
26.11.2008
SONHOS VELADOS: A FOTOGRAFIA COMO EXERCÍCIO DE LIBERDADE
Por João Paulo Gondim, da redação. Fotos: Exposição Sonhos Velados

Ele vem andando com passos firmes. É um senhor vigoroso, não sente o peso das oito décadas de vida. A energia que emana dissipa o frio do começo de noite da primavera carioca. Ao chegar defronte da antiga construção, que começou a ser erguida há 102 anos, é saudado por dez admiradores. Cumprimenta a todos, mas prefere ir direto ao assunto. Flávio Damm, decano do fotojornalismo brasileiro, deseja finalmente conhecer aquilo que o motivou a estar ali em Ipanema: a exposição fotográfica Sonhos Velados, na Casa de Cultura Laura Alvim, em cartaz até 4 de janeiro.
Ciceroneado pelo amigo e curador da mostra, Dante Gastaldoni, Damm usa seu instrumento de trabalho há 64 anos, os “olhos”, e esquadrinha as 150 imagens produzidas por menores em conflitos com a lei, acautelados em unidades do Degase. As fotografias são o produto das oficinas do projeto FotoOlhares, ministradas na Escola João Luiz Alves, que acolhe rapazes, na Ilha do Governador, e no Centro de Recursos Integrados de Atendimento ao Menor (Criam), exclusivo para moças, em Ricardo de Albuquerque.

Devido ao toró diluviano que caiu sobre o Rio de Janeiro e antecedeu a abertura da mostra, em 17 de novembro – apesar do vendável, o público nesse dia foi de 150 a 200 pessoas –, Damm só pôde conferir as 25 imagens em backlight e as demais em slide show e revelar sua opinião sobre o que viu, três dias mais tarde.
“A minha impressão é a melhor possível. Percebo que existe, por parte dessas pessoas, a consciência de exercer uma saída do lugar onde estão confinados através da fotografia”, afirma o ex-repórter fotográfico da revista O Cruzeiro, que faz questão de destacar uma imagem como símbolo da mostra.

“Aquela foto da menina andando de bicicleta em cima de uma roda é a síntese da exposição. Andar de bicicleta é uma forma de liberdade. Numa roda só, então, é duplo exercício de liberdade. Isso, para a pessoa que fotografou atrás das grades é um pulo imaginário, um pulo ideal. É um sonho, como o título dessa mostra”, garante o veterano fotojornalista.
A exposição também encantou outros fotógrafos renomados. Severino Silva, do jornal O Dia, ficou impressionado com o apuro visual dos menores (“gostei muito daquela em que há o muro com a inscrição: a beleza ta no olho de quem vê ou sente”) obtido em apenas quatro meses de oficina e espera que os jovens, se quiserem ingressar na profissão após cumprirem pena, continuem a se esforçar, não temam o trabalho, já que potencial eles têm. Guillermo Planel, diretor, juntamente com Renato de Paula, do documentário Abaixando a Máquina – Ética e Dor no Fotojornalismo Carioca (2008), filmou a exposição no dia da visita de Damm.

O fotógrafo e documentarista definiu a iniciativa das oficinas como “simplesmente fantástica” e chamou a atenção para o feito da mostra, com trabalhos de pessoas estigmatizadas por grande parte da sociedade, estar sendo realizada na avenida Vieira Souto, em Ipanema, Zona Sul da cidade.
O caminho que desembocou na área do metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro começou a ser traçado na Maré, Zona Norte. Foi nessa região, que apresenta o quarto pior IDH do município, que surgiu em 2004 a Escola de Fotógrafos Populares, criada por João Roberto Ripper e Ricardo Funari. A escola, cujos alunos majoritariamente são oriundos de comunidades do Rio, é um dos braços do projeto Imagens do Povo. Os outros são o banco de fotos e a agência homônima ao projeto. A iniciativa é um projeto da organização Observatório das Favelas, sediada no mesmo bairro.

No final de 2006, uma reportagem sobre a escola publicada na revista Fotografe Melhor chamou a atenção de Eduardo Caon, gerente de projetos do Degase. Responsável por organizar oficinas para os internos, como as de bordado, cabelo afro, capoeira e esportes, Caon convidou Dante, então coordenador da escola ao lado de Ripper, para replicar no Degase o trabalho desenvolvido na Maré. Ainda não havia a idéia de exposição, mas para conduzir as aulas, professores é que não faltariam: os ex-alunos formados pela própria Escola de Fotógrafos Populares, instituição que tem um caráter multiplicador, através da formação de quadros ideologicamente orgânicos.
Por haver ministrado uma oficina para jovens de quatro bairros do Rio (Jacarezinho, Manguinhos, Campo Grande e Santa Cruz), Fábio Caffé foi o primeiro professor convidado. Pouco mais tarde, o projeto foi reforçado com as entrada de Francisco Valdean – que trazia a experiência de aulas em Belo Horizonte e Porto Alegre com os amigos Bira Carvalho e Sadraque Santos. Seu ingresso ocorreu num churrasco de chá de bebê, na Maré, de uma amiga fotógrafa da Imagens do Povo, Jaqueline Félix. Por fim, houve a adesão de Davi Marcos, que vinha acumulando um excelente trabalho na Casa Daros, juntamente com o Caffé. Estava formada a jovem equipe – os três com menos de 30 anos – equipe do projeto FotoOlhares.
Munidos de sete câmeras (sendo quatro do projeto e as outras dos oficineiros), Caffé, Marcos e Valdean “com talento, dedicação e muito amor, conseguiram sensibilizar os meninos e meninas do Degase e semear luz por lá”, diz Dante.
Duas dessas garotas “sensibilizadas” são Evelyn Gomes e Menitten Barbosa, elas vêm fotografando alguns eventos para o próprio Degase e há, ainda, a possibilidade delas fotografarem eventos da Secretaria de Educação do Estado do Rio. Além disso, ambas serão remuneradas para acompanhar o público visitante da exposição. O repórter não teve oportunidade de falar com Menitten, mas soube que a menina foi premiada em outubro num concurso de redação da revista Seleções do Readear’s Digest. “Sua vida mudou, ela foi inoculada com alguma coisa do Bem”, acredita o curador da mostra.
Conversar com Evelyn é fácil. Perspicaz, autora de tiradas como “o projeto nasceu num chá de bebê”, diz que antes de ir para o Criam tirava fotos da paisagem do entorno da casa e das “lindas sobrinhas”, embora possuísse conhecimentos parcos de fotografia. “Antes de começarem as oficinas, estava muito aflita ali dentro [Criam]. Minha vida era horrível.Tinha muito tempo ocioso. Depois que começaram as aulas, fiquei melhor”, garante Evelyn. Entusiasmada pela fotografia, ela passou a freqüentar, como ouvinte, as aulas de Linguagem Fotográfica ministradas por Dante no Curso de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF).
O projeto FotoOlhares rendeu frutos que beneficiaram os que ainda estão no Degase. Segundo Caon, a auto-estima desses jovens foi aumentada, e muito. Um dos motivos é justificado pelo próprio funcionário da instituição. Como os espelhos são proibidos nas unidades, há jovens que não se vêem mais. Por sua vez, as fotos permitiram a volta do olhar a si próprio.

Encerradas as oficinas, era hora de apresentar as imagens numa exposição. Para tanto, foi essencial o patrocínio da Petrobrás e o acolhimento da Ação Comunitária do Brasil (ACB). Houve, de início, uma edição coletiva na casa de Dante. Foram escolhidas 51 fotos. Logo constatou-se que a “boa idéia” seria ampliar esse número.
Dois meses depois, cada um dos oficineiros entregou ao Dante um DVD com material adicional e o curador fez a edição final, com o auxílio de Paulo Duque Estrada, fotógrafo e produtor convidado para cuidar da exposição. Selecionadas as imagens, a Casa de Cultura Laura Alvim aceitou abrigar a mostra. Como as dimensões do local são reduzidas, optou-se pelo uso do slide show, como recurso para ampliar a amostragem. Encantada com o projeto, a diretora da casa, Lygia Marina, assegurou que a mostra encerraria 2008 e abriria 2009.

Faltava algo importante: o batismo da exposição. Num brainstorm coletivo, sempre na casa de Dante (escritório informal do Imagens do Povo), foram feitas inúmeras tentativas. Descartaram-se os títulos mais óbvios: Sonhos Revelados, Sonhos de Liberdade...Não! Nada de clichês. O nome devia fazer jus à criatividade dos alunos. Eureka! Isso, o nome estava decidido, trazendo todos os simbolismos a reboque: Sonhos Velados. Nesse mesmo encontro entre os realizadores da mostra, outra idéia luminar: Davi Marcos sugeriu que o slide show fosse projetado num lençol branco. A prosaica tela, argumentou o fotógrafo, remete a sonhos...
A idéia é que após a temporada na Laura Alvim, a exposição tenha itinerância. E que a “estação primeira” seja o Degase. Há planos de que as fotos percorram as universidades. Provavelmente, os Sonhos Velados serão exibidos na próxima edição do FotoRio e no programa Diálogos Interurbanos, na Casa França-Brasil, em novembro de 2009.

Contudo, por mais que seja estendida e passe por outras galerias, numa hora essa exposição acabará. Mas seu fim não tem importância. Como também não é relevante saber se os internos se transformarão ou não em fotógrafos. Importante é que os sonhos fomentados por iniciativas como FotoOlhares sejam multiplicados e reveladao. Que a sociedade vele esses jovens tão velados. Somente assim, respeitados e considerados cidadãos plenos, eles poderão andar em plena Vieira Souto com a mesma firmeza do grande Flávio Damm.
Sonhos Velados
Casa de Cultura Laura Alvim.
Avenida Vieira Souto 176, Ipanema.
Tel. 2332-2015.
Todos os dias, 13h - 21h.
Entrada franca. Até 4 de janeiro.