|
|

26.05.2008
O QUE ABOLIRAM COM A ESCRAVIDÃO?
Por Renata Figueiredo Moraes (*)
O jornal O Globo, no seu editorial do dia 2 de maio de 2008, reforçou mais uma vez a sua opinião contrária ao sistema de cotas raciais existente no Brasil. O texto foi motivado pela entrega de um manifesto assinado por artistas, intelectuais e representantes de movimentos sociais contrários a esse sistema. No texto os editores argumentaram que o sistema de cotas favorecia estudantes de classe média “arbitrariamente classificados como negros” e que essa política servia apenas para desviar a atenção da realidade da educação brasileira, essa sim precisando de “vultuosos investimentos”.
A esse respeito ainda destacaram o abismo existente entre as escolas de qualidade, situadas em bairros de classe média, contra as da periferia, de baixa qualidade e devastadas pelas favelas. Por fim, citam uma opinião do médico Dráuzio Varela, que lembrou que antigamente todos “éramos negros” e que circunstâncias muito particulares nos diferenciaram.
Insistindo no “drama da Educação” o editorial do Jornal O Globo do dia 5 de maio de 2008 reforçou sua teoria de decadência da Educação Brasileira, já lembrada no texto de três dias anteriores. Intitulado “Ladeira abaixo”, o texto além de destacar a situação da educação brasileira, em constante queda, principalmente após a divulgação da pesquisa da UNESCO que constatou um alto índice de evasão escolar, mais uma vez serviu para criticar a política federal em relação à Educação.
Segundo eles, a obsessão do governo pelas Universidades o impede de dar mais atenção a outros setores da Educação. Além disso, lembrou que o salário dos professores nem é tão baixo se comparado ao nível de preparo desses profissionais em comparação a outras categorias. Terminam o texto com a demagogia de que é preciso motivação das escolas e de dedicação tanto do governo quanto dos professores.
Após a leitura desses dois editoriais do mês de maio de 2008, os leitores devem estar se perguntando: o que eles têm a ver com os 120 anos da Abolição? Ambos estão interligados e são motivados pela proximidade da data que não deixa de atiçar comentários a respeito da situação dos negros no Brasil. Além disso, esses textos fazem parte de uma política desse jornal e de sua empresa no combate às melhorias do ensino público, em todos níveis, e acesso democrático a eles. Ambos os textos vêm reforçar idéias preconceituosas e maniqueístas.
Primeiramente, ao serem contra as cotas que reservam parte das vagas das Universidades a negros, indígenas e estudantes de baixa renda, não produzem um debate a respeito dos seus efeitos e conseqüências. Apenas reforçam a idéia de que tal sistema favorece a classe média e que não é negra. Ora, a classe média não precisa utilizar essa política para ser favorecida no acesso às Universidades públicas.
Além disso, ao atacar as cotas não discutiram os efeitos que o acesso de um estudante carente em um ambiente universitário produz não só para a sua família, mas para a sociedade como um todo. Um outro ponto discriminatório foi reforçar a idéia maniqueísta de que bairros da periferia convivem com educação precária, enquanto que os a classe média possuem educação privilegiada.
O resultado da educação pública precária no país não deve ser vista a partir do discurso geográfico e sim como resultado de ações destinadas especificamente para gerar esse abismo não entre bairros, e sim entre sistemas escolares, ou seja, particulares X públicas. O resultado desse abismo pode ser, sim, apontado a partir dos salários dos professores não só da rede pública, mas também da privada. Em ambas, os professores são mal remunerados e possuem excesso de trabalho extra-classe, apesar da alta qualificação que se assemelha a muitos profissionais.
Não se melhora escola pública só com entusiasmo dos professores e dos alunos, muito menos com programas do tipo “amigos da escola”. O que não podemos fazer é jogar toda a responsabilidade dessa situação sobre professores que cumprem grandes jornadas de trabalho para garantir um salário razoável no fim do mês.
Por outro lado, se todos éramos negros e circunstâncias específicas nos diferenciaram, como explicar a segregação existente no mercado de trabalho, nas Universidades, na TV e em outros ambientes? O que explica esse “quadro branco” na nossa sociedade, apesar dos negros em breve serem a maioria, é a continuidade de práticas racistas e preconceituosas.
Em oposição ao manifesto de intelectuais contra as cotas, um outro foi entregue ao Presidente do Supremo Tribunal Federal defendendo essa política. Nesse também havia assinaturas de artistas, intelectuais e líderes de movimentos sociais. Eles lembraram o ingresso de mais de 20 mil cotistas aos cursos de graduação e justificaram a ação dos intelectuais contrários às cotas como fazendo parte de uma elite conservadora que quer manter o poder da época da escravidão.
Concluindo essa reflexão que ainda ganhará mais argumentos até o final do mês de maio, mês da Abolição, é necessário apontar algumas situações existentes no Brasil. O país que aboliu a escravidão há 120 anos não promoveu a abolição dos castigos morais que os negros passariam a sofrer após o 13 de maio de 1888. Quem diz que no Brasil não há diferenças de cor e de classe não vê televisão e nem lê jornal.
Além disso, é necessário políticas para a redução da desigualdade social e que devem passar por várias vertentes, sendo uma delas a educação. A política de cotas não resolve o problema da educação brasileira, mas é o caminho proposto para começar uma discussão a esse respeito. Criticar as cotas com argumentos de que todos somos iguais não justifica o fim dessa política. Por outro lado, os cotistas precisam de melhores condições de estudo para ser fatores de mudança na sociedade Brasileira.
(*) Renata Figueiredo Moraes é historiadora.
|
|
|