......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



04.02.2008
4 ANOS FAZENDO MÍDIA

Por Marcelo Salles – salles@fazendomedia.com

Domingo de carnaval, chove no Rio. Dois helicópteros sobrevoam o Cristo Redentor enquanto escrevo, e vez por outra as nuvens dão uma folga e permitem que a luz esquente o gigante de concreto que não cansa de abençoar a cidade. Enquanto os turistas enfrentam fila e congestionamento para alcançar as Paineiras, aproveito o feriado para refletir um pouco sobre o Fazendo Media, cuja versão eletrônica completou 4 anos agora em janeiro. Nesse tempo, publicamos mais de mil textos, entre reportagens, artigos, entrevistas e comentários aqui neste Proto-Blog. A participação dos leitores também foi maciça: cerca de 10 mil correios eletrônicos e comentários diretos nos textos chegaram até nós. O acesso ultrapassou as duas mil visitas diárias e cinco mil page views por dia, e vem se mantendo nesse patamar, caindo um pouco aos finais de semana e subindo entre segunda e sexta-feira.

Lembro do início de tudo. Ainda não tinha entrado na faculdade quando decidi que faria uma revista com o objetivo de denunciar as injustiças, o que na minha cabeça seria uma forma de combatê-las. O exemplo que eu sempre citava ao tentar arregimentar gente para a empreitada era o seguinte: se a gente mostrar para as pessoas que a Nike fabrica tênis com mão-de-obra escrava as pessoas não vão mais comprar dessa empresa e ela vai ter prejuízo, quem sabe até ser obrigada a fechar as portas. Minha idéia era entregar uma revista na mão de cada brasileiro. Raciocínio coerente, mas muito simplista. Com o tempo, percebi duas coisas: 1) financeira e operacionalmente era impossível implementar uma distribuição como essa, que atingisse nada menos que 190 milhões de pessoas; 2) vários cretinos simplesmente não se importavam com essa exploração e continuavam comprando da Nike mesmo sabendo como ela fabricava seus tênis.

E a realidade se impôs pra valer quando fui atrás do orçamento. Então descobri que não tinha dinheiro nem para imprimir um pequeno jornal, quanto mais para rodar uma revista. Entretanto, antes que o desânimo enterrasse meu projeto, descobri que era possível veicular um programa na TV Universitária – sem papel, tinta e nenhum outro custo além do esforço pessoal de cinco estudantes de jornalismo da Universidade Federal Fluminense. A partir daí, conhecemos a Associação de Engenheiros da Petrobrás numa cobertura que fizemos da Bienal do Livro e eles se interessaram pela idéia e bancaram (bancam até hoje) a impressão de um pequeno jornal, que hoje tem 2 mil exemplares de tiragem e oito páginas, mas no início tinha apenas 500 exemplares e 4 páginas. Já estamos na 61ª edição.

Mas por que essa vontade tão candente, esse esforço quase obsessivo (ou obsessivo mesmo) para construir um veiculo de comunicação que inicialmente se propunha a denunciar as injustiças, e que depois forjou sua identidade enquanto espaço para análise e crítica das corporações de mídia? Sinceramente, não sei por que comecei a pensar nisso. Ando meio pra baixo com as perspectivas do país. Compreendo que houve avanços em relação ao governo neoliberal tucano, mas continuo achando sofríveis os principais indicadores de uma população saudável física e espiritualmente. No Brasil ainda se discutem questões básicas, que já deveriam (e poderiam, caso houvesse vontade política) ter sido resolvidas há muito tempo como saúde, educação, habitação e saneamento básico.

Por que nós do Fazendo Media, estudantes de jornalismo, não fizemos como a esmagadora maioria dos nossos colegas, que se conformaram com a estrutura do jornalismo praticado no país? Por que não fizemos como eles e simplesmente entramos no jogo do poder das corporações de mídia? Poderíamos hoje estar bem resolvidos financeiramente, com altos salários e status elevado na opinião de certo meio social. Bastaria que a gente se adequasse ao tom oficialesco das notícias e de vez em quando fizesse a cabeça da população para aceitar a violência contra quem mora em favela ou para aceitar a violência financeira contra a classe média, que, ao contrário do morador de comunidade, nem se dá conta do que acontece quando seu salário perde poder aquisitivo.

Felizmente, houve quem dissesse não. Mesmo sabendo que encontraríamos dificuldades em nossa profissão, ousamos divergir e trilhar caminhos alternativos. Em vez de aceitar uma carreira assujeitada pelos donos do poder, resolvemos fazer valer nosso juramento profissional: “A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade".

Infelizmente, entretanto, a estrutura político-econômica do nosso país ainda não permite a existência de um veículo de comunicação de grande audiência que seja pautado pelo juramento profissional. Trata-se, por certo, de uma contradição em termos. Um escândalo, que vai se refletir na vida de todo cidadão.

E aqui finalmente chego onde queria. As corporações de mídia trabalham para manter o sistema injusto e, por possuírem grande alcance, pautam a agenda pública e privada da sociedade – paralelo a isso, as tentativas de transformação são violentamente atacadas. As linhas de fuga, que sempre existem (pois onde há poder, há resistência), não conseguem estabelecer um contraponto eficaz, já que os meios alternativos de comunicação não possuem grande alcance e ainda não constituíram uma rede consistente de notícias.

Muitos desconhecem esta configuração do poder midiático no Brasil e dizem que nós, os alternativos, não temos grande audiência porque nosso trabalho é inferior àquele realizado pelas corporações de mídia. Fosse assim, um repórter do jornal O Globo, que trabalha na coluna auto-proclamada “a mais lida do Brasil”, não teria acessado este fazendomedia.com e copiado uma informação sobre a posição do Grupo Tortura Nunca Mais em relação ao filme Tropa de Elite. O texto, devidamente distorcido, foi publicado 3 dias depois de ter ido ao ar em nossa página. Quem duvidar pode telefonar pra lá e perguntar à presidente da entidade, Cecília Coimbra, que vai confirmar a história. Engraçado isso. Um dos jornais de maior circulação do país precisou visitar o Fazendo Media uma vez (terá sido apenas uma?). Talvez para arejar, já que ninguém agüenta respirar manipulação o dia todo.

O domingo já vai acabando, a chuva parou no Rio. O Cristo, iluminado, apieda-se de um dos maiores crimes já cometidos contra a cultura brasileira: o roubo do carnaval carioca pela televisão – mais uma notícia que você não vai encontrar nas corporações de mídia, mas talvez numa publicação alternativa daqui a uns dias. Eu vou fechando por aqui. Espero que você se divirta no carnaval, mas que também reserve um tempinho para pensar nisso: a democratização do país passa necessariamente pela democratização da mídia.


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