...claro, no meio dessa estrada, tudo cheio de terra, eu tô sempre lutando “cuapueira”.
Elias também ganha a vida na estrada e vive em paradas dos postos da BR. A diferença é que ele já não percorre tantos quilômetros como seus companheiros. Seu trabalho se limita às estradas que cercam os trechos entre as cidades de Campinas e São Paulo. O guincho é seu negócio e seu orgulho. Mas até encontrar o sucesso a história foi longa. Para esse paraibano de sotaque paulista começou bem mais cedo que o comum. Foi inspirado nas palavras de seu pai, “eu saí de casa muito cedo”, que, aos oito anos, Elias foi buscar a independência. “Como? Com Dezoito?” “Não, aos oito anos mesmo”. Ainda imberbe, o rapaz desceu a costa litoral do país e foi parar na grande metrópole brasileira. No inicio contribuiu para o aumento da porcentagem de menores abandonados. Mas o motivo tão diferencial não foi computado pelas estatísticas: havia saído de casa por vontade própria, tampouco era maltratado pelos pais. “Eu queria vencer na vida sabe, daí comecei a fazer pequenos serviços, fui engraxate, fiz faxina, muita coisa até chegar onde cheguei.”
A carona com Elias, apesar de apertada (era uma caminhonete) foi bastante agradável. Falante, nos contava sua vida, ilustrada pelas fotos que carregava da família: seu filho e uma bela nora. Apadrinhando seus caroneiros, forneceu telefone “caso precisem de alguma coisa”, e não deixou de presentear com uma lembrancinha, o boné vermelho que trazia o slogan de seu negócio: “Elias Guincho”.
Outro que sempre dá carona é Valdickson. Mesmo que desvie o carona de seu destino. Ao som da clássica música sertaneja jogava conversa fora e não deixava de elogiar os dotes físicos de uma morena para quem havia dado carona. Era uma uruguaia, acompanhada do namorado. Faziam artesanato e viajavam o Brasil. “Mas que morena era aquela...”, suspira Valdickson. Os braços firmes pela força diária empregada no volante contrastavam com fios brancos na cabeça. Culpa ou não das recordações de uma morena, o desvio foi pra mais de 20 km.
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