......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



23.02.2008
DEMOCRATIZAR A MÍDIA É CONQUISTAR A TERRA

Por Marcelo Salles, da redação

Encaminho esta carta aos trabalhadores rurais sem-terra após encontro com os companheiros João Pedro, Kim e Mariana. Um dos motivos que me leva a escrever para o MST é enxergar neste movimento um profundo potencial transformador da realidade brasileira, ainda tão injusta e desigual. E também por estar absolutamente convencido de que essa transformação só vai acontecer, de fato, quando os movimentos sociais levantarem a bandeira da democratização da mídia tão alto quanto as demais.

DEMOCRATIZAR A MÍDIA É CONQUISTAR A TERRA
Por que a democratização dos meios de comunicação é fundamental para o avanço da Reforma Agrária no Brasil?

Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 2007

No Brasil, a estrutura agrária é absolutamente injusta, violenta e cruel com a classe trabalhadora rural. Apenas 1% dos proprietários concentram 48% das terras agricultáveis. Esses grandes latifundiários, muitas vezes associados ao capital estrangeiro, apropriaram-se do Estado e utilizam a máquina pública em benefício próprio. Isso inclui o uso das polícias contra os sem-terra, o acesso a empréstimos vantajosos e o rolamento de dívidas em bancos públicos.

Mas você poderia perguntar: “E daí? Qual a novidade? Quem é você para me dizer isso? Isso eu já sei, não precisa um jornalista me contar”.

Ok, concordo. Isso você já sabe. Aliás, foi com vocês que eu aprendi essas informações. Acontece que a maioria dos brasileiros desconhece esta realidade. Aqui onde eu moro tem gente que acha que fazer reforma agrária é ter seu apartamento de 2 quartos expropriado e dividido entre duas famílias. E enquanto desconhecerem essa realidade, jamais serão solidários a vocês. Pelo contrário. Enquanto essa realidade for manipulada pelos meios de comunicação de massa, a maioria das pessoas acreditará que vocês são os inimigos da sociedade. E aí a luta não avança.

No Brasil, a estrutura da comunicação é tão concentrada ou mais que a estrutura da terra. Apenas 7 famílias controlam 90% de tudo que a gente vê, escuta ou lê em jornais, rádios e televisões. E toda essa programação está a serviço da exploração do povo brasileiro e do extermínio dos povos do mundo. Aqui apóiam os fazendeiros que assassinam jovens como o Keno. Lá fora apóiam guerras que já deixaram milhares de mortos, como no Iraque e Afeganistão.

E o que nós, que desejamos uma sociedade justa e igualitária, temos a ver com essa história?

É muito simples. Na sociedade, há diversas instituições capazes de produzir subjetividades. E o que são subjetividades? São formas de sentir, ver, entender, agir e viver. Algumas dessas instituições são: a Família, a Igreja, a Escola, a Universidade e a mídia, entre muitas outras. Só que a mídia, hoje, é a mais poderosa de todas. Por quê? Primeiro devido ao avanço tecnológico, que permitiu a ampliação do alcance dos meios de comunicação. Segundo porque a mídia é a única instituição que atravessa todas as outras. Ou seja, uma pessoa que está sendo influenciada pela Igreja também vai estar pela mídia, assim como quem estiver sob influência da Escola vai estar na esfera da mídia e assim por diante, sem que o mesmo aconteça na ordem inversa.

Sendo assim, se a mensagem da mídia vai no sentido de criminalizar os movimentos sociais, a maiorias das pessoas, desinformadas e alienadas por faustões e big brothers, vai pensar, sentir e agir contra o povo organizado. Por outro lado, se a maioria das pessoas fosse informada sobre a realidade do campo, elas pensariam, sentiriam e lutariam ao lado dos trabalhadores rurais. Para tanto, é preciso dar um basta à concentração da mídia no país. Além de ser ilegal (o artigo 220 da Constituição proibe monopólio e oligopólio dos meios de comunicação), essa situação é uma verdadeira agressão contra todos aqueles que lutam por justiça social, como, por exemplo, o MST.

Portanto, para que a luta pela terra avance no Brasil, seria importantíssimo que o MST incorporasse a luta pela democratização da mídia. O MST é o movimento social mais importante do país. A força de vocês pode nos aproximar da vitória sobre esses oligopólios da comunicação. Precisamos garantir emissoras de rádio e televisão, além de jornais, para os vários segmentos da sociedade: estudantes, trabalhadores urbanos, trabalhadores rurais, movimento negro, índios, mulheres, desempregados e etc. Só assim seremos capazes de transmitir uma outra mensagem que atinja a maior parte da população. E aí, quando isso acontecer, a maior parte da população vai poder identificar e se voltar contra os exploradores. E, também, lutar pela reforma agrária ao lado dos sem-terra.

Democratizar a mídia é conquistar a terra!

Atenciosamente,
Marcelo Salles, jornalista.


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