......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



24.09.2008
CRÔNICA DEDICADA A FAUSTO WOLFF

Por Vitor Munhoz (*)

Pensávamos e pulsávamos meu amigo Japir e eu, enquanto passávamos pela rua. Japir é um hippie que me visita de quando em quando. Nesta tarde chuvosa, conversamos em meu apartamento e, cada um com os próprios compromissos, saímos juntos. Uma conversa sobre a possível paternidade ausente de Deus, nascida no elevador, se desenvolveu durante o percurso. Ao nos despedirmos, ele recomendou que eu me lembrasse apenas de coisas boas e projetasse um futuro bom, enquanto vivesse o presente. Assim, atingiria a freqüência de 7,5 Hz em que vibra o Universo. Abraço, tchau!

“Lembranças boas?”, pensei. Onde estão? Automaticamente, decidi criar memórias boas “a partir de agora”. Puxei a cauda do meu passado para mais perto. Digamos... Cinco minutos?

Ao primeiro sinal de trânsito, uma senhora idosa ao meu lado parecia uma feiticeira celta com seus longos cabelos brancos. No contexto de meus pensamentos místicos, imaginei que ela estivesse ali por alguma razão. Assim, para pôr em prática meus planos sobre sintonizar-me com a freqüência do Universo, resolvi elogiar suas belas madeixas. Inclinei-me levemente para ela e, com um sorriso galante, iniciei:

– Senhora, eu gostaria apenas de... – mas fui interrompido por um grito de “Ai! Que susto!” acrescido de um olhar arregalado e expressão de puro pavor.

Por um momento, eu havia esquecido as conseqüências causadas pela minha condição de jovem negro no atual contexto sócio-histórico-político-erótico-econômico mundial. Eu representava uma ameaça atávica. O susto daquela senhora foi construído há centenas de anos. É um susto ocidental, capitalista, democrático, classe-média. No caso, ocorrido na travessia da Avenida Visconde do Rio Branco, centro de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil, América Latina.

Inabalável, prossegui: – ... elogiar seus cabelos tão lindos. Ela, aterrorizada, aos pulinhos se afastou de mim. Uma menina observava a cena com muita atenção. O sinal fechou e todos começaram a travessia da pista. Lá pelo meio do caminho, a senhora virou a cabeça, procurou-me com o olhar, encontrou, e expressou no rosto o rosto do nojo. Então, virou rápido a face, o que garantiu um belo movimento lateral de seus longos e belos cabelos brancos. Sumiu da vista, mas não da memória.

Vesti um sorriso sem-graça diante dos olhares da menina atenta para camuflar minha dolorosa frustração. Não criei uma boa lembrança como queria. Pelo contrário. Talvez tenha sido criada mais uma das más lembranças de uma vida.

Mas eu já não podia pensar neste passado-recente. Estava atrasado no futuro-recente para uma conferência dedicada aos meios de imprensa alternativa. Nestes espaços, não se busca omitir fatos do passado. Normalmente se identifica a crueza do presente para se projetar um futuro melhor.

Sintonize no seu dial mental: 7,5 Hz FM, a freqüência universal!

(*) Vitor Munhoz é jornalista e integra o coletivo de produção da Radiorevista Comunidade em Rede, da Agência Pulsar-Brasil.


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