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08.04.2008
BRASIL: - OBRIGADA QUERIDA MÃE PORTUGAL!
Por Jaqueline Deister Moraes (*)
A comemoração mais falada do mês de março foi o aniversário de 200 anos da chegada da família real ao Brasil, mais especificamente ao Rio de Janeiro. A Prefeitura do Rio e também o Governo Federal investiram alto em exposições, recuperação de construções da época, festivais gastronômicos para relembrar a culinária joanina e até mesmo uma nova moeda de cinco reais será lançada pelo Banco Central em junho para comemorar a vinda da benemérita corte portuguesa e seus 15 mil “afilhados”, que saíram de maneira tão nobre e espontânea de Portugal. Afinal, que corte não desejaria sair de seu palácio com todas as regalias, e ir para a sua colônia de exploração subdesenvolvida?
É interessante a forma como nós brasileiros esquecemos da nossa própria história, e como os jornais tem contribuído muito bem para que nossa memória seja preenchida com a benfeitora “áurea” portuguesa. Mostrando como a família real foi “bondosa” com o povo brasileiro. Afinal, foi com a chegada de D. João VI que foi inaugurada a primeira faculdade do Brasil, a FAMEB (Faculdade de Medicina da Bahia), o Banco do Brasil, que surgiu inicialmente com a intenção de financiar a indústria, até então proibida no país. E também foi com a sua vinda que tivemos a criação da Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal impresso no Brasil.
Dessa forma, até parece que eles vieram para cá com a real intenção de alavancar nosso país, no entanto não passou de política para benefício próprio que por acaso deu certo. Vamos aos detalhes, para você compreender melhor. Por que será que até 1807 não havia uma instituição de ensino superior no Brasil? Porque não era necessário. Quem quisesse fazer um curso superior, privilégio de uma alta elite, iria para a Europa tornar-se um médico ou advogado. A corte não precisava de uma Universidade no Brasil, pois até então vivia no pólo educacional que era a Europa, mas Napoleão trouxe mudança de planos.
Com o Banco do Brasil a história também não é diferente. A intenção de financiar a indústria é apenas uma fachada para disfarçar o verdadeiro interesse, que era servir imediatamente ao Governo prestando-lhe auxílio de créditos necessários para a manutenção da Monarquia, facilitando o pagamento de pensões e promovendo transações mercantis, o que se tornaria uma importante fonte de riqueza para o Império.
Já a Gazeta do Rio de Janeiro tinha o seu conteúdo restrito à Coroa, retratando a vida cortesã em sua maioria e dando informes extremamente parciais a respeito da política internacional.
Hoje em dia os resquícios da exploração portuguesa ainda perduram pelo Brasil. Pois é... 186 anos depois de D. Pedro gritar às margens do Rio Ipiranga Independência ou Morte, ainda há o pagamento de imposto para a família real. O nome desse imposto é Laudêmio. Ele foi criado no período colonial, numa época em que Portugal era dona da maioria das terras brasileiras. Consistia basicamente no pagamento de um pedágio em cima de transações comerciais relacionadas às terras.
O município de Petrópolis, situado a 60 km do Rio de Janeiro, é um exemplo. A taxa de 2.5% do valor total dos imóveis que se situam na região central da cidade histórica é cobrada sobre os mesmos quando vendidos. A diretora da Judices & Araújo Imóveis, Patrícia Judices de Araújo Esteves, diz que o valor dos imóveis nesta área varia de R$ 300 mil a R$ 2 milhões e ressalta: “É como se eles fossem proprietários perpétuos das terras”.
E esse é o lado obscuro que a imprensa não mostra, e ao qual Lula nem chega perto de mencionar. Segundo o Presidente, a vinda da corte trouxe mudança e progresso. O Brasil abriu-se à cultura mundial. Foi um sopro de energia e inovação. O lado de “lá”, agora sim, está mostrado. Só cabe a você levantar a flâmula portuguesa junto com o governo, e dizer obrigado pela grande prosperidade. Ou refletir e questionar se esses 200 anos realmente são merecedores de tamanha comemoração.
(*) Jaqueline Deister Moraes é estudante de jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF).
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