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28.05.2008
ARTE CONTRA A BARBÁRIE
Por Jornal Surgente (*)
Um dos mais destacados nomes da comunicação alternativa na atualidade, o chargista e artista plástico Carlos Latuff se consolida como uma referência para os movimentos organizados de todo o mundo. Seus desenhos, publicados na internet, vêm sendo amplamente utilizados pela resistência palestina, pelos movimentos guerrilheiros no Iraque e na América Latina, entre outros, ganhando as ruas de vários países em denúncia à barbárie da política imperialista. No Brasil, seu trabalho se fortalece junto à imprensa sindical, na qual trabalha desde 1990.
Em entrevista ao programa Rádio Surgente, da Web Rádio Petroleira, Latuff falou sobre seu trabalho de militância artística e a importância da opção pelo caminho da luta, mesmo diante de todas as pressões a que estão submetidos os movimentos sociais.
Vigilância estadunidense
Um dos aspectos abordados no programa foi a política de vigilância e criminalização à qual estão submetidos os movimentos sociais no período democrático. Recentemente, o blog de Latuff (http://tales-of-iraq-war.blogspot.com), caracterizado pelo artista como “um bancode imagens subversivas para os movimentos de resistência”, vem recebendo sistemáticas visitas do Pentágono e dos departamentos de Defesa e Justiça norte-americanos. Para o artista, que já sofreu ameaças de morte da extrema-direita israelense em função de seus desenhos em apoio à causa palestina, a vigilância é resultado de uma política global contra os movimentos sociais.
“A questão não é que eu, particularmente, seja figura importantíssima, que mereça vigilância constante dos organismos de defesa dos EUA. De fato, existe uma vigilância dos movimentos sociais como um todo, não só através da internet. Em qualquer manifestação, por exemplo, tem pessoas de fora do movimento registrando tudo. O que é mais importante deste incidente é tirarmos a lição de que não existe mais privacidade. Na época da ditadura militar, os movimentos sociais trabalhavam na clandestinidade e isso os protegia. Hoje, o militante acha que está na liberdade e se expõe, é filmado e registrado. Se houvesse endurecimento do regime, os militantes seriam pegos um por um, todo mundo está catalogado. Essa é uma das armadilhas dessa tal democracia”, disse.
Mídia burguesa criminaliza movimentos
O programa discutiu também o papel que cumprem as grandes corporações de mídia para reforçar a política de criminalização dos movimentos sociais. Latuff, que já foi parar na delegacia três vezes por causa de suas charges, ressaltou que o tratamento da mídia burguesa à militância de maneira geral funciona como um elemento de intimidação às pessoas que poderiam se rebelar.
Exemplo disso, lembrou, foi o episódio que se desenrolou durante a realização dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro. Latuff produziu uma ilustração com a mascote do evento segurando um fuzil, ao lado do “caveirão” da PM e com uma favela ao fundo, uma denúncia à política da prefeitura de utilização da violência policial nas comunidades pobres para a garantia da “segurança” dos Jogos. O desenho ganhou ampla repercussão e um grande jornal publicou matéria sobre o assunto atacando o chargista.
A matéria, que trazia uma declaração do governador do Estado do Rio se dizendo “indignado com a charge”, foi a deixa para uma ação da polícia. “Quando li a matéria, sabia que depois viria a resposta oficial. A polícia foi me buscar em casa com uma intimação, para ‘prestar esclarecimentos’. Na delegacia, apenas prestei depoimento. Mas, depois, veio outra vez a mídia safada. Outro grande jornal publicou duas matérias sobre o caso, dizendo que eu havia sido autuado. Isso nunca aconteceu. Ou seja, a mídia cria a sua verdade, que acaba virando a verdade oficial. Para a população, ficou a versão que eu estava sendo processado, que eu fui preso. Está dado o recado: quem tem vontade de se rebelar e lê aquilo acaba se intimidando”, contou Latuff, que lembrou também o papel cumprido pela mídia corporativa em um dos mais importantes processos de luta do movimento estudantil nos últimos anos: a ocupação da reitoria da USP, em 2007.
Latuff, que foi à reitoria ocupada e produziu muitas ilustrações para o movimento, ressaltou que havia agentes infiltrados da grande imprensa na ocupação e que os estudantes eram tratados pelos grandes meios de comunicação sempre como baderneiros, marginais. Justamente por estes motivos, o artista enfatiza em seu trabalho não só a opressão da política imperialista e seus reflexos no Brasil e no mundo, mas também o tratamento dado pela grande mídia às questões que envolvem os movimentos sociais.
Muitas de suas charges destacam a mídia burguesa como importante agente da exploração, denunciando seu papel na criminalização e repressão aos que lutam. Latuff adota o copyleft em todos os trabalhos disponibilizados em seu blog. Ou seja, seus desenhos podem ser reproduzidos livremente, por qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo.
“O efeito colateral, de algum reacionário se utilizar daquilo, alterar a imagem em seu favor, é muito pequeno diante da possibilidade de colaborar com a luta dos povos em todo mundo. Quando estou na internet e vem alguém, direto de Gaza, agradecer pelos meus desenhos e dizer que eles têm sido úteis à sua luta, me sinto totalmente gratificado”, finaliza Latuff, que segue utilizando o poder da imagem para transformar consciências e construir a luta contra a barbárie imperialista em todo o mundo.
(*) Reportagem publicada no Surgente, jornal do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro.
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